Reportagem Seriada

Cervos gigantes habitaram Itapipoca durante a "Era do gelo"

Paleontólogos revisaram fósseis de megafauna guardados no Museu Nacional e constataram que duas das maiores espécies de cervos habitaram o Nordeste há cerca de 10 mil anos
Episódio 3

Cervos gigantes habitaram Itapipoca durante a "Era do gelo"

Paleontólogos revisaram fósseis de megafauna guardados no Museu Nacional e constataram que duas das maiores espécies de cervos habitaram o Nordeste há cerca de 10 mil anos Episódio 3
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Itapipoca tem agora mais dois membros na sua lista de animais pré-históricos que viveram no município há cerca de 10 mil anos: os cervos gigantes. A descoberta está no artigo “Ressuscitando das cinzas: os maiores cervos da América do Sul (Cetartiodactyla: Cervidae) já vagaram pelo Nordeste do Brasil” (em tradução livre do inglês), publicado em janeiro na revista científica internacional “Journal of South American Sciences”.

O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), revisa e descreve em detalhes a taxonomia dos fósseis de cervídeos encontrados no sítio paleontológico de Lage Grande, no município pernambucano de Pesqueira, e no sítio João Cativo, em Itapipoca. A equipe considerou aspectos morfológicos de chifres e arcadas dentárias. Tais características dos fósseis foram comparadas com todos os veados extintos e existentes na América do Sul.

Dois fragmentos de mandíbula estudados foram coletados em 1961 no sítio paleontológico João Cativo, em Itapipoca, por pesquisadores do Museu Nacional. “Essas peças foram atingidas pelo incêndio que destruiu o museu em 2018 e, provavelmente, foram perdidas. Mas havia fotografias e descrições anatômicas detalhadas delas, feitas anteriormente. Foi a revisão desses arquivos o que possibilitou o artigo”, explica Celso Ximenes, paleontólogo que estuda a região de Itapipoca há 30 anos.

Com isso, os cientistas chegaram a uma nova identificação dos animais que viveram durante o Pleistoceno, a chamada “Era do Gelo'', no Nordeste brasileiro. Um dos cervos é do gênero Morenelaphus, mas não foi possível identificar ou classificar o outro, ficando como cervídeo indeterminado. A nova identificação amplia os conhecimentos sobre a Pré-História no Brasil, indicando que a região Nordeste já foi uma região de extensas pastagens naturais e clima ameno.

Para Ximenes, que é curador do Museu de Pré-História de Itapipoca, o estudo é revolucionário no campo da Paleontologia. “Ele amplia a extensão geográfica dessas espécies que vem desde os Estados Unidos até a América do Sul e foram confirmados os primeiros registros aqui para o Ceará”, aponta. “Nós temos mais de 5 mil peças fósseis guardadas no museu e com elas já identificados 35 tipos de animais pré-históricos diferentes que viveram na região”, completa.

 

60 anos da expedição do Museu Nacional

 

Há 60 anos, o paleontólogo Carlos de Paula Couto e o geólogo Fausto Souza Cunha lideraram pesquisas na região de Itapipoca. Atraído pela divulgação de achados fortuitos no Ceará na década de 1950, o Museu Nacional decidiu enviar seus especialistas. A expedição andou por vários municípios antes de escolher Itapipoca como local das escavações. O grupo ficou no Estado por 40 dias, mais da metade dos quais dedicados ao trabalho de escavação e coleta de cerca de 3 mil fósseis.

Na época, O POVO acompanhou o início da expedição e seus primeiros resultados: 

Um local propício

Em Itapipoca há uma combinação rara de fatores geológicos (rochas e sedimentos), geomorfológicos (relevo), hidrográficos, climáticos e ecológicos que geraram um ambiente propício para a megafauna e preservar seus fósseis. A área tem dezenas de tanques fossilíferos, bebedouros naturais que atraiam os animais e para onde suas ossadas foram carregadas pelas chuvas. Atualmente, o chamado Vale da Megafauna de Itapipoca abrange uma área de 800 km² e tem pelo menos sete sítios paleontológicos catalogados.

A megafauna de Itapipoca

As paleolhamas também viveram na região de Itapipoca.(Foto: Reprodução/ Rodolfo Nogueira)
Foto: Reprodução/ Rodolfo Nogueira As paleolhamas também viveram na região de Itapipoca.

O primeiro registro científico de megafauna em Itapipoca foi feito em 1961, pelos pesquisadores que relatam a expedição do Museu Nacional do Rio de Janeiro ao Ceará. A expedição realizou escavações em dois locais do Sítio Paleontológico João Cativo. Desde então, os achados paleontológicos na área foram exponenciais. Conheça alguns dos animais gigantes que, há até 10 mil anos, conviveram com nossos ancestrais Homo sapiens:

Paleolhama

Nome científico: Palaeolama major
Tamanho: altura de 1,2 metro; comprimento de 1,7 metro
Peso: chegava a 90 quilos
Alimentação: gramíneas
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidades: animal do grupo das atuais lhamas que habitam a Cordilheira dos Andes (Chile, Peru, Equador e Bolívia). Como é um animal característico de climas frios, acredita-se que sua presença em Itapipoca significa que o clima era mais ameno na época em que viveu

Eremotério ou Preguiça Gigante

Nome científico: Eremotherium laurillardi
Tamanho: altura de 2 metros em posição quadrúpede e 4 metros em posição bípede; comprimento chegava a 6 metros
Peso: até 5 toneladas
Alimentação: folhas e grama
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidade: maior mamífero terrestre que já viveu no Brasil. Andava sobre as quatro patas, mas podia se erguer sobre as patas traseiras para alcançar as folhas mais altas de uma árvore

Gliptodonte

Nome científico: Glyptodon clavipes
Tamanho: altura de 1,7 metro; comprimento de 3 metros
Peso: chegava a 2 toneladas
Alimentação: folhas e grama
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidades: parente dos tatus. Possuía uma carapaça óssea. A cauda era em forma de tubo cônico, que só se movimentava no anel inicial

Mastodonte

Nome científico: Haplomastodon waringi
Tamanho: altura de 2,5 metros; comprimento de 3 metros
Peso: até 5 toneladas
Alimentação: folhas, ramagens, brotos e capim
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidades: parente dos atuais elefantes, sendo bastante semelhante a estes. Possuía os dentes caninos superiores bastante desenvolvidos, chamados de presas. Andava em manadas

Toxodonte

Nome científico: Toxodon platensis
Tamanho: altura de 1,4 metro; comprimento de 2,6 metros
Peso: até 2 toneladas
Alimentação: gramíneas dos rios e de suas margens
Habitat: rios e lagoas
Curiosidades: semelhante a um hipopótamo. Possuía as patas dianteiras bem menores que as traseiras e os dentes incisivos inferiores no formato de uma pá, usados para revolver os fundos das lagoas e rios em busca de comida. Possuía uma pequena corcova e possivelmente formava manadas

Macrauquênia

Nome científico: Xenorhinotherium bahiense
Tamanho: altura de 2 metros; comprimento de 2,5 metros
Peso: ultrapassava 1 tonelada
Alimentação: grama e folhas
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidades: animal que lembra um camelo sem a corcova. Possuía uma pequena tromba no focinho, que se acredita que era usada como respiradouro para atravessar rios e lagoas. Seu nome científico significa “animal selvagem da Bahia de narina estranha”, estado onde foi descoberto primeiro

Tigre Dentes-de-Sabre

Nome científico: Smilodon populator
Tamanho: altura de 1,2 metro; comprimento de 2 metros
Peso: chegava a 500 kg
Alimentação: carne
Habitat: campos abertos (cerrado)
Curiosidades: grande felino que possuía os dentes caninos superiores em forma curva, com 30 cm de comprimento, que usava para cortar os vasos sanguíneos. das presas Vivia em pequenos bandos

Fonte: Celso Lira Ximenes. Animais pré-históricos de Itapipoca. 2007

 

Entrevista 

Clima do Nordeste pode ter sido mais ameno há 10 mil anos 

Celso Lira Ximenes, geólogo e paleontólogo afirma que a atualização das pesquisas paleontólogas proporciona novas interpretações sobre os ambientes antigos. Curador do Museu de Pré-História de Itapipoca, Ximenes acredita que a presença dos cervos gigantes pode indicar um clima mais ameno no Nordeste. Confira a entrevista.  

O POVO - Qual a importância da descoberta que cervos-gigantes viveram no Ceará?
Celso Ximenes - Todo e qualquer fóssil, por menor ou mais fragmentado que esteja, é de grande importância para uma série de interpretações sobre os antigos ambientes em que os seres vivos habitaram. Isso ajuda a entender como os biomas atuais se desenvolveram, quais os estágios desse desenvolvimento e se podem nos dar pistas da tendência de modificação futura, principalmente nos aspectos climáticos, que poderiam afetar a sobrevivência humana.

"O fato de as identificações terem sido modificadas não significa que ela tenha cometido erros. Na Paleontologia, revisões científicas em fósseis são comuns e até necessárias. É assim que a Ciência avança."

 

OP - A pesquisa desenvolvida faz uma revisão e reclassificação de fósseis que já haviam sido identificados. Isso é comum na Paleontologia?
Ximenes - As peças já haviam sido estudadas anteriormente pela paleontóloga carioca Márcia Gomide da Silva Mello, que em 1989 as identificou na época como pertencentes a dois cervos da fauna brasileira atual, portanto, ainda viventes. O fato de as identificações terem sido modificadas não significa que ela tenha cometido erros. Na Paleontologia, revisões científicas em fósseis são comuns e até necessárias. É assim que a Ciência avança.

O que ocorre é que Gomide trabalhou com o que tinha disponível na época, em termos de tecnologia laboratorial, acesso a coleções científicas de referência (que muitas vezes estão em outros países) e informações de anatomia comparada na literatura científica. Passados mais de 30 anos, Alline Rotti e seus colaboradores não só tiveram melhor acesso a esses recursos, como puderam contar com novas descobertas de fósseis, que possibilitaram uma melhor visão interpretativa.

" A grande novidade é que a ocorrência de Itapipoca passa a ser o registro de Morenelaphus mais ao norte da América do Sul."

 

OP - O que mais chama a atenção na descoberta desses animais?
Ximenes - Uma questão importante é o gigantismo desses cervos. A massa corporal média estimada para Morenelaphus é de 118 kg, mas que podia chegar a 150 kg, o que seria um pouco mais que o maior cervo vivente da América do Sul, o Cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus), que tem em média 100-110 kg. Porém, em contraste ao cervo-do-pantanal, que tem chifres pequenos em relação ao corpo, o Morenelaphus tinha os chifres mais desproporcionais (grandes e longos) e mais complexos entre os cervídeos que já ocorreram na América do Sul. Já o outro cervo-gigante de Itapipoca era muito maior que Morenelaphus, superando, provavelmente, os 200 kg.

Outro ponto é a ampliação da ocorrência geográfica de fósseis do cervo-gigante Morenelaphus na América do Sul. Além do Brasil, esse cervo viveu em territórios da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. A grande novidade é que a ocorrência de Itapipoca passa a ser o registro de Morenelaphus mais ao norte da América do Sul.

" Além disso, a presença de Morenelaphus também pode sugerir um ambiente com grande frequência de gramíneas e menor área de elementos arbóreos, visto que ele tinha hábitos de pastagem."

 

OP - O que essa descoberta pode dizer sobre o Ceará de mais de 10 mil anos atrás?
Ximenes - Segundo os autores da pesquisa, a presença dos cervos-gigantes no Nordeste pode sugerir que havia temperaturas mais amenas para esta região do que as condições climáticas atuais. Além disso, a presença de Morenelaphus também pode sugerir um ambiente com grande frequência de gramíneas e menor área de elementos arbóreos, visto que ele tinha hábitos de pastagem. Consequentemente, o grande território conhecido na Paleontologia como Região Intertropical Brasileira sofreu mudanças ambientais e climáticas drásticas, comparando suas condições passadas e presentes, o que pode ter sido um dos motores da extinção desses veados nesta região, há cerca de 10 mil anos.


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