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Novas séries cearenses estimulam debate sobre produção local

A partir de movimento robusto de anúncios e estreias de séries de TV com DNA cearense, V&A conversa com especialistas sobre este momento
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Halder Gomes e Edmilson Filho posam nas gravações 
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Foto: Jorge Silvestre / divulgação Halder Gomes e Edmilson Filho posam nas gravações de "O Cangaceiro do Futuro", produção cearense da Netflix

Entre fevereiro e março de 2022, duas séries cearenses estrearam em diferentes janelas e uma terceira foi anunciada ainda para este ano. "Meninas do Benfica", criada por Roberta Marques, foi lançada em 2 de março, no Canal Brasil, sendo disponibilizada depois na Globoplay; "3 Tonelada$", sobre o assalto ao Banco Central, foi primeiramente anunciada pela Netflix em fevereiro, chegando à plataforma neste mês; finalmente, "O Cangaceiro do Futuro" também teve anúncio confirmado pelo Netflix, tendo estreia prevista para o segundo semestre. Produções seriadas não são novidade no panorama local — basta lembrar que entre 2018 e 2019 estrearam "Lana & Carol", exibida na TV O POVO; as animações "Astrobaldo", da Lunart, e "Um Conto em Cada Ponto", da Tusche; e a websérie "La Casa du'z Vetin", do selo Vetinflix —, mas a confluência temporal recente e o peso do investimento de streamings no atual contexto apontam para uma necessária análise sobre o cenário do audiovisual local.

Com a diminuição de recursos públicos para o audiovisual na última meia década, a iniciativa privada, sejam empresas tradicionais ou plataformas de streaming, vem "ocupando" parte significativa do lugar de investimento nas produções nacionais, inclusive buscando a descentralização de paisagens, histórias e vozes.

"3 Tonelada$" tem produção principal da sudestina Mixer Filmes, mas conta na produção executiva com a cearense Íris Sodré e, na produção associada, com a produtora local Gavulino Filmes e o jornalista do O POVO Marcos Tardin.

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Para Iris, a participação privada na produção nacional é "de extrema importância". "Vejo esse momento como de grandes oportunidades, não somente para as produtoras, mas para todos os profissionais do setor e prestadores que fornecem alimentação, transporte, hospedagem", elenca.

"Sinto que é crescente o investimento dessas plataformas na produção de conteúdo brasileiro e, cada vez mais, as temáticas estão se ampliando para as regiões fora do eixo Rio-São Paulo, que tradicionalmente concentrou o maior volume dos recursos de produção", avalia.

Maurício Macêdo, produtor executivo da série "Meninas do Benfica" — que foi concretizada a partir de editais públicos —, ressalta a importância dos streamings para a produção recente em contexto de "falta de investimento público", mas traz ponderações.

"As plataformas sabem que precisam de conteúdo nacional para se fortalecer no mercado e cada vez mais produzem conteúdo no país, mas as grandes empresas tendem a trabalhar com grandes produtoras de conteúdo, então o cenário mudou, mas para uma pequena parcela do setor", avalia.

"As pequenas e médias produtoras ainda sofrem imensas dificuldades para levantar fundos para projetos, ainda mais fora do eixo Rio-SP. É importante que as plataformas de streaming consolidem parcerias com produtoras de todo o País, estreitando laços com o que de mais rico nós temos que é nossa criatividade", avança Maurício.

Os ganhos de uma produção descentralizada são inúmeros tanto para as produtoras, quanto para a cidade que recebe a produção, quanto ainda para quem investe nela. A produtora executiva Marina Rodrigues é taxativa: "Investir em audiovisual no país é investir na economia".

"3 Tonelada$: Assalto ao Banco Central" reconta a história do assalto, da investigação e das consequências do crime(Foto: Divulgação Netflix)
Foto: Divulgação Netflix "3 Tonelada$: Assalto ao Banco Central" reconta a história do assalto, da investigação e das consequências do crime

"Quando você realiza uma produção em uma cidade específica, você não está dando somente visibilidade em tela, você está investindo nela. Acordos de produção através de meios públicos determinam que seja necessário o gasto de uma parcela do orçamento na cidade. Como consequência direta, ela arrecada mais impostos que poderão ser destinados para o auxílio de serviços públicos que utilizamos no dia a dia", correlaciona a produtora.

Iris já reconhece, com a recente estreia de "3 Tonelada$", importantes impactos. "Quando uma produção de grande porte é realizada em uma cidade, ela ganha uma grande janela global de visibilidade. A série, no segundo dia de lançamento, já estava ranqueando nas mais assistidas na Inglaterra e Portugal. É um alcance imensurável, que pode se reverter em incremento turístico a longo prazo", aponta.

Experiências como a da série, acredita a produtora, agregam "reconhecimento" ao setor audiovisual local. "O principal impacto é o reconhecimento dos projetos das produtoras e criativos sediados fora dos tradicionais pólos de produção. Temos a capacidade de criar projetos de grande envergadura e alcance", avalia Iris.

Os ganhos da descentralização das produções, enfim, podem ser elencados em diferentes níveis, como resume o produtor Max Eluard, diretor da TV Unifor e professor de cinema da instituição. "De forma prática, movimenta a economia. Você tem uma equipe com gente comendo, precisando se hospedar, então você faz girar a economia daquele local", diz.

"Do ponto de vista simbólico, é a formação da identidade cultural, a gente se ver na tela, se reconhecer. Pensando no Nordeste, é criar um imaginário coletivo diferente dos estereótipos que o eixo Rio-SP sempre criou para representá-lo", opina o especialista.

 

Meninas do Benfica

Já disponível na Globoplay

3 Tonelada$

Já disponível na Netflix

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