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Porto Iracema: escola chega a 8 anos buscando manutenção e expansão

Uma das referências de formação no âmbito do governo estadual, Escola Porto Iracema das Artes completa oito anos em momento de balanço das atividades
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No Percurso de som e de câmera do curso básico em Audiovisual, estudantes podem participar de processos de gravação. Na foto, registro de julho de 2019 do Percurso de som e de câmera na gravação do curta coletivo 'O Céu de Marcela' (Foto: Alan Sousa / divulgação)
Foto: Alan Sousa / divulgação No Percurso de som e de câmera do curso básico em Audiovisual, estudantes podem participar de processos de gravação. Na foto, registro de julho de 2019 do Percurso de som e de câmera na gravação do curta coletivo 'O Céu de Marcela'

A Escola Porto Iracema das Artes é um projeto que nasce da confluência de movimentos anteriores. Não só os de preparação para instalação, mas também alguns mais antigos ainda, como atesta a inspiração direta na experiência do Instituto Dragão do Mar - espaço de formação no Ceará marcado pelo papel relevante e por tensionamentos institucionais que teve atividades entre 1996 e 2003. Completando oito anos no próximo dia 29, o Porto - um dos equipamentos da Secretaria da Cultura do Ceará cuja gestão é feita pela Organização Social homônima ao projeto inspirador, Instituto Dragão do Mar (IDM) - se aproxima de um momento importante. Proposta e iniciada no governo Cid Gomes, a escola se desenvolveu ao longo do governo Camilo Santana, que se aproxima do fim em 2022. O momento que se estabelece, então, é ao mesmo tempo de balanço e desejo de expansão.

O Porto se tornou, hoje, uma das principais referências formativas do âmbito estadual. O modelo dos Laboratórios de Criação, por exemplo, foi adotado na Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco e no Centro Cultural Grande Bom Jardim, onde também é realizado um Curso Técnico em Dança.

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"Estas inserções são evidências da capacidade dos modelos, da potência da proposta", avalia a diretora do Porto e Diretora de Formação do IDM Bete Jaguaribe, lembrando também que cada equipamento tem especificidades. "A ideia do laboratório, por exemplo, ganha perfis diferenciados na gastronomia, na experiência do Bom Jardim. Iremos fazer um encontro só para discutir o laboratório com as casas, para compartilhar o que está acontecendo", adianta a gestora.

Em março de 2020, quando as atividades ainda estavam liberadas, o Porto Iracema recebeu Oficina de interpretação para Cinema e TV, com Marcélia Cartaxo(Foto: Té Pinheiro / divulgação)
Foto: Té Pinheiro / divulgação Em março de 2020, quando as atividades ainda estavam liberadas, o Porto Iracema recebeu Oficina de interpretação para Cinema e TV, com Marcélia Cartaxo

"O modelo pedagógico da Escola é uma referência muito bem sucedida. Estamos exatamente no momento do exercício de fazer um estudo e um aprofundamento da metodologia, mas também de abertura para outras possibilidades pedagógicas que atendam outros equipamentos e contextos", desenvolve a diretora-presidenta do IDM Rachel Gadelha - adiantando a construção de uma proposta de formação "estruturada e em rede" para arte e cultura a partir das experiências de equipamentos do Instituto que possa "servir de apoio, referência e inspiração" para outras escolas.

A diretora-presidenta lembra, ainda, que o IDM é gestor de equipamentos fora da área cultural, como o Complexo Ambiental Mirante do Caldas - em Barbalha, recentemente somado ao escopo de gestão do Instituto -, voltado à educação ambiental, e o Centro de Formação Olímpica, que alia educação e esporte. Um foco, portanto, é pensar "como a gente pode integrar essas experiências de formação, aproveitando umas às outras e preservando a singularidade e o espaço de cada uma".

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Apesar das forças, o Porto Iracema também foi afetado pelo cenário da pandemia. Além das devidas adaptações ao formato virtual, a escola teve que abrir mão, em maio, do prédio no qual funcionava o Centro de Narrativas Audiovisuais - CENA 15, na rua José Avelino. O motivo foram os "ajustes orçamentários" promovidos pelo Governo para o enfrentamento à covid-19. "A experiência artística foi afetada tanto do ponto de vista da sensibilidade como do ponto de vista econômico", atesta Bete.

Alguns planos da escola para 2020 tiveram, também, que ser repensados, como a ampliação do número de projetos selecionados em cada laboratório. "A gente tinha se preparado para que fossem seis, com aumento da bolsa, mas tivemos que escolher entre as duas expansões", explica. Desta forma, o modelo seguiu com os costumeiros quatro projetos por laboratório, mas com bolsa ampliada. Outro impacto se deu no programa de formação básica. "Ele é de iniciação. Demanda presencialidade, encontro", explica.

A gestão pretendia, ainda, expandir os programas para o interior do Estado, mas a intenção também precisou ser adiada. "Tínhamos programado para 2020 uma ampliação das atividades para o interior e não pudemos fazê-lo por conta do corte. É uma coisa que a gente vem trabalhando, mas não conseguimos fazer", lamenta Bete, reconhecendo a importância da interiorização de ações.

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"Se você me perguntar o que eu gostaria de ter feito e não fiz nesses oito anos: jogar o programa básico de formação para todos os municípios do Ceará. Ampliar, oportunizar o acesso ao repertório estético não só na ideia de formar artista, mas para decifrar o mundo contemporâneo", divide.

Muitas experiências de políticas públicas esbarram nas descontinuidades, fato evidenciado de forma flagrante a nível federal desde 2017. No Estado, porém, também se destaca a marca da inconstância - como comprova o próprio fato do Porto recuperar a experiência do Instituto Dragão do Mar, encerrado após uma troca de gestão.

Show da banda Viramundo na Mostra de Artes do Porto Iracema(Foto: Alan Sousa / divulgação )
Foto: Alan Sousa / divulgação Show da banda Viramundo na Mostra de Artes do Porto Iracema

Questionada sobre a situação em relação ao Porto, Bete é realista. "Se ele não tivesse fechado, como o campo cultural estaria hoje? Estaríamos discutindo outras questões e não essa, sobre a manutenção de uma escola", introduz a gestora. "Não tenho resposta, mas tenho desejos. As políticas públicas estão sempre ameaçadas, mas tenho o desejo muito forte que o Porto continue. Vou me empenhar de forma forte, enquanto cidadã, para que continue", divide.

Para Rachel, um elemento importante no cenário é a sociedade organizada. "A gente procura trabalhar com os equipamentos culturais de forma que a sociedade se aproprie deles, que as pessoas precisem deles. Caso chegue um dia - do jeito que as coisas estão no Brasil, num cenário muito ruim -, que a população diga 'nós precisamos, esse espaço é nosso'", compreende. No caso do Porto, a diretora-presidente do IDM avalia: "A Cidade se apropriou e o equipamento faz uma gestão que o mostra como necessário".

Os movimentos de balanço das ações, atividades e práticas de gestão que devem marcar o próximo ano e meio, para Bete, são oportunidades de potencializar os entendimentos acerca da escola, outros espaços e da políticas. "Estamos executando uma sistematização das experiências do Porto e outras escolas e a publicação dessas experiências é uma estratégia que pode fortalecer a permanência delas", afirma.

Escola busca ampliar a formação básica no Estado

Desde o início de agosto, o Porto Iracema das Artes deu início à edição de 2021 do Programa de Formação Básica, voltado prioritariamente para estudantes da rede pública de ensino do Ceará. A partir deste ano, 50% das vagas passaram a ser destinadas a pessoas autodeclaradas pretas, pardas, indígenas, quilombolas, com deficiência, travestis, transexuais e transgêneros. Para os próximos passos, a intenção da Escola é expandir o programa para municípios do interior cearense.

Os percursos da edição atual são de Desenho e Pintura, Fotografia Digital, Audiovisual e Teatro, com atividades realizadas de forma virtual, o que naturalmente impactou no formato das aulas, conforme explica Edilberto Mendes, coordenador pedagógico da Escola e do Programa de Formação Básica. “O desafio nesse cenário que impõe a modalidade remota é fazer um exercício de deslocamento das ideias de estudo e de aula estabelecidas, escapar da simples reprodução de uma aula presencial”, aponta o profissional.

“Buscamos pensar o que a cultura digital nos proporciona em termos de espacialidade, essa conexão em rede de pessoas que estão fisicamente em diferentes espaços, as possibilidades de interação que essa rede proporciona, as formas de engajamento específicas de uma sala de encontro virtual, os instrumentos que elas disponibilizam”, segue Edilberto.

Ele destaca, ainda, uma preocupação com o tempo de exposição às telas. Por isso, a opção foi por “módulos e encontros de duração mais curta e por trilhas de aprendizagem bem diversas”.

A estrutura curricular da formação básica do Porto prevê, como Edilberto explica, um ciclo de módulos de iniciação, um ciclo de oficinas de criação nas férias e o Preamar, ciclo no qual estudantes que participaram dos cursos de iniciação podem aprofundar a criação artística.

Os primeiros já estão em andamento, no modelo remoto citado, mas oficinas de férias - planejadas para acontecerem entre dezembro e janeiro - e o Preamar podem se desenrolar em formato híbrido, como adianta o coordenador ao Vida&Arte. “A escola tem uma postura de se deixar interpelar pela experiência e estamos justamente nesse processo de experimentar nossa estrutura de formação nessas modalidades e desenhar possibilidades futuras”, explica.

De acordo com dados repassados ao O POVO pela assessoria do Porto, a edição atualmente em curso da Formação Básica recebeu um total de 1107 inscrições de todo o Estado. No total, contando com Fortaleza, foram recebidas inscrições de 157 municípios cearenses.

Ainda de acordo com os dados, excetuando-se a Capital, os destaques entre os municípios com maior número de procura para inscrição são Caucaia e Maracanaú, ambos da região metropolitana. Juntos, eles somam mais de 97 inscrições.

Por outro lado, outros municípios do levantamento, como Crato, Sobral e Horizonte, têm 11 inscrições cada. Os números evidenciam a ainda presente concentração de participação de estudantes, fato sobre o qual o Porto busca agir para reparar.

Conforme a diretora Bete Jaguaribe adiantou ao V&A, um dos projetos previstos para 2020 para a Escola envolvia aprofundar a interiorização de atividades. “Temos projetos de expansão da formação básica, especialmente para o interior do Estado”, reforça Edilberto.

“Temos defendido a formação básica em artes numa perspectiva complexa, que possibilite aos estudantes não apenas adquirir um conhecimento basilar específico na área, mas pensar, discutir, experimentar a arte como lugar possível de auto subjetivação, de construção de trajetória pessoal e profissional, de inserção no social”, elabora o coordenador.

“Temos conseguido alcançar e priorizar na formação básica jovens estudantes da rede pública de ensino que historicamente têm mais dificuldade de acesso à formação em artes. Temos jovens que passaram pela formação básica e formaram coletivos de criação, outros que posteriormente ingressaram nos Laboratórios de Criação, outros que retornaram para a escola como professores de cursos básicos, indicando diferentes desdobramentos possíveis da formação”, avança.

Conteúdo atualizado às 11h05min

8 anos da Escola Porto Iracema das Artes

Quando: até 30 de agosto
Onde: www.youtube.com/user/PortoIracemaDasArtes
Gratuito
Programação completa: bit.ly/PortoIracema8Anos
Mais informações: @portoiracema

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