Reportagem Seriada

Por que o Oceano é essencial para a vida na Terra?

A partir de 2021, o mundo vive a Década do Oceano. Com ela, vem a percepção de que o Ceará e o mundo estão interconectados ― assim como todos nós. Que desafios vêm pela frente?
Episódio 1

Por que o Oceano é essencial para a vida na Terra?

A partir de 2021, o mundo vive a Década do Oceano. Com ela, vem a percepção de que o Ceará e o mundo estão interconectados ― assim como todos nós. Que desafios vêm pela frente? Episódio 1
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Você já parou para refletir sobre o quanto estamos conectados com os outros, através das correntes oceânicas, e como o efeito das nossas ações pode cruzar o mundo? Vamos descobrir:

O circuito com as crianças já estava finalizado. Tinham enfiado os pés no solo molhado do mangue, tinham marchado pela areia e tinham até analisado as carapaças de caranguejos machos e fêmeas. O passeio era de uma faladeira só e, nos braços, eles carregavam todos os tipos de 'relíquias' achadas no caminho, como sacos e garrafas plásticas e copos descartáveis de café.

FORTALEZA, CE, BRASIL, 29.02.2020: IV Limpando os Manguezais organizado pelo Ecomuseu Natural do Mangue. (foto: Thais Mesquita/O POVO)(Foto: Thais Mesquita)
Foto: Thais Mesquita FORTALEZA, CE, BRASIL, 29.02.2020: IV Limpando os Manguezais organizado pelo Ecomuseu Natural do Mangue. (foto: Thais Mesquita/O POVO)

Rusty Sá Barreto, presidente do EcoMuseu Natural do Mangue (no bairro Sabiaguaba, em Fortaleza), recolhia esse tanto de lixo quase todos os dias. Conseguia alcançar meia tonelada em uma semana, sem muita dedicação. Mas essa foi a primeira vez que ele convidou as crianças a espalhar os achados no chão e olhá-los atentamente.

A primeira obervação foram os idiomas. Não era português, isso com certeza. Na verdade, alguns deles sequer usavam as letras latinas: alguns pareciam desenhos, várias linhas formando um caractere; outros, com alguma dedicação, até lembravam o “A”, “K” e “M” em caixa alta, mas ainda tinham algo de diferente. Depois de muito analisar, as conclusões foram chegando. Era japonês ou chinês, o outro podia ser russo. Tudo no lixo encontrado ali, em uma praia de Fortaleza, no meio das raízes dos mangues.

Isso, concordaram, significava que o lixo era do outro lado do mundo. Mas como poderia chegar até a Sabiaguaba? “Pelo mar”, afirmou Rusty. Viajou pelas correntes oceânicas e veio parar aqui, no Ceará, poluindo as praias e os manguezais. Provavelmente, o nosso lixo também deságua nas praias japonesas, e eles, assim como nós, devem franzir o cenho e perguntar o que é que significa a palavra “RECICLE” ou “SUPERMERCADO”.

Bom, o material virou acervo no ecomuseu. Já aquelas crianças aprenderam o que a Organização das Nações Unidas (ONU) quer divulgar durante a Década do Oceano (2021-2030): estamos todos conectados por um único, gigantesco e diverso Oceano. E nossas ações importam.

 

 

Oceano histórico

Provavelmente, você já ouviu que a Amazônia é o pulmão do mundo... Não é totalmente verdade. Quem produz mais da metade do oxigênio para os seres vivos da Terra é o Oceano ― o grande volume de água que preenche 71% da superfície terrestre, interconectando todos os continentes.

 

 

Mas como o Brasil sempre tem seu jeitinho, os 4,4 milhões de quilômetros quadrados (km²) de Oceano patrimonial do País são carinhosamente chamados de “Amazônia Azul” ― já que o território marítimo equivale à extensão da Amazônia. Só de zona costeira são nove mil quilômetros, dos quais 573 km correspondem ao estado do Ceará. É aqui que nossa viagem começa.

Trinta municípios cearenses são banhados pelo mar. Deles, 14 foram fundados ou emancipados entre 1980 e 2000, sendo Itaitinga e Fortim (a 30,6 km e a 135,3 km de Fortaleza, respectivamente) os mais jovens, de 1992. A mocidade dos municípios representa bem como a relação entre Ceará e mar é nova, mas já intensa.

 

 

Por que uma viagem no tempo? Porque a maneira que se vê e vive o mar é construída durante a história. Do século XX para o XXI, o Ceará fincou no Oceano fonte de renda comercial e turística. O Porto do Pecém, por exemplo, movimentou mais de três milhões de toneladas de cargas nos dois primeiros meses de 2021. Já Fortaleza tem figurado como principal destino turístico nacional, mesmo durante a pandemia.

Na idealização deste cenário, a elite da Capital ― que por muito tempo cresceu de costas para o mar ― decidiu avançar de fato pelas dunas e areias do litoral a partir de 1930, em um processo ambientalmente questionável. No dia 8 de fevereiro de 1943, entre notícias sobre a vigente Segunda Guerra Mundial, o fundador do O POVO Demócrito Rocha publica nota sobre o avanço de propriedades na Praia de Iracema. Leia íntegra a seguir:

 

Nota

Irritado com os homens, o Oceano Atlântico, nestes últimos dias, deliberou fazer urbanismo por conta própria, urbanismo sem indenizações a pagar aos proprietários de imóveis. O velho mar parte do princípio de que também possui a sua vaidade, o seu orgulho cósmico.

Não lhe basta que um romancista do Ceará lhe cante as ondas bravias e verdes, ou lhe rogue serenidade enquanto o barco aventureiro se faz ao largo. O mar também quer ser visto, ser admirado na sua planura de turquesa, nos dias de céu muito azul, ou na esmeralda de suas vagas, quando o vento de Leste lhe encrespa a superfície misteriosa.

Capa do dia 8 de fevereiro de 1943.(Foto: Data.Doc/Arquivos O POVO)
Foto: Data.Doc/Arquivos O POVO Capa do dia 8 de fevereiro de 1943.

Sucedeu, porém, que o homem pretendeu assenhorar-se das suas perspectivas que o mar para si próprio reclamava, a-fim-de ser mirado e admirado.

O homem cavou os cômodos da praia e dentro do valo atirou a argamassa. Tapou a vista ao mar. O mar era seu, só seu.

- O Atlântico? Que Atlântico? Ora, seu Fulano, isto aí que está é a minha piscina. Eu salto da cama e piso nas rendas que o vagalhão distende nas areias. Eu como, salgando o meu churrasco nas águas do mar...

E os prédios se multiplicaram naquela Canudos litorânea, inutilizando o mais belo dos bairros marinhos do Norte do Brasil.

O resultado aí está. O Atlântico, raivoso, investiu contra o mau gosto da arquitetura e começou, vigorosamente, a anular o traçado arbitrário do estranho arruamento, tolerado pela mais condenável negligência municipal.

Seria hoje quase impossível recuar as construções da Praia de Iracema de modo a que, em toda a área que fica entre o mar e a elevação do bairro do Outeiro, passasse a existir uma formosa avenida praiana, com um cem metros ou mais de largura.

Demócrito Rocha, jornalista, poeta, político e fundador do Jornal O POVO.(Foto: Fundação Demócrito Rocha)
Foto: Fundação Demócrito Rocha Demócrito Rocha, jornalista, poeta, político e fundador do Jornal O POVO.

Mas uma boa parte da zona Atlântica ainda pode tornar-se livre, para uma urbanização racional, evitando-se novas construções na planura, para erguê-las onde elas deveriam ter sido feitas: na encosta do Outeiro.

Convém pensar na cidade, que é um todo. E o interesse da urbe deve prevalecer sobre o interesse de meia dúzia de proprietários de terrenos situados em uma área em que, de modo nenhum, deverá ser permitida a construção de prédios.

O mar já tem repetido a sua advertência.

Não é possível que o homem continue a desprezá-la.

 

 

 

 

Enquanto Demócrito criticava os proprietários, houve no decorrer dos anos muita preocupação pelos moradores menos abastados da região litorânea. Pescadores, marisqueiras, jangadeiros e comunidades indígenas viram no avanço do mar ― causado pela expansão urbana ― riscos para a sobrevivência. Além do relato do fundador, O POVO tem noticiado ressacas marítimas violentas desde a década de 50.

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Não só em Fortaleza: em 1986, o mar avançou sobre a comunidade da Barra, em Paracuru. Na época, o vilarejo contava com 54 casas, das quais 240 pessoas temiam perder a moradia em decorrência das inundações causadas pela maré alta. Segundo a matéria publicada no O POVO no dia 3 de fevereiro de 1986, a comunidade já sofria com a situação desde 1977.

Assim, não é de se estranhar quando o geógrafo Fábio Matos, professor do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC), vê o desenho e a implementação da Política Estadual de Gerenciamento Costeiro e do Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro como prioridade para o Estado nesta Década.

Os dispositivos legais foram instituídos pela Lei n° 13.796/2006, e estão sendo desenvolvidos pela Célula de Gestão Territorial da Coordenadoria de Desenvolvimento Sustentável da Secretaria do Meio Ambiente (Sema).

 

 

Os planos precisam considerar os diversos ecossistemas da zona costeira cearense, como os campos de dunas, estuários com manguezais, lagoas costeiras, falésias e tabuleiros.

“No Ceará estamos na vanguarda com a preocupação de inserir a zona costeira enquanto política pública, por uma necessidade nossa. Porque os nossos espaços de praia estão se esgotando, estão cada vez mais avançando. Caucaia está perdendo faixa de praia, por exemplo. Se a gente for para quase todos os municípios costeiros do Ceará, vamos presenciar esses processos”, destaca Fábio.

 

 

Outros desafios do Ceará e do Nordeste

De acordo com Mary Nogueira, geóloga e representante do Ceará no Grupo de Apoio à Mobilização - Nordeste (GAM-NE) na Década do Oceano, o Ceará também enfrenta outros desafios. A identificação de novos contaminantes e como eles afetam a vida marinha e humana é um deles; verdadeiro também para toda a região nordestina.

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A preocupação surge especialmente após o desastre ambiental de derramamento de óleo nas praias, em 2019. O óleo chegou a 999 localidades, segundo balanço do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Foram ao menos 130 municípios afetados, entre todos os estados do Nordeste e também do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.

Além das demandas ambientais, há o desafio da implementação de políticas públicas. Mary exemplifica com a precariedade no saneamento básico, principalmente em bairros da periferia de Fortaleza. “Olha o tanto de tecnologia que a gente tem pra que isso não estivesse mais ocorrendo na nossa cidade”, reflete.

Segundo ela, os dados necessários para mapear e prever problemas socioambientais já estão disponíveis, mas falta vontade política para implementar ações. “Se o poder público não utilizar a lei para de fato controlar ou ainda punir quem não está respeitando [as leis ambientais], a gente fica de mãos atadas, concorda?”

“Às vezes eu acho que a maior dificuldade que temos da comunicação não é com a população, mas com o próprio poder público. Parece que o óbvio não é óbvio para eles”, afirma Mary.

 

A mil quilômetros do mar, ainda o Oceano

Partindo de Fortaleza, pela BR-020, prepare-se para a viagem de 1.969 km até Brasília (DF). Em um dia e meio, cruza-se o Piauí, um pedacinho da Bahia e finalmente a Capital do Brasil, localizada na única região sem zona costeira do País.

 

 

Por lá, o clima é seco (abaixo de 30% de umidade, do tipo que faz sangrar o nariz dos mal acostumados) e morno, com chuvas ocasionais. De vez em quando, cai granizo. Tão isolados do mar, nem todos os brasilienses sabem que é a circulação oceânica a responsável por transferir e distribuir o calor no globo para a manutenção do clima.

Por isso, não é apenas a faixa de 17 estados brasileiros litorâneos que podem discutir a Década do Oceano: todos devem estar envolvidos. E nos Grupos de Apoio à Mobilização brasileiros, a emergência climática é tema principal. Aliás, é assim em todo o mundo.

Um relatório do Climate Crisis Advisory Group (CCAG), publicado no final de julho de 2021, indicou que o aquecimento e derretimento acelerado do gelo no Ártico pode ser o principal gatilho para incidentes climáticos extremos no planeta. De acordo com o documento, apenas os 1,2°C de aquecimento global atuais são uma parte do problema, mas não o todo.

Iceberg em Tiniteqilaaq, Groenlândia.  (Foto:  Jean-Christophe André/Pexels)
Foto: Jean-Christophe André/Pexels Iceberg em Tiniteqilaaq, Groenlândia.

Apenas a camada de gelo na Groenlândia, por exemplo, é suficiente para elevar o nível global do mar em 7,5 metros. A liberação de água doce fria no Atlântico Norte diminui a circulação do oceano, desequilibrando toda a temperatura do planeta. Um dos eventos climáticos afetados é a monção sul-americana, grande sistema atmosférico que atua na faixa tropical, associado à reversão da direção dos ventos durante a fase de transição entre o inverno (pouca chuva) e o verão (muita chuva), como define pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Os impactos da influência humana sobre o clima em uma região se propagam a outras regiões em função da circulação atmosférica e oceânica. Não atuar para reverter as causas da mudança climática e reduzir seus impactos é uma escolha que implica em prejuízos substanciais para nossa economia e para a segurança da população”, alerta a pesquisadora e única brasileira membro do CCAG Mercedes Bustamante, à Agência Bori.

 

 

E os primeiros a identificarem os efeitos da elevação dos mares e das mudanças climáticas são as comunidades litorâneas. Em dezembro de 2005, O POVO mencionou a possível primeira leva de refugiados ambientais: os habitantes do arquipélago Tuvalu, um país da Oceania, ameaçados pelo avanço do Oceano. Lá, as ilhas quase não passam de sete metros de altura (sim, a mesma medida que o nível do mar pode aumentar só com a camada de gelo da Groenlândia).

Uma projeção da Climate Central, grupo independente de cientistas e comunicadores que pesquisam os efeitos das mudanças climáticas, mostra o avanço do mar até 2030 no mundo. Veja algumas das áreas cearenses ameaçadas, em vermelho:

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Desde a década de 40, vilarejos litorâneos, comunidades de pescadores e barraqueiros enfrentam violentas ressacas marítimas no Estado, das quais muitos ficaram desabrigados. E é essencial que essas pessoas, além de cientistas e ambientalistas, sejam ouvidas durante a Década do Oceano.

“Essas pessoas que estão na ponta, com o pé na areia, são essenciais para qualquer decisão que a gente vai tomar. Elas serão as primeiras pessoas a ser afetadas e a notar o que tem mudado”, comenta Mariana Andrade, representante jovem do Comitê de Assessoramento da Década no Brasil e membro da Liga das Mulheres pelo Oceano.

No entanto, os povos do mar não vivem passivamente. Eles acumulam e amadurecem conhecimentos por décadas, às vezes séculos, sobre ciclos ambientais e como trabalhar sustentavelmente com eles. E são eles que primeiro percebem como intervenções humanas influenciam nos ecossistemas marinhos.

 

 

Com a vara na mão, imponente no topo de uma falésia em Pontal do Maceió, em Fortim (CE), o pescador José Ferreira Monteiro - que prefere ser chamado de Dedé - pesca peixe a peixe enquanto relembra as mudanças na praia. Dos 55 anos de vida, Dedé comenta a construção do Canal da Barra Fortim, obra a qual suspeita ter impedido o desague de água doce no mar.

Foi quando a areia cobriu todos os buracos antes lar para frutos do mar e peixes, que sustentavam os pescadores há décadas, diz. “Até dez anos atrás, a gente arrastava de rede e pegava muito camarão, muito siri e toda espécie de peixe. Mas hoje em dia é difícil, bem mais difícil”, lamenta. Restaram os peixes pequenos, capturados por linha, que vão às paredes rochosas para buscar alimento.

Fortim, Ce, BR - 12.08.21 Década dos Oceanos - Praia de Pontal de Maceió no município de Fortim, Na foto José Ferreira Monteiro, 55 anos  (Fco Fontenele/O POVO)(Foto: FCO FONTENELE/O POVO)
Foto: FCO FONTENELE/O POVO Fortim, Ce, BR - 12.08.21 Década dos Oceanos - Praia de Pontal de Maceió no município de Fortim, Na foto José Ferreira Monteiro, 55 anos (Fco Fontenele/O POVO)

Apesar dos desafios agravados a cada ano, os pescadores seguem firmes. “Eu já nasci pescador”, ri Dedé, em meio à ventania. “Minha mãe dizia que eu já ia criança arrastar rede, com eles me segurando pra não cair. Eu tenho minha liberdade, graças a Deus. Eu não tenho dinheiro, não tenho fartura, mas tenho Deus comigo”, sorri. No próximo episódio, a ser publicado no dia 3 de setembro, uma viagem à Fortim vai mostrar o Oceano refletido em água doce e a vida dos pescadores e marisqueiras cearenses.

 

  • Edição Fátima Sudário 
  • Concepção e recursos digitais Catalina Leite
  • Capa Isac Bernardo
  • Edição de arte Cristiane Frota e Isac Bernardo
  • Pesquisa Data.doc Miguel Pontes Neto
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