
Resumo
O sucesso de seu primeiro filme e a conquista do Prêmio Platino, ao lado de grandes nomes como Pedro Almodóvar, deram à atriz a visibilidade necessária para ingressar em produções europeias.
Carol integrou o elenco de "La Chimera", da diretora Alice Rohrwacher, onde atuou em italiano e explorou uma interpretação desafiadora, inspirada em referências do cinema de Fellini.
Sua trajetória internacional culminou no filme "Eva", seu primeiro papel como protagonista totalmente falado em italiano, no qual trabalhou com o renomado diretor de fotografia Luca Bigazzi.
Em agosto de 2019, Carol Duarte chegava em Fortaleza para acompanhar a estreia brasileira de “A Vida Invisível”, filme de Karim Aïnouz consagrado com o prêmio principal da Un Certain Regard no Festival de Cannes. Na Praça do Ferreira, numa das noites mais inesquecíveis que o Cineteatro São Luiz já recebeu, ela não escondia sua emoção ao perceber que aquele momento fazia parte de um novo rumo na sua carreira profissional.
Embora a estrela máxima daquela noite fosse Fernanda Montenegro, o público não deixava ela passar despercebida - afinal, há menos de dois anos, Carol estava nas televisões de todo o Brasil com a novela “A Força do Querer”. De lá para cá, no entanto, sua carreira fugiu das telas pequenas e partiu para as salas de cinema do outro lado do Atlântico.
“Ganhar o Prêmio Platino, ao lado de nomes como Antonio Banderas e Pedro Almodóvar, também me colocou num lugar de maior visibilidade”, ela conta em entrevista ao O POVO ao lembrar de onde “A Vida Invisível” lhe levou. Àquela altura, talvez ela ainda não soubesse que quatro anos depois estaria de volta ao festival francês, desta vez na competição principal, com “La Chimera”, de Alice Rohrwacher, lindo filme sobre os sonhos que vivem à margem - atualmente, está disponível para assistir no streaming Filmicca.
Em entrevista ao O POVO, a atriz paulista contou sobre como essa primeira grande experiência em um filme internacional a levou a trilhar um novo rumo no cinema, alcançando sua primeira protagonista em um filme completamente falado em italiano.
O POVO: Falando sobre “La Chimera”, são várias circunstâncias que te levam a um projeto como esse: atuar em italiano, ser um filme internacional, trabalhar com uma cineasta renomada. Mas, como atriz, o que te atraiu nesse projeto e nessa personagem? Porque a tua personagem é muito sensível, não é nada óbvia, não é super clara e nem objetiva. O que te atraiu nela?
Carol Duarte: Arthur, eu já tinha visto os filmes anteriores da Alice Rohrwacher. Eu tinha acabado de ver “Lazzaro Felice” quando ela entrou em contato para eu fazer o teste. Foi um teste por Zoom. Ela perguntou se eu topava fazer em italiano, e eu disse que sim. Eu já falava um pouco, mas tinha pouquíssimas pistas sobre o que era a Itália e o que era aquela personagem. Dez dias depois do teste, eu já estava indo trabalhar.
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O que me pegou no filme foi a história desses homens pobres, os tombaroli, pessoas que arrombam tumbas, têm conhecimento histórico e roubam o passado para sobreviver. A poesia que a Alice cria com essas pessoas que vivem naquela terra, que tiram algo dela e vendem para continuar vivendo ali, é muito bonita.
A Itália, como personagem, eu fui descobrindo ao longo do processo. Como você disse, ela não é explícita. A Alice não dava pistas claras. Sempre que eu tentava definir a personagem, ela dizia “não”. E isso é muito próprio dela. Eu, como atriz, queria me agarrar a alguma coisa, mas não existia isso.
Fui buscando referências nos filmes da Alice, em Fellini — mais do que em Pasolini. Assisti muitas vezes “Noites de Cabíria" com a Giulietta Masina. Aquela figura foi uma inspiração: uma personagem que não é totalmente cômica nem totalmente dramática.
Se eu ia para um lugar muito dramático, errava o tom. Se ia para o cômico, também errava. O desafio foi sustentar esse estado de corda bamba: nunca ter certeza do próximo passo. O trabalho com a Alice exigia muita abertura e flexibilidade. Às vezes eu fazia a cena de um jeito, depois de outro, e pensava como aquilo seria montado. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Como atriz, tudo o que eu tinha aprendido até ali estava sobre a mesa. Claro que eu guardava meus segredos, construía um relicário interno muito sensível.

O POVO: O teu trabalho com o Josh O’Connor é muito importante no filme. Ele é um ator muito delicado, contido. Como foi esse encontro entre vocês e entre os personagens?
Carol Duarte: O Josh é um ator muito especial. Eu já conhecia o trabalho dele, inclusive em The Crown. Ele virou uma pessoa importante na minha vida, um amigo. Ele tem um mundo interno muito preenchido, e isso era essencial para o Arthur, um personagem que não fala, que guarda a dor. Ele está buscando algo que a Alice nunca nomeia exatamente. É um personagem ligado ao subterrâneo, ao mistério, a um mundo que não é simples de acessar.
A minha personagem, por outro lado, tem reverência. Ela tem medo, respeito, fica chocada com o que vê. Ela está ligada ao mundo do aqui e agora, cria aquela comunidade de mulheres na estação de trem. Existe ali uma outra lógica: aquilo não é de ninguém ou é de todo mundo. É uma Itália vista também por uma estrangeira, o que abre muitas camadas.
O POVO: Como você compara a experiência de “A Vida Invisível”, do Karim Aïnouz, com “La Chimera”? Você acha que o primeiro te preparou para esse momento internacional?
Carol Duarte: “A Vida Invisível” foi meu primeiro filme e foi muito intenso. A gente estreia em Cannes, ganha um prêmio importante, e o filme é muito distribuído, inclusive na Itália. Ele me lança num âmbito mais internacional. Ganhar o Prêmio Platino, ao lado de nomes como Antonio Banderas e Almodóvar, também me colocou num lugar de maior visibilidade. “La Chimera” vem depois disso, com ainda mais repercussão, numa mostra competitiva de Cannes, que tem um peso enorme.
De alguma maneira, sim, “A Vida Invisível” me preparou e abriu portas para esse segundo momento. Foi uma caminhada importante: um filme brasileiro com um grande diretor, seguido de um filme autoral de uma diretora italiana já muito reconhecida.
O POVO: E como essa trajetória chega em “Eva”, que você protagoniza, todo em italiano?
Carol Duarte: Quando eu volto para o Brasil depois de La Chimera, eu faço “Malu”, do Pedro Freire, e logo em seguida surge “Eva”. É uma personagem muito importante para mim, uma protagonista. O diretor de fotografia é o Luca Bigazzi, que fez filmes do Paolo Sorrentino, como “A Grande Beleza”, e também “Cópia Fiel”, do Abbas Kiarostami. Isso já era muito significativo para mim como espectadora e atriz.
A troca no filme foi muito rica. Eva é uma personagem controversa e talvez meu primeiro trabalho mais ligado ao gênero. O filme passou pelo Festival de Torino, estreou no fim de novembro de 2025, foi muito bem recebido, e agora a gente espera que ele circule pelo mundo, e chegue ao Brasil.