Aqueles que eram crianças, adolescentes ou jovens quando a crise da Covid-19 eclodiu em 2020, com suas restrições e confinamentos, ainda sofrem as consequências cinco anos depois, tanto em termos de distúrbios psicológicos quanto de aprendizagem. Nesta quarta-feira, 26, fez cinco anos que foi confirmado o primeiro caso no Brasil, em 2020.
"O confinamento foi um ponto de virada na minha saúde mental", resume Amélie, uma estudante francesa. Ela tinha 19 anos quando a pandemia começou, no início de 2020. "Eu me vi enfrentando tudo o que estava reprimindo e isso desencadeou uma depressão enorme", acrescenta.
Cinco anos depois, ainda em tratamento, a jovem, que não quis revelar o sobrenome por medo das consequências em sua carreira profissional, não é um caso isolado.
As restrições adotadas em muitos países, incluindo confinamentos domiciliares rigorosos, devido à ameaça à saúde representada pela Covid-19 antes da chegada das vacinas, tiveram consequências prejudiciais em termos de saúde mental.
Vários estudos mostram claramente que as gerações mais jovens foram as mais afetadas. Na França, um quinto dos jovens de 18 a 24 anos sofreu um episódio depressivo em 2021, um nível nunca visto antes, de acordo com uma pesquisa da agência de saúde pública. A situação é semelhante na Finlândia, de acordo com um estudo publicado recentemente na revista Lancet Psychiatry.
Entre cerca de 700 mil jovens de 13 a 20 anos, "a proporção de pessoas com ansiedade generalizada, depressão e ansiedade social aumentou em 2021 em comparação com antes da Covid, e permaneceu nesse nível alto em 2023", aponta o estudo.
Igualmente preocupante, as consequências da pandemia também são sentidas na área do desenvolvimento emocional e da aprendizagem. É especialmente o caso de crianças que começaram a escola há cinco anos.
"É um verdadeiro problema geracional"
Em 2023, um trabalho de referência, publicado na revista Nature Behavior e baseado em cerca de 40 estudos realizados em 15 países, mostrou que muitas crianças ainda não haviam se recuperado de atrasos significativos em seu desenvolvimento e processo de aprendizagem. "É um verdadeiro problema geracional", aponta o pesquisador Bastian Betthauser, principal autor do estudo.
Os problemas parecem persistir além dos anos da Covid, como no Reino Unido, onde um relatório do órgão público Ofsted, responsável pela inspeção de escolas, mostra um nível sem precedentes de absenteísmo escolar em 2023/2024. Desde o início dos confinamentos, "a frequência escolar se tornou mais informal", lamenta o relatório.
No entanto, alguns profissionais da educação relativizam a ideia de uma lacuna irreparável em termos de aprendizagem. "Academicamente, nos recuperamos muito rapidamente", afirma Simon Kidwell, diretor da Hartford Manor School, no norte da Inglaterra.
No entanto, ele reconhece as consequências da Covid-19 e se preocupa com o estado psicológico de alguns alunos. "Há mais crianças que precisam de acesso a serviços de saúde mental", admite.
Kidwell também observou um aumento "enorme" no número de crianças com necessidades educacionais especiais ou que precisam de apoio adicional para lidar com problemas comportamentais. "Isso acontece desde 2015, mas aumentou desde a Covid", afirma.
Segundo Kidwell, as dificuldades estão relacionadas à linguagem e à sociabilidade. O diretor fala sobre comportamento agressivo tanto em relação a adultos quanto a crianças e também destaca o problema dos jovens que sofrem de problemas relacionados ao autismo.
Nesse sentido, alguns especialistas destacam como o confinamento pode ter sido um ponto de virada para crianças com autismo ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).
"Muitas delas gostaram do confinamento"
"Muitas delas gostaram do confinamento", afirma a psicóloga Selina Warlow, que trata crianças e adolescentes com esses transtornos em uma clínica em Farnham, perto de Londres.
"O ambiente escolar é barulhento e superestimulante, e estar em uma turma com outras 30 crianças é realmente difícil para elas. E elas se perguntam por que deveriam voltar", acrescenta.
Segundo ela, a pandemia também prejudicou esses pacientes ao atrasar o diagnóstico em muitos casos. "Intervir nos primeiros anos pode ter um impacto enorme na criança", diz Warlow.
A pandemia de Covid-19 criou uma câmara de eco sem precedentes para redes de desinformação, oferecendo aos céticos das vacinas visibilidade e popularidade das quais algumas figuras ainda se beneficiam cinco anos depois.
Efeitos colaterais "perigosos" ou produtos "nunca testados": os "antivacina" não esperaram até 2020 para espalhar informações falsas sobre as vacinas.
Mas o surgimento da Covid-19 serviu como um acelerador, "ajudando a transformar um movimento marginal em uma força mais poderosa", observa um estudo publicado na The Lancet em 2023.
A pandemia deu aos céticos da vacina uma chance de mudar de tática. Antes voltados para os pais — as crianças recebiam o maior número de injeções —, seus discursos se generalizaram, o que lhes permitiu atingir um público muito maior.
"Durante esse período, observamos várias bolhas normalmente bem definidas convergindo para o antivacinismo", descreve Romy Sauvayre, professora assistente de sociologia francesa e especialista em crenças médicas.
Junto aos conspiracionistas habituais, adeptos da medicina alternativa, figuras políticas e também pessoas da área médica multiplicaram declarações falsas ou infundadas sobre as vacinas ou o próprio vírus.
Os debates em torno da eficácia da hidroxicloroquina como remédio contra a Covid-19 promovidos pelo médico francês Didier Raoult — cujo estudo seminal foi recentemente invalidado — agitaram parte da população desse país. Assim como ele, outras figuras com capital científico ou médico se destacaram por se oporem ao consenso científico.
"Por trás desses médicos midiáticos, às vezes bastante radicais, há muitos questionamentos sobre a confiança nas autoridades de saúde", diz Jeremy Ward, pesquisador francês e coautor de um extenso relatório sobre vacinação na França desde 2020.
Além das preocupações com a saúde, "esse movimento foi estruturado principalmente em torno da defesa das liberdades individuais", destaca Jocelyn Raude, pesquisadora em psicologia da saúde. Isso é demonstrado pelas inúmeras manifestações ao redor do mundo contra as restrições e vacinações obrigatórias.
A pandemia permitiu, assim, que o movimento antivacina continuasse sua aproximação com a direita conservadora, às vezes impulsionando seus ativistas aos mais altos níveis de poder político, dos quais Robert Kennedy Jr. é o melhor exemplo.
Ex-advogado ambientalista, sobrinho do presidente assassinado John F. Kennedy, ele foi escolhido por Donald Trump para liderar o Departamento de Saúde dos Estados Unidos.
Uma vitória e um reconhecimento para os antivacina com quem ele marchou em manifestações, alegando, por exemplo, que a covid-19 era um vírus "com alvos étnicos".
De acordo com o Center for Countering Digital Hate (CCDH), uma ONG que combate a desinformação online, RFK Jr. e sua organização antivacina Children's Health Defense - da qual ele se retirou temporariamente - estavam entre os doze principais disseminadores de desinformação durante a pandemia.
"É uma das contas antivacina que cresceram mais rápido durante a pandemia. Estamos falando de um público de centenas de milhares ou milhões de pessoas. É uma posição muito forte para construir uma base de apoio para suas ambições políticas", diz Callum Hood, chefe de pesquisa do CCDH.
Durante a pandemia, as redes sociais foram "a ponta de lança dos esforços de desinformação sobre vacinas", afirma Noel T. Brewer, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade da Carolina do Norte e um dos autores do estudo publicado na The Lancet.
Mas as consequências para a saúde pública são difíceis de analisar. "Alguns pesquisadores acreditam que a exposição repetida a informações falsas pode levar as pessoas a deixar de se vacinar, enquanto outros acreditam que os efeitos dessa exposição são relativamente pequenos porque eles apenas justificariam a hesitação pré-vacinação", diz Jocelyn Raude.
Hoje, o movimento enfraqueceu um pouco à medida que o interesse pela covid-19 diminuiu, mas aqueles que ganharam notoriedade espalhando desinformação durante a pandemia aprenderam a se renovar.
"Essas são as mesmas contas que agora compartilham conteúdo pró-Rússia ou cético em relação ao clima", explica Laurent Cordonier, sociólogo e diretor de pesquisa da Fundação Descartes.
"Há um aspecto estratégico, mas também uma coerência real ao tocar nesses diferentes assuntos que parecem não ter conexão entre si. O motor é o antissistema", explica o pesquisador.
Cinco anos depois de a Covid-19 começar a virar o mundo do avesso, o vírus ainda infecta e mata pessoas ao redor do planeta, ainda que a taxas muito menores do que no pico da pandemia.
Confira, a seguir, a situação atual.
Aproximadamente 777 milhões de casos de Covid e mais de sete milhões de mortes foram registrados oficialmente desde que as primeiras infecções surgiram, em dezembro de 2019, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Contudo, acredita-se que os números reais sejam bem superiores.
A pandemia também afetou sistemas de saúde, abalou economias e manteve populações de muitos países em 'lockdown'.
No segundo semestre de 2022, as taxas de infecção e óbitos caíram devido à imunidade crescente resultante das vacinas ou de infecções prévias. O vírus também sofreu mutações, causando quadros menos severos.
Em maio de 2023, a OMS declarou terminada a fase emergencial da pandemia. Desde então, o vírus parece ter se tornado gradualmente endêmico, segundo especialistas, com ressurgimentos ocasionais similares aos da gripe, embora menos sazonais.
Também foi desaparecendo dos olhos do público.
"O mundo quer esquecer deste patógeno, que ainda está conosco, e eu acho que as pessoas querem deixar a Covid no passado, como se tivesse acabado - e em muitos aspectos fingem que não aconteceu - porque foi muito traumática", explicou no mês passado a diretora para Preparação e Prevenção de Pandemias da OMS, Maria Van Kerkhove.
No entanto, entre outubro e novembro do ano passado, houve mais de 3 mil mortes causadas pela covid em 27 países, segundo a OMS. Mais de 95% das mortes oficialmente vinculadas à covid foram registradas entre 2020 e 2022.
Desde que a variante Ômicron surgiu, em novembro de 2021, uma sequência de suas subvariantes se sucedeu uma à outra como cepas dominantes ao redor do mundo. No momento, a variante KP.3.1.1 da Ômicron é a mais comum.
A incipiente XEC é a única "variante em monitoramento" pela OMS, embora a agência sanitária da ONU avalie como baixo seu risco sanitário global.
Nenhuma das subvariantes sucessivas da ômicron foram notavelmente mais severas que outras, embora alguns especialistas alertem que não está fora de questão que cepas futuras possam ser mais transmissíveis ou mortais.
As vacinas contra a Covid foram desenvolvidas em tempo recorde e demonstraram ser uma arma poderosa contra o vírus, com mais de 13,6 bilhões de doses administradas em todo o mundo até agora. No entanto, os países ricos compraram grande parcela de doses antecipadamente, provocando uma distribuição desigual ao redor do mundo.
Doses de reforço atualizadas para a subvariante JN.1 da Ômicron ainda são recomendadas em alguns países, particularmente para grupos de risco, como os idosos.
No entanto, a OMS afirma que a maioria das pessoas - inclusive as de mais idade - não estão com as doses de reforço atualizadas. Até mesmo entre os profissionais de saúde, a tomada das doses de reforço foi inferior a 1% em 2024, segundo a OMS.
Milhões de pessoas foram afetados pela covid longa, uma condição ainda pouco pouco compreendida que dura meses após a infecção inicial. Os sintomas mais comuns incluem cansaço, névoa mental e falta de ar.
Cerca de 6% das pessoas infectadas com o coronavírus desenvolveram a covid longa, informou a OMS no mês passado, acrescentando que a condição "continua a representar um peso significativo para os sistemas de saúde".
Muito a respeito da covid longa continua desconhecido. Não há testes ou tratamento. Múltiplas infecções de covid parecem aumentar as chances de se desenvolver a condição.
Cientistas alertam que outra pandemia pode surgir cedo ou tarde, instando o mundo a aprender com as lições da Covid e se preparar para a próxima.
As atenções recentemente se voltaram para a gripe aviária (H5N1), particularmente depois que os Estados Unidos registraram na segunda-feira a primeira morte humana causada pelo vírus.
O paciente, de Louisiana, tinha condições médicas subjacentes e contraiu o H5N1 após ser exposto a aves infectadas, informaram autoridades sanitárias dos Estados Unidos, enfatizando que não havia evidências de transmissão de pessoa a pessoa.
Desde o fim de 2021, os Estados-membros da OMS negociam um tratado global inédito sobre prevenção, prontidão e resposta a pandemias.
No entanto, um acordo permaneceu evasivo antes do prazo final, em maio passado, com uma divergência importante entre os países mais desenvolvidos e os mais pobres, temerosos de serem deixados de lado quando uma nova pandemia aparecer.
Durante a pandemia de Covid também se observou um aumento maciço do ceticismo e da desinformação sobre as vacinas.
Especialistas nos Estados Unidos alertam para os riscos de se ter o cético sobre vacinas e promotor de teorias da conspiração Robert F. Kennedy Jr. — escolhido pelo presidente eleito americano, Donald Trump, para ser seu secretário de Saúde — a cargo da resposta do país a uma possível ameaça pandêmica nos próximos quatro anos.
Cerca de 1,4 bilhão de turistas viajaram para o exterior em 2024, o mesmo número de antes da pandemia, de acordo com uma estimativa publicada nesta segunda-feira (20) pela ONU Turismo, que destaca a forte recuperação do setor na Ásia.
Segundo esta agência da ONU sediada em Madri, a quantidade de viagens turísticas internacionais foi 11% superior à de 2023 (1,3 bilhão), atingindo assim o nível de 2019, último ano antes da pandemia de covid-19 e data do recorde anterior.