Reportagem Seriada

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo: o fim de uma era de supercraques?

Por quase uma década e meia, os dois tiveram lugar cativo no topo da lista dos melhores do mundo. Porém, pela primeira vez desde 2007, Messi e Cristiano Ronaldo sequer estiveram nas semifinais da Liga dos Campeões. Entre os especialistas, o debate já rola: estariam os dois supercraques entrando no ocaso da carreira
Episódio 1

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo: o fim de uma era de supercraques?

Por quase uma década e meia, os dois tiveram lugar cativo no topo da lista dos melhores do mundo. Porém, pela primeira vez desde 2007, Messi e Cristiano Ronaldo sequer estiveram nas semifinais da Liga dos Campeões. Entre os especialistas, o debate já rola: estariam os dois supercraques entrando no ocaso da carreira Episódio 1
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Grandes jogadores marcam o nome na história do futebol, viram estrelas milionárias, passeiam pelos espaços de mídia, mas são poucos os que sobem a ponto de imprimir o nome na lista dos melhores de um ano. Tal ranking ficou ainda mais limitado a partir do final dos anos 2000. Foi quando um português e um argentino tomaram o mundo da bola de assalto, tanto em conquistas coletivas quanto individuais.

No esporte coletivo, peça isolada não faz a engrenagem girar só, porém, com foras de série tais quais os dois, fatalmente vitórias e conquistas se acumulam. A hegemonia é tanta — eles ficaram com os prêmios de melhor do mundo da Fifa e da revista France Football em 11 dos últimos 12 anos — que parecia eterna.

Neste período, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo proporcionaram verdadeiro espetáculo. Argentino e português travaram batalhas anuais pelo trono de melhor jogador do planeta. O primeiro ficou com 6, o segundo com 5. Cada um com seu estilo. De um lado, um camisa 10 capaz de deixar companheiros de frente para o gol, driblar adversários e marcar golaços num estilo de puro talento. Do outro, o camisa 7 que soube se reinventar com o avançar de idade e foi de driblador veloz a máquina de gols, dominante em todos os fundamentos numa forma apurada em muitos e muitos treinos.

Camisa 10 de Messi, camisa 7 de Cristiano Ronaldo(Foto: carlus campos)
Foto: carlus campos Camisa 10 de Messi, camisa 7 de Cristiano Ronaldo

Ser decisivo em competições importantes é fundamental para consolidar a carreira de um jogador. Na Liga dos Campeões, principal competição entre clubes do mundo, os dois craques possuem vasto currículo de grandes atuações, títulos e gols. Cristiano Ronaldo é o maior artilheiro, com 130 gols. O vice é Messi, com 115, e dois anos de idade a menos.

A temporada 2019/2020, que já era estranha devido à interrupção decorrente da pandemia de novo coronavírus, representou quebra. Pela primeira vez desde 2007, as semifinais da Champions League não tiveram qualquer um destes craques. A Juventus, de Cristiano Ronaldo, caiu nas oitavas de final, derrubados pela zebra Lyon. O Barcelona, de Lionel Messi, parou nas quartas, com direito a vexame na goleada histórica de 8 a 2 do Bayern de Munique.

A queda precoce é emblemática naquilo que se desenha como possível início do fim da supremacia de mais de uma década. Parece que, enfim, o tempo cobra passagem: Cristiano Ronaldo tem 36 anos, Messi, 33. Parecem, afinal, ser humanos, depois de tudo.

O domínio foi longo, talvez nunca antes visto no futebol, mas está chegando ao fim. Os times estão piores, até porque eles já não conseguem fazer os companheiros jogarem melhor. Julio Gomes, colunista do UOL

Para o jornalista Bruno Formiga, do Esporte Interativo, os supercraques não vão deixar imediatamente de ser decisivos, mas o abismo entre eles e as demais estrelas do futebol tende a diminuir. "O domínio dos craques no futebol mundial está perto do fim, muito por conta da idade também", argumenta.

Colunista do UOL, Julio Gomes acrescenta que a queda do futebol apresentado por Juventus e Barcelona deve ser levada em consideração para medir o suposto ocaso da supremacia. "O domínio foi longo, talvez nunca antes visto no futebol, mas está chegando ao fim. Os times estão piores, até porque eles já não conseguem fazer os companheiros jogarem melhor".

A pandemia não pode ser descartada como fator, já que a temporada teve de ser paralisada por três meses, lembra o jornalista Gustavo Hofman, da ESPN Brasil. "(A pandemia) Acabou ocasionando resultados inesperados. Uns times voltaram melhor (da parada) e outros não. Juventus e Barcelona, por exemplo, voltaram jogando bem pior. Na próxima temporada é possível que os craques consigam chegar longe na Liga". (Victor Hugo Pinheiro/Especial para O POVO)

 

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Lionel Andrés Messi Cuccittini

Data de nascimento: 24 de junho de 1987 (33 anos)
Local: Rosario (Argentina)
Times de base: Newell’s Old Boys e Barcelona

Títulos por Clubes

Títulos pelo Barcelona

Campeonato Espanhol: 2004–05, 2005–06, 2008–09, 2009–10, 2010–11, 2012–13, 2014–15, 2015–16, 2017–18, 2018–19
Copa do Rey: 2008–09, 2011–12, 2014–15, 2015–16, 2016–17, 2017–18
Supercopa da Espanha: 2006, 2009, 2010, 2011, 2013, 2016, 2018
Liga dos Campeões: 2005–06, 2008–09, 2010–11, 2014–15
Supercopa da Uefa: 2009, 2011, 2015
Mundial de Clubes da Fifa: 2009, 2011, 2015

Títulos pela Seleção da Argentina

Copa do Mundo sub-20: 2005
Jogos Olímpicos (sub-23): 2008

Prêmios Individuais

Bola de Ouro Fifa e France Football – 2010, 2011, 2012, 2015
Melhor Jogador do Mundo pela Fifa – 2009, 2019
Bola de Ouro France Football – 2009, 2019
Bola de Ouro da Copa do Mundo Fifa – 2014
FIFPro World XI – 2009, 2010, 2011, 2012 e 2018, 2019
Melhor Jogador do Mundo pela FIFPro – 2009, 2010, 2011, 2012, 2019
Melhor Jogador da Uefa – 2010/11, 2014/15
Chuteira de Ouro da Uefa – 2009/10, 2011/12, 2012/13, 2016/17, 2017/18, 2018/19
Melhor Jogador Jovem do Mundo pela FIFPro – 2006, 2007, 2008
Trofeo Alfredo Di Stéfano – 2008/09, 2009/10, 2010/11, 2014/15, 2016/17 e 2017/18
Troféu Pichichi (artilheiro do Campeonato Espanhol) – 2009/10, 2011/12, 2012/13, 2016/17, 2017/18, 2018/19
Melhor Atleta Eleito pela Espy Awards – 2012, 2015 e 2019
Prêmios LFP – 2008/09, 2010/11, 2011/12, 2012/13 e 2014/15
Melhor atacante de Campeonato Espanhol – 2008/09, 2009/10, 2010/11, 2011/12, 2012/13, 2014/15, 2015/16, 2017/18,2018/19
Melhor gol da Uefa – 2015/16
The Best Fifa Football Awards – 2019
Melhor gol da Liga dos Campeões da Uefa - 2018/19
Prêmio Laureus – 2020

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Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro

Data de nascimento: 5 de fevereiro de 1985 (36 anos)
Local:Funchal, Ilha da Madeira (Portugal)
Times de base: Andorinha, Nacional da Madeira e Sporting Lisboa

Títulos por Clubes

Títulos pela Juventus

Campeonato Italiano: 2018-2019, 2019-2020
Supercopa da Itália: 2018
Liga dos Campeões: 2005–06, 2008–09, 2010–11, 2014–15
Supercopa da Uefa: 2009, 2011, 2015
Mundial de Clubes da Fifa: 2009, 2011, 2015

Títulos pelo Real Madrid

Liga dos Campeões: 2013/14, 2015/16, 2016/17, 2017/18
Mundial de Clubes da Fifa: 2014, 2016, 2017
Supercopa da Uefa: 2014, 2016, 2017
Supercopa da Espanha: 2012, 2017
Copa do Rey: 2010/11, 2013/14
Campeonato Espanhol: 2011/12, 2016/17

Títulos pelo Manchester United

Premier League: 2006/07, 2007/08, 2008/09
Copa da Liga Inglesa: 2005/06, 2008/09
Supercopa da Inglaterra: 2007
Copa da Inglaterra: 2003/04
Liga dos Campeões: 2007/08
Mundial de Clubes da Fifa: 2008

Títulos pelo Sporting

Supercopa de Portugal: 2005

Títulos pela Seleção de Portugal

Eurocopa: 2016
Liga das Nações da Uefa: 2018/19

Prêmios Individuais

Bola de Ouro Fifa – 2013 e 2014
Melhor Jogador do Mundo pela Fifa – 2008
Bola de Ouro – 2008, 2016 e 2017
The Best Fifa Football Awards – 2016 e 2017
Melhor Jogador do Mundo pela FIFPro – 2008, 2013, 2014, 2016, 2017
Chuteira de Ouro da Uefa – 2007/08, 2010/11, 2013/14 e 2014/15
Prêmio Fifa Ferenc Puskás – 2009
Melhor jogador da Premier League – 2006/07 e 2007/08
Melhor jogador do Campeonato Espanhol – 2012/13 e 2013/14
Trofeo Alfredo Di Stéfano – 2011/12, 2012/13, 2013/14, 2015/16
Troféu Pichichi (artilheiro de Campeonato Espanhol) – 2010/11, 2013/14, 2014/15
Melhor jogador do Campeonato Italiano: – 2018/19

 

Supercraques têm supremacia na Europa,
mas fracassaram em Copas do Mundo

Cristiano Ronaldo, supercraque da Juventus(Foto: AFP)
Foto: AFP Cristiano Ronaldo, supercraque da Juventus

Messi e Cristiano Ronaldo disputaram quatro Copas do Mundo cada: 2006, 2010, 2014 e 2018. A melhor colocação de La Pulga, como Messi é chamado, foi um vice-campeonato com a Argentina, em 2014. Já CR7, que joga numa seleção menos tradicional, tem no currículo um quarto lugar por Portugal, em 2006. Ganhar uma Copa do Mundo é a grande lacuna na brilhante carreira de ambos. Catar-2022 se desenha como a última chance.

Em 2006, ambos eram jovens jogadores. Com 19 anos, Messi era reserva da Argentina, jogou pouco, marcou um gol, mas ficou no banco na eliminação diante da Alemanha, nas quartas de final. Cristiano Ronaldo, aos 21 anos, era titular de uma seleção portuguesa cujos protagonistas eram Luís Figo e Deco. A boa campanha teve fim nas semifinais, com derrota por 1 a 0 para a vice-campeã França.

Na África do Sul-2010, os craques chegaram como os dois melhores jogadores do mundo. Apesar da enorme expectativa, Messi saiu de campo sem marcar um gol sequer e com a Argentina goleada pela Alemanha nas quartas de final. Cristiano Ronaldo até marcou gol, mas teve sua seleção eliminada pela eventual campeã Espanha, logo nas oitavas de final.

No Brasil-2014, Messi foi até escolhido o craque do Mundial. O camisa 10 fez quatro gols, foi o líder técnico da Albiceleste, mas perdeu na final para a Alemanha com gol nos acréscimos. Longe da melhor condição física, CR7 marcou um gol na queda de Portugal na fase de grupos.

Lionel Messi, supercraque do Barcelona(Foto: RAFAEL MARCHANTE / POOL / AFP)
Foto: RAFAEL MARCHANTE / POOL / AFP Lionel Messi, supercraque do Barcelona

Em 2018, na Rússia, ambos foram eliminados nas oitavas de final. Por ironia do destino, exatamente no mesmo dia: 30 de junho. As seleções não eram favoritas ao título — a Argentina chegou a ser em 2006, mas a de Portugal sempre foi azarão. Cristiano Ronaldo marcou quatro gols; Messi, um. O Uruguai eliminou os portugueses, enquanto os argentinos caíram para a França, campeã semanas depois.

Em cada um dos Mundiais, prevaleceu o jogo coletivo de times equilibrados. Como lembrou o jornalista Julio Gomes, as eliminações recentes de Juventus e Barcelona não recaem apenas nas costas de CR7 e Messi, bem como a taça do mundo não se ganha só.

As últimas quatro seleções campeãs eram times fortes coletivamente: Itália (2006), Espanha (2010), Alemanha (2014) e (2018). (Victor Hugo Pinheiro/Especial para O POVO )

 


Não convém duvidar de Cristiano Ronaldo

Por Fernando Graziani *

 

Um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, o português Cristiano Ronaldo segue em grande forma técnica e física, ainda que os 36 anos possam fazer alguém desconfiar. Não por acaso, na terça-feira, 8 de setembro, marcou dois golaços atuando pela seleção portuguesa contra a Suécia e chegou aos 101 tentos anotados representando seu país.

Jornalista Fernando Graziani, editor-chefe de Esportes do O POVO(Foto: ETHI ARCANJO)
Foto: ETHI ARCANJO Jornalista Fernando Graziani, editor-chefe de Esportes do O POVO

Aos 36 anos, forte como nunca, o compromisso com a Juventus-ITA vai até julho de 2022 e ele seguirá como protagonista de um time que vai buscar mais do que a conquista do título italiano, novamente confirmado na temporada 2019/2020.

Para dominar o mundo com seus gols e conquistas, o atleta, já eleito cinco vezes o melhor do planeta, certamente vai precisar de companheiros relevantes e um treinador que faça o time atuar melhor - a Juve contratou Pirlo para comandar o grupo - em comparação ao que ocorreu na temporada que passou, até porque o futebol é coletivo e as individualidades se destacam justamente em boas equipes, com conjuntos acertados taticamente.

É evidente que ignorar a idade de Cristiano Ronaldo não faz sentido, ainda mais em um esporte como o futebol, de altíssima exigência, mas o atacante ainda tem ao menos dois ou três anos para se manter em grande nível de competitividade e poder de decisão. Há margem de adaptação do jogo, usando inteligência e ocupação de espaço, deixando a força física como menos importante do que um dia já foi.

Clubes europeus, como a Juventus de Cristiano Ronaldo, não passarão ilesos pela crise (Foto: MARCO BERTORELLO/AFP)
Foto: MARCO BERTORELLO/AFP Clubes europeus, como a Juventus de Cristiano Ronaldo, não passarão ilesos pela crise

Assim, apostar contra o jogador nascido na Ilha da Madeira não é um negócio promissor. Sua força de vontade, perseverança e seriedade sempre tiveram um enorme talento como companhia e os 30 títulos e os mais de 700 gols marcados não deixam dúvida. Basta perguntar a qualquer torcedor do Sporting, Manchester United, Real Madrid, Juventus e da seleção portuguesa.

* Fernando Graziani é jornalista e editor-chefe de Esportes do O POVO

 

O 'fica' de Messi 

O argentino fica no Barcelona. Não está feliz, mas depois de tornar público o desejo de deixar o clube espanhol, onde sempre jogou, ele anunciou que jogará até 2021. A história de Lionel Messi no Barcelona começa no dia 14 de dezembro de 2000. Na ocasião, a promessa argentina de 13 anos recebeu seu primeiro contrato com o clube blaugrana escrito em um guardanapo do restaurante catalão Real Sociedad de Tenis Pompeya.

A relação de quase 20 anos entrou em crise após temporada conturbada. Se durante boa parte de seu tempo com o Barça Messi não teve dificuldades em ganhar títulos e ter uma equipe vencedora, nos últimos anos o roteiro aos poucos mudou.

Sem Xavi, Iniesta, Guardiola e com um projeto de reestruturação que não o agradava, se tornaram frequentes os vexames na Liga dos Campeões — que culminaram com a eliminação com 8 a 2 para o Bayern de Munique, que se sagrou campeão dez dias depois da goleada.

Neste 2020, ano atípico para todos por conta da pandemia do novo coronavírus, Messi e Barcelona também sentiram. Acostumado com glórias, teve de se contentar uma temporada sem taças. Artilheiro do Espanhol com 25 gols, viu o rival Real Madrid ser campeão nacional. Na Copa do Rey, saída precoce. Na Champions, vexame histórico.

Craque argentino Messe anunciou na semana passada que permanecerá no Barcelona (Foto: JAVIER SORIANO / AFP)
Foto: JAVIER SORIANO / AFP Craque argentino Messe anunciou na semana passada que permanecerá no Barcelona

Já fazia algum tempo que Lionel Messi pedia uma reestruturação no Barcelona, mas não era atendido pelo atual presidente do clube, Josep Maria Bartomeu. Ao final da desastrosa temporada 2019-2020, o dirigente demitiu o técnico Quique Setién e contratou o holandês Ronald Koeman. A reformulação proposta, contudo, não agradou La Pulga.

A torcida do Barcelona reagiu com protestos na porta da Cidade Esportiva Joan Gamper, CT do Barcelona, e o alvo foi Bartomeu, a quem exigem a renúncia. Em entrevista ao jornal catalão Sport, o dirigente negou intenção de sair antes das eleições, em 2021.

Com a camisa do Barcelona desde 2004, Lionel Messi realizou 485 jogos e marcou 634 gols, sendo o maior artilheiro da história do clube. Ao todo, ele conquistou 10 Campeonatos Espanhóis, 6 Copas do Rei, 4 Ligas dos Campeões e 3 Mundiais de Clubes. (Das agências)


Messi x Barcelona: todos os clichês do amor

Por André Bloc *

 

Neste século de futebol, pouco sentimento é mais próximo ao de aconchego do lar do que ver Lionel Messi vestido de azul-grená. É como aquele casal de velhinhos que nos faz acreditar no amor mesmo depois do milésimo término doloroso nas nossas vidas.

 André Bloc, jornalista do O POVO (Fortaleza, CE, Brasil, 10-03-2017. MATEUS DANTAS)(Foto: MATEUS DANTAS)
Foto: MATEUS DANTAS André Bloc, jornalista do O POVO (Fortaleza, CE, Brasil, 10-03-2017. MATEUS DANTAS)

São 19 anos, desde quando jovem coadjuvante com aquele cabelo argentino era coadjuvante de Ronaldinho nos gramados ao experiente goleador, maior nome, bem, de todos os palcos onde pisou. A carreira de argentino no Barcelona vem sempre resumida, já que a limitação de caracteres obrigaria que o perfil se resumisse a uma listagem de taças coletivas e individuais. Lionel Messi é, afinal, o maior jogador de futebol do século XXI. E, claro, ainda tem uns 80 anos para alguém tentar superá-lo, mas ai de quem ouse tentar.

Como o artigo mira publicação on-line, vamos à listagem. Com a camisa 10 do Barça, são 4 Ligas dos Campeões da Uefa, 10 Campeonatos Espanhóis, 7 Copas do Rei da Espanha, 3 Mundiais da Fifa, 3 Supercopas da Uefa e 7 Supercopas da Espanha. Foram 634 gols, 285 passes para gols e uma infinitude de lances de puro brilhantismo.

Individualmente, a lista é quase infinita, então vamos nos ater às 6 escolhas como melhor do mundo, tanto para Fifa, quanto para a revista France Football. Messi foi campeão como protagonista de tudo que disputou com o Barcelona. A ele, o clube deve as duas décadas de maior relevância em 120 anos de história.

Lionel Messi é, afinal, o maior jogador de futebol do século XXI. E, claro, ainda tem uns 80 anos para alguém tentar superá-lo, mas ai de quem ouse tentar. André Bloc, jornalista do O POVO

Mas não é como se o Barcelona fosse um ex-namorado amargo. Lionel Messi não é um talento que brotou de terra infértil. Ele é franzino e baixinho até hoje, com 1,70m, 70 e poucos quilos. Mas desembarcou na Espanha com aspecto ainda mais frágil. Cresceu, com muito treino e dedicação e, também, com uma filosofia de futebol bem definida. Aprendeu cedo o que era vencer. Viciou-se, como todo campeão. O Barcelona cumpriu todos os objetivos de Messi. Por meio de Messi, o Barcelona supriu mais do que todas as expectativas de uma multidão.

A analogia do casamento ficou meio enferrujada pelo excesso de uso pelo presidente do Brasil, cuja única metáfora usada (à exaustão) é a do matrimônio. Mas volto a ela para lembrar daquele casal capaz de nos fazer acreditar. Messi e o Barcelona impuseram uma aura de magia ao esporte mais popular do mundo. Mesmo quem odiou cada conquista já soltou um riso entre dentes após um drible genial.

Só que tudo um dia acaba. Costumo repetir que toda história de amor acaba em tragédia. Um dia alguém morre. Quem sabe os dois falecem juntos — esse é o cenário otimista. Ou encontram uma paixão que faça mais sentido e deixam de lado o que já ousou parecer perfeição. E aí tem o cenário de argentino com catalães. Divórcio litigioso, com direito a brigas por pensões, guarda, divisão de bens e mútuas acusações de violência. Um fim de destruição após décadas de construção.

Messi pode permanece no Barcelona até o final da temporada 2020/21 (Foto: Josep LAGO / AFP)
Foto: Josep LAGO / AFP Messi pode permanece no Barcelona até o final da temporada 2020/21

Casamentos acabam. A história só se expande. O Barcelona precisa se reinventar e parte disso é entender que um astro insatisfeito não lhes levará sozinho às dezenas de glórias que levou antes. Lionel Messi precisa lembrar do sabor da vitória. E sabe que não existe drible eterno sobre o tempo, que sempre cobra o que é dele.

Mesmo Messi vê a aposentadoria ali na esquina. Aos 33 anos, com todos os títulos possíveis dentro de um clube, ele precisa de motivação, um norte. Pela primeira vez na vida, ele se viu solteiro, baixou o Tinder, partiu para conhecer alguém. Decidiu que mais vale construir algo novo do que consertar um relacionamento abusivo.

No esporte — ainda mais na realidade paralela que aterrissou neste 2020 —, nada é linear. Não é como se Messi fosse para o Manchester City e encontrasse sua Xanadu, sua utopia. Quem sabe virá a ser uma Waterloo, uma trincheira final. Acho só que o craque não deve mais nada a ninguém e, humano que é — por tantas vezes que provou o contrário —, tem o direito de errar.

Se forem todos maduros o suficiente, dá para se encontrarem na graduação dos filhos, tirar fotos juntos e lembrar dos tempos que pareciam eternos.

* André Bloc é jornalista e editor-adjunto de Esportes do O POVO

 

Episódio 2

O jornalista João Marcelo Sena escreve sobre a sucessão dos supercraques no futebol e indica o que esperar do próximo melhor do mundo. E tem crônica do jornalista Demitri Túlio sobre o impacto da despedida de Zico para o torcedor do Flamengo.
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