Reportagem Seriada

Marco Quesada: "Não somos apenas espectadores, somos protagonistas"

Em entrevista ao O POVO, o doutor Marco Quesada, vice-presidente de Oceanos da Conservation International da divisão das Américas, discute as potências da América Latina e os desafios que a região enfrentará durante a década
Episódio 3

Marco Quesada: "Não somos apenas espectadores, somos protagonistas"

Em entrevista ao O POVO, o doutor Marco Quesada, vice-presidente de Oceanos da Conservation International da divisão das Américas, discute as potências da América Latina e os desafios que a região enfrentará durante a década Episódio 3
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A Década do Oceano convida o mundo inteiro a compartilhar conhecimentos com o objetivo de garantir um Oceano sustentável para todos. Quando se fala em biodiversidade, a América Latina é uma das primeiras regiões que vêm à mente: seja pela diversidade natural, seja pela diversidade cultural. Apenas no Brasil, existem mais de 305 povos indígenas que têm cultivado conhecimentos e técnicas de convivência sustentável com a natureza. Assim como eles, as comunidades costeiras e ribeirinhas latinoamericanas vivenciam na pele as mudanças ambientais.

Em entrevista ao O POVO, o doutor Marco Quesada, vice-presidente de Oceanos da Conservation International ― organização não governamental focada na proteção da biodiversidade da Terra ― da divisão das Américas, discute as potências e desafios da América Latina na Década do Oceano, a partir do ponto de vista de respeito, equidade e inclusão. Confira! Você também pode assistir ao conversa ao final.

 

Dr. Marco Quesada.(Foto: Conservation International)
Foto: Conservation International Dr. Marco Quesada.

O POVO - O quão importante é incluir nas discussões da Década do Oceano todos os conhecimentos tradicionais dos povos originários, especialmente na América Latina?

Marco Quesada -  Eu acho que a Década do Oceano é muito importante para nós lembrarmos que a conservação do oceano deve ser feita dando as mãos aos outros, certo? É por meio da colaboração que podemos ajudar a conservar o oceano. Eu não acho que exista um único país no mundo que consiga, sozinho, proteger o oceano integralmente. Nós estamos todos conectados pelo oceano e isso requer colaboração. E a Década do Oceano não é boa somente para chamar para essa colaboração, mas é boa para centralizar pontos de vista e conhecimentos no meio dela. 

Há muito tempo nós reconhecemos que a Ciência, apesar de crucial para fazer decisões e para tomar decisões, não é suficiente. Nós também precisamos desse tipo de conhecimento. O que pode balancear as diferentes percepções sobre a realidade, que pode balancear as alternativas que temos em mãos. Nós, na América Latina, costumeiramente sentimos que existe uma conversa de Norte para Sul. De países do Norte recomendando, às vezes nos dizendo o que fazer. Acho que houve muitos avanços desde que isso era verdadeiro. Acho que os nossos países da América Latina estão melhor preparados. Nós temos uma ciência forte, uma liderança forte. O crescimento de mulheres em carreiras de destaque tem sido exponencial nos nossos países. 

Mas também, por um longo tempo, nós começamos a efetivamente reconhecer a voz dos outros que dependem do Oceano e que também têm interesses. Nós temos reconhecido que essas vozes também vêm com soluções, que nós podemos e devemos ouvir. 

Infográfico do documento "A Ciência que precisamos para o oceano que queremos: Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030)"(Foto: Intergovernmental Oceanographic Commission)
Foto: Intergovernmental Oceanographic Commission Infográfico do documento "A Ciência que precisamos para o oceano que queremos: Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030)"

O POVO - O senhor estava comentando sobre como nós costumamos dividir muito o mundo entre Norte e Sul e eu lembrei de um mapa que eu vi, da Unesco, publicado em 2020, que mostra os países redimensionados pela quantidade de papers publicados sobre Ciência Oceânica. Nele, toda a América Latina é menor que a América do Norte e a Europa. O que falta na América Latina que nós não conseguimos publicar tanto quanto esses países e continentes do Norte?

Marco Quesada - Eu acho que, com a ciência, uma das vantagens é que ciência e conhecimento tendem a ser uma linguagem bem universal. Então, nossos países têm aprendido a processar a ciência que é construída, que é produzida na parte Norte do nosso planeta, e adaptar às nossas realidades. É mais complicado quando as recomendações são ferramentas desenhadas em outros lugares e nós precisamos adaptar para os nossos países, mas com a ciência, temos a vantagem de que os nossos cientistas não podem apenas ser inspirados, mas também contribuir para essa conversa, essa conversa científica, e podem projetar as nossas próprias ferramentas. 

E essa construção de Norte para Sul… Sabe, eu sempre fiquei pensando sobre isso. É relevante para mim, eu sou da Costa Rica, é um país bem pequeno, eu vivo na capital, a uma hora de distância da costa. Mas quando eu vou para a área costeira, eu sou um pouco como um estrangeiro lá. Então, eu penso que para nós, nos nossos países, é muito bom pensar nessas relações.

Nós estamos ouvindo as áreas costeiras de maneira justa? Nós estamos ouvindo os conhecimentos das comunidades locais e aceitando esse conhecimento de uma maneira que também podemos construir conhecimento? Caso contrário, nós estaremos fazendo exatamente o mesmo. Se eu impor meu ponto de vista de San José, porque eu tive o privilégio da educação, ou o privilégio de acesso a outras coisas… Então é esse o modelo, precisamente, que nós não queremos replicar.

 

"Nós não temos que esperar alguém nos empoderar. Como uma região, nós temos não apenas o poder, mas a responsabilidade de fazer as coisas melhores." Marco Quesada

 

Como um todo, ao invés de olhar do Norte para o Sul, ou de San José para as áreas costeiras; eu acho que nós precisamos olhar para equidade e diversidade, e como nós realmente construímos essas aproximações de uma maneira que faça sentido para as pessoas que são mais afetadas.

Porque o que nós não queremos é essas aproximações desiguais. Se há alguma coisa que existe para nós aprendermos, é isso. Mesmo dentro dos nossos próprios países, nós precisamos ter certeza que estamos sendo justos, respeitosos e compreensivos sobre os conhecimentos que vêm desses locais. E se nós tivermos sucesso nisso, acho que estaremos em um local melhor como uma comunidade nacional e internacional.

Uma mulher indígena com o braço e uma máscara protetora lendo - Fora Salles, referindo-se ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participa de um protesto contra a política de mineração do presidente Jair Bolsonaro em relação às terras indígenas, em frente ao prédio do Ministério do Meio Ambiente em Brasília, no dia 20 de abril, 2021, em meio à pandemia de COVID-19. (Foto Sergio Lima / AFP)(Foto: SERGIO LIMA / AFP)
Foto: SERGIO LIMA / AFP Uma mulher indígena com o braço e uma máscara protetora lendo - Fora Salles, referindo-se ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, participa de um protesto contra a política de mineração do presidente Jair Bolsonaro em relação às terras indígenas, em frente ao prédio do Ministério do Meio Ambiente em Brasília, no dia 20 de abril, 2021, em meio à pandemia de COVID-19. (Foto Sergio Lima / AFP)

O POVO - E o senhor acha que nós estamos caminhando para, de fato, alcançar essa equidade e essa inclusão de todos esses conhecimentos?

Marco Quesada - Mais do que uma caminhada, esse processo é mais como uma dança. Às vezes, damos um passo para o lado, outras vezes um passo para trás. Mas eu realmente acho que estamos avançando. Depende do período de tempo que você observa.

Se você observar, talvez, nos últimos dois ou três anos é, às vezes, difícil e desanimador ver e pensar: “Oh, talvez não estejamos avançando tanto”, ou “Talvez estejamos indo para o caminho errado”. Mas eu acredito que, se você olhar para o modo que as coisas têm mudado nos últimos 30 ou 50 anos, eu acredito que após termos cometido muitos erros, estamos caminhando na direção certa.

E existe uma necessidade de caminhar mais rápido às vezes. Ou caminhar mais firmemente. Mas eu acredito que nós temos que, como uma região, assumir essa responsabilidade. Nós não somos apenas espectadores, nós somos protagonistas nessa dança, ou nesse caminhar, como você quiser. Mas está no nosso poder. Nós não temos que esperar alguém nos empoderar. Como uma região, nós temos não apenas o poder, mas a responsabilidade de fazer as coisas melhores.

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante o lançamento do programa Adote um Parque, no Palácio do Planalto(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante o lançamento do programa Adote um Parque, no Palácio do Planalto

O POVO - Pelo menos no Brasil, nós temos um presidente que não tem uma política ambiental. Na verdade, ele é antiambientalismo e, para fazer a Década do Oceano funcionar, boa parte do esforço vem da sociedade civil. Então, o senhor acredita a sociedade precisa estar mais empoderada para fazê-lo, sem depender tanto de presidentes e governos?

Marco Quesada - Eu acho que nós, como sociedade, às vezes não acreditamos no poder das nossas decisões. Na realidade, no dia-a-dia, as coisas que fazemos como uma sociedade, o que eu como, o tipo de peixe que eu escolho, o tipo de detergente que uso para a minha roupa... Tudo tem um efeito positivo ou negativo no Oceano e no planeta. Então nós, como sociedade, podemos ajudar por essa perspectiva. E às vezes isso pode ser muito romântico, ou pode ser difícil acompanhar as mudanças, mas eu acredito que é importante para nós ver liderança a partir dos nossos governantes.

 

"Uma das contribuições da América Latina, junto com a África e a Ásia, é dar contexto aos desafios que precisamos resolver para as pessoas que estão mais vulneráveis." Marco Quesada

 

A América Latina é muito colorida de várias maneiras, nós sempre tivemos diferentes cores em tudo. Incluindo governos. O que eu vejo é que cada vez mais os líderes, os jovens líderes que estão dando um passo em frente em nossos países, em países de todo o mundo, já vêm com essa sabedoria. O presidente da Costa Rica tem 40 anos. Alguns pensam que ele é muito novo, mas uma coisa que eu vejo na geração dele é uma compreensão e o fato de que ele está convencido que, sem uma ação ambiental, não há futuro para os filhos dele.

Em 11 de dezembro de 2020, manifestantes comemoram com lenços verdes - o símbolo dos ativistas pelos direitos do aborto - após a Câmara dos Deputados aprovar a descriminalização do aborto na Argentina.(Foto: AFP)
Foto: AFP Em 11 de dezembro de 2020, manifestantes comemoram com lenços verdes - o símbolo dos ativistas pelos direitos do aborto - após a Câmara dos Deputados aprovar a descriminalização do aborto na Argentina.

O POVO - Algo que acho muito interessante no Brasil é que a geração mais nova é extremamente ativa politicamente, principalmente quando se fala em meio ambiente. Na América Latina, o senhor acredita que todos os adolescentes são tão ativos politicamente? 

Marco Quesada - Minha percepção é que sim! Acredito que a nova geração está mais informada e também com mais vontade de tomar uma atitude e falar sobre as coisas. Eu acho que as redes sociais oferecem aspectos positivos e negativos. Positivamente, elas dão voz para as pessoas que 40 anos atrás não tinham, ou não tinham uma forma de expressá-la. Uma coisa que acho, se não negativa, mas limitante, é o quão rápidas as ideias são moldadas.

Conectando com sua primeira pergunta, eu acho que isso é algo que comunidades locais e tradicionais, os ocupantes originais das nossas terras, podem nos ensinar. Porque eles realmente fizeram uma curadoria do conhecimento deles e o construíram lentamente. É quase como cozinhar uma sopa de cozimento lento. E nós estamos na era de conhecimento rápido, e às vezes nós comemos o conhecimento errado. E isso é algo que eu espero ver que as gerações novas acolham: essa necessidade de olhar para diferentes fontes de conhecimento e não acreditar em tudo. Nós estamos na era em que tudo está conectado e tudo está ao alcance de um dedo, mas nós também temos muitas informações falsas. E essas informações costumam ser construídas de uma maneira que é mais fácil para nós aceitarmos. Enfim, eu acho que esse é o desafio que temos pela frente. 

 

 

O POVO - E quais seriam as tecnologias, as tecnologias sociais e as tecnologias tech também, que a América Latina pode realmente prover para ajudar nessa união global para ajudar o oceano?

Marco Quesada - Eu acho que a história das Américas é uma que tem beneficiado o mundo de diversas maneiras. Muitas das comidas base que hoje nutrem o mundo são originárias das Américas. Quesadas (tortas de queijo), praticamente vindas da América do Sul, batatas, tomates, milho… Chocolate, o cacau. As Américas sempre contribuíram para o mundo graças a sua biodiversidade e sua natureza diversa.

 

A diversidade biológica do Ceará

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O que eu vejo internacionalmente é que o grupo de países latinoamericanos tendem a encontrar um ponto de conexão facilmente ao defender a diversidade de seu povo, a vulnerabilidade do seu povo. Eu acho que uma das contribuições da América Latina, junto com a África e a Ásia, é dar contexto aos desafios que precisamos resolver para as pessoas que estão mais vulneráveis.

Nós temos muita afinidade cultural entre nós. Existem tantas maneiras que nós podemos nos conectar. Mas, mesmo assim, há muita diversidade. E acho que podemos usar a diversidade e a afinidade das nossas culturas para superar nossas diferenças e mostrar nossa frente comum para as soluções que estão sendo discutidas na agenda global. Para dar contexto, para dar um senso de prioridade da nossa região ao mundo, e o quanto o mundo depende da nossa região também. Porque a nossa diversidade, cultural ou biológica, é necessária para podermos nos adaptar aos desafios do futuro.

Diversidade é importante em tantos níveis que eu acho que todos reconhecem e até esperam pela liderança de países tão grandes quanto o Brasil, o Brasil sempre foi uma liderança internacional. E a Costa Rica é um país pequeno, mas nós temos uma voz forte. E eu acho que essas diferenças são realmente inspiradoras, não é? O país grande e o pequeno, sendo capazes de terem suas vozes, falarem e serem capazes de promover soluções para outros países do mundo. Eu acho que é sempre inspirador. E nós precisamos nos ver como parte da solução, firmemente, e nos reconhecermos como parte da solução. E com isso nós vamos contribuir para as discussões globais.

  • Texto Catalina Leite
  • Edição Fátima Sudário
  • Capa Isac Bernardo
  • Edição de arte Cristiane Frota e Isac Bernardo
  • Edição de vídeo Rebeca Azevedo
  • Recursos digitais Catalina Leite
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