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Agricultura espacial: os tomates marcianos já são uma realidade
Reportagem Especial

Agricultura espacial: os tomates marcianos já são uma realidade

A astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves cultivou tomates, ervilhas e cenouras em solo marciano. A pesquisa dá um passo inovador para a agricultura auto-sustentável em Marte e para a regeneração de solos degradados na Terra

Agricultura espacial: os tomates marcianos já são uma realidade

A astrobióloga brasileira Rebeca Gonçalves cultivou tomates, ervilhas e cenouras em solo marciano. A pesquisa dá um passo inovador para a agricultura auto-sustentável em Marte e para a regeneração de solos degradados na Terra
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Imagine uma família reunida à mesa, aproveitando uma bela salada com tomates-cereja bem vermelhos, ervilhas redondinhas e cenouras em rodelas. A sala é um pouco diferente do que o costume brasileiro, iluminada unicamente por luzes artificiais, mas é charmosa e aconchegante. E o mais importante: os legumes parecem deliciosos!

É a perfeita cena de “comercial de margarina” para divulgar o futuro não tão distante da humanidade — a colonização de Marte e a consequente agricultura espacial. Parece balela de ficção científica do filme Perdido em Marte, estrelado pelo ator Matt Damon, mas tomates, ervilhas e cenouras cultivados em solo marciano já existem e têm mãos brasileiras na história.

Dia de colheita no laboratório. Rebeca está à direita e o pesquisador Wieger Wamelink à esquerda(Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal)
Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal Dia de colheita no laboratório. Rebeca está à direita e o pesquisador Wieger Wamelink à esquerda

O dedo verde em questão é da astrobióloga Rebeca Gonçalves. Com 32 anos, a especialista em Agricultura Espacial estudou para o mestrado em Astrobiologia o uso da técnica de policultura em solo marciano.

Basicamente, ela descobriu que, além das plantas vingarem no solo de Marte, elas se desenvolvem muito melhor quando plantadas em conjunto, em vez de em monoculturas. Uma boa notícia para os colonizadores de Marte e também para os terráqueos, que encontram na pesquisa soluções para a regeneração de solos degradados.

Mas como tudo isso é possível? E que mistureba é essa de tomates marcianos, policultura, solo terrestre regenerado e ficção científica? A gente explica em uma aventura espacial biológica!

 

 

Marte, o planeta do futuro

Pousamos em Marte. Demoramos sete meses para chegar, percorrendo 54,6 milhões de quilômetros (km), mas valeu a pena. ► Ouvimos apenas o vento. A paisagem avermelhada, pintada principalmente por óxido de ferro, lembra os desertos da Jordânia, enquanto o solo, composto basicamente por rochas esmiuçadas, é fino como areia.

Nós estamos vestindo um traje espacial para nos proteger da radiação cósmica. Essa radiação é uma das responsáveis por impedir o sucesso de qualquer forma de vida no planeta, já que Marte não tem campo magnético para impedir a entrada exagerada dessa radiação.

 

Explore Marte

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Acoplado às nossas costas está o PLSS, sigla em inglês para designar o sistema de suporte primário à vida, garantindo o controle da pressão arterial e a oferta de oxigênio e água. Afinal, a atmosfera de Marte é fininha, apenas um terço da terrestre, e é composta majoritariamente por dióxido de carbono (CO2). Nada legal.

No futuro, as colônias marcianas se desenvolverão em grandes estufas, seja na superfície, seja debaixo da terra, aproveitando os gigantescos tubos de lava criados por vulcões outrora ativos. No entanto, nenhuma colônia é viável sem a independência alimentar da Terra. Já pensou depender de deliveries interplanetários para comer?

“O Brasil assinou o Acordo de Ártemis, no qual 28 países se comprometem com o uso pacífico e cooperativo do espaço”, conta Rebeca Gonçalves. “E o Brasil se comprometeu a estudar sobre agricultura espacial.” O nome do projeto é Space Farming, uma parceria entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

São 30 pesquisadores brasileiros estudando os solos da Lua e de Marte para descobrir como viabilizar plantações neles. A sorte é que os solos de ambos são bem parecidos, inclusive em um fator chave: eles não têm matéria orgânica. É por isso que o nome oficial da terra que estamos pisando em Marte é regolito, ou seja, um “solo” sem compostos orgânicos.

Dunas em Marte fotografadas pelo helicóptero marciano da Nasa, Ingenuity(Foto: NASA/JPL-Caltech )
Foto: NASA/JPL-Caltech Dunas em Marte fotografadas pelo helicóptero marciano da Nasa, Ingenuity

A terra marciana é composta basicamente por óxido de ferro, óxido de alumínio e sílica. Nada de minhocas, bactérias, fungos ou qualquer outro ser vivo do qual as plantas dependem para crescer. Foi então que Rebeca arregaçou as mangas na Universidade de Wageningen (Holanda) e começou a trabalhar com a técnica da policultura em solo marciano.

 

 

Dos maias antigos aos marcianos

A policultura é uma técnica de cultivo desenvolvida pelo maias, povo pré-colombiano da Mesoamérica, ao perceberem que as abóboras, os milhos e os feijões crescem melhor quando plantados em conjunto. Isso porque as espécies são complementares, uma atendendo as demandas da outra em um sistema que promove a auto-sustentabilidade.

“Essa é a técnica chave para a colonização de Marte”, defende Rebeca, relembrando a importância da independência e da auto-suficiência das colônias marcianas. Como Marte é um planeta com poucos recursos, tudo precisa ser aproveitado ao máximo, incluindo energia, água, nutrientes e espaço.

Comparação do tomate plantado em policultura (esquerda) e um tomate em monocultura (direita), ambas no mesmo tempo de crescimento(Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal)
Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal Comparação do tomate plantado em policultura (esquerda) e um tomate em monocultura (direita), ambas no mesmo tempo de crescimento

No experimento de Rebeca, a ervilha entra como a leguminosa que faz uma parceria com uma bactéria para transformar o nitrogênio em amônia, fertilizante do solo. A cenoura, por ser uma raiz, serve para arejar o solo, enquanto o tomate-cereja garante sombra para a cenoura.

 

A Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) fabrica um composto idêntico ao regolito marciano para fazer testes dos rovers — os robôs coletores de amostras enviados à Marte — e também vende o material para outros cientistas do mundo. A pesquisa de Rebeca pagou quatro mil euros por 100 kg de regolito marciano fabricado pela Nasa.

 

A produção da policultura foi duas vezes melhor que a da monocultura, também analisada no experimento para comparar a evolução de ambas. Os resultados indicam que a agricultura marciana tem tudo para ser uma grande realidade, basta enviar as sementes com uma solução de bactérias a serem adicionadas no solo.

Nas colônias marcianas, os seres humanos serão os polinizadores, estimulando manualmente o espalhamento de novas gerações de plantas: “A gente fez manualmente no nosso experimento, mas não foi tipo plantinha a plantinha, a gente só deu uma chacoalhadas para polinizar e já deu certo”, comenta a astrobióloga.

Rebeca Gonçalve segurando amostras labtoriais de tomates, cenours e ervilhas secas em regolito marciano(Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal)
Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal Rebeca Gonçalve segurando amostras labtoriais de tomates, cenours e ervilhas secas em regolito marciano

Por outro lado, a pesquisa deixou de fora um fator crucial do regolito de Marte, a presença de perclorato, um composto químico tóxico para plantas e humanos. “O perclorato é um desafio que a gente vai ter que abordar”, afirma Rebeca.

“A gente não abordou porque era muita variável, e numa pesquisa científica tudo precisa ser controlado. Mas já existem pesquisas sobre como remediar o solo, usando microrganismos ou plantas que possam absorver ou reciclar o perclorato de alguma forma”, pontua. O estudo foi publicado na revista científica Plos ONE no começo de maio de 2024.

E se o solo de Marte pode ser manuseado para cultivar plantas, o mesmo é verdadeiro para os solos degradados da Terra. É hora de entrar na espaçonave e voltar para a Terra. Nossa aventura continua lá.

 

Explore a Terra

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Matt Damon, venha plantar batatas na Terra!

Enquanto nossa família marciana ainda não está vivendo em cavernas de aço "Aqui vai uma indicação de livro: Cavernas de Aço, da Série Robôs de Isaac Asimov" , nem comendo tomates-cereja orgânicos, a pesquisa de Rebeca Gonçalves dá um passo importantíssimo para a humanidade terráquea.

Na Terra, a monocultura e o consumismo já degradaram 40% dos solos férteis, colocando um bilhão de pessoas em insegurança alimentar. A crescente do aquecimento global causado pelo ser humano só piora a situação, especialmente para as regiões semiáridas; é o caso do Nordeste brasileiro, com 94% do território suscetível à desertificação.

“Essa pesquisa contribui com outras que já estão em andamento sobre a policultura e o possível uso dela em larga escala para a regeneração do solo”, orgulha-se a pesquisadora. “Porque além do regolito marciano, a gente também usou areia; e ambos são parecidos com os solos degradados aqui da Terra.”

Para Rebeca, essa é uma das informações mais importantes a serem divulgadas sobre o trabalho com a agricultura espacial. “Toda ciência espacial sempre tem como prioridade os resultados de pesquisa atenderem à Terra”, diz, reforçando que nenhuma pesquisa espacial é aprovada se ela não apresentar alguma aplicação direta no bem-estar e segurança da vida terrestre.

Dia de colheita, amostras de tomates cultivados em todos os tipos de solos analisados no experimento(Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal)
Foto: Rebeca Gonçalves / Arquivo pessoal Dia de colheita, amostras de tomates cultivados em todos os tipos de solos analisados no experimento

“Eu acho uma pena que essa informação não chegue ao ouvido do público, porque normalmente ele se pergunta o porquê de investir (em pesquisa espacial)”, lamenta. “Mas as nossas pesquisas devem ajudar a Terra. É uma cultura dentro do setor espacial, tudo tem que ter uma aplicação terrena, não pode ser só aplicação espacial.”

Por isso, apesar de ser sensacional acompanhar o personagem de Matt Damon (o botânico astronauta Mark Watney "Se você ainda não assistiu Perdido em Marte, coloque na lista! É um filme embasado cientificamente, adaptação do livro homônimo de Andy Weir" ) plantando batatas em Marte, a parte mais mágica do filme é o retorno dele para a Terra. É aqui, neste solo rico, com ar respirável e biodiversidade quase infinita, que as batatas e tomates marcianos podem transformar a vida de bilhões de pessoas — sem precisar esperar décadas para comprar a primeira passagem ao espaço.

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