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Após Messi e Cristiano Ronaldo: quando há um vazio na galeria dos reis

MELHORES JOGADORES DO MUNDO | Um passeio pela história dos melhores jogadores de futebol do mundo nos últimos 100 anos - e a interrogação que se prenuncia para o futuro
Episódio 3

Após Messi e Cristiano Ronaldo: quando há um vazio na galeria dos reis

MELHORES JOGADORES DO MUNDO | Um passeio pela história dos melhores jogadores de futebol do mundo nos últimos 100 anos - e a interrogação que se prenuncia para o futuro Episódio 3
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A Uefa anunciou a lista dos melhores jogadores da Europa e, pela primeira vez desde a criação do prêmio, em 2011, nem Lionel Messi nem Cristiano Ronaldo estão entre os três primeiros. O Barcelona de um Messi que ficou no clube contra a vontade estreou no fim de setembro deste 2020 no Campeonato Espanhol. Nos três primeiros jogos, sempre fez gols ou criou lances em que o time marcou. Cristiano Ronaldo estreou uma semana antes do argentino no Campeonato Italiano pela Juventus e, em dois jogos, marcou três gols. Ambos tentam mostrar que seguem com a supremacia no futebol mundial e que o aparente declínio técnico é reflexo de uma temporada atravessada pela pandemia de Covid-19. Ajuda a ambos o fato de não haver candidatos óbvios ao posto de melhor do mundo.

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Supercraques do futebol: a hora de definir um herdeiro

Há uma tradicional proclamação quando monarcas ascendem ao trono, cuja origem é situada no século XV: "O rei está morto, vida longa ao rei". Remonta a uma época em que as sucessões nos tronos reais eram objeto de terríveis disputas e os vazios provocavam crises terríveis. A intenção era não deixar vácuo de poder. No futebol, as sucessões no topo podem ocorrer antes de o antigo “rei” sair de cena. Assim como podem ocorrer também vazios no “trono”.

Lionel Messi, com o prêmio de melhor jogador do mundo em 2019
Foto: Valery HACHE / AFP
Lionel Messi, com o prêmio de melhor jogador do mundo em 2019

No prêmio europeu da temporada, Robert Lewandowski, Manuel Neuer (ambos do Bayern de Munique) e Kevin De Bruyne (Manchester City) disputam a coroa. Não está evidente se algum deles, ou qualquer outro jogador no planeta, prepara-se para assumir o posto que há mais de uma década é dividido por Messi e CR7. A possível lacuna que se prenuncia na posição de melhor do mundo é rara na história do futebol, desde quando passou a haver referenciais mundiais para avaliar os craques.

O primeiro esquadrão

Quem foi o primeiro rei do futebol? Não é fácil estabelecer o primeiro "melhor do mundo". O primeiro grande campeonato internacional de futebol pode ser considerado o torneio realizado das Olimpíadas de 1908. As viagens transatlânticas naquela época eram feitas de navio. O esporte era amador e os atletas precisavam passar meses fora de casa - e de seus empregos. Por isso, apenas seleções de futebol europeias participaram dos Jogos em Londres. O Reino Unido foi medalha de ouro e repetiu a dose em 1912, em mais uma competição entre europeus. Nos primeiros Jogos Olímpicos após a Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido foi eliminado na primeira fase, em 1920.

Uruguai, Montevidéu, 30/07/1930. Imagem aérea do estádio Centenário durante partida entre Uruguai e Argentina na final da Copa do Mundo de futebol de 1930, em Montevidéu. Na final, o país-sede e favorito Uruguai bateu a Argentina por 4 a 2 em frente a uma torcida de 93.000 pessoas e se tornou a primeira nação a vencer uma Copa do Mundo. (Foto ARQUIVO/AE)
Foto: ARQUIVO/AE
Uruguai, Montevidéu, 30/07/1930. Imagem aérea do estádio Centenário durante partida entre Uruguai e Argentina na final da Copa do Mundo de futebol de 1930, em Montevidéu. Na final, o país-sede e favorito Uruguai bateu a Argentina por 4 a 2 em frente a uma torcida de 93.000 pessoas e se tornou a primeira nação a vencer uma Copa do Mundo. (Foto ARQUIVO/AE)

Em 1924, o futebol sul-americano estreou nos Jogos Olímpicos. Foi a primeiro grande enfrentamento entre os dois continentes que até hoje detém a hegemonia do futebol no planeta. O Velho Mundo foi apresentado a uma forma diferente de praticar o esporte. Formou-se o que foi provavelmente o primeiro esquadrão histórico, a primeira grande seleção do planeta. E mostrou, pelo menos nos últimos cem anos, os primeiros candidatos a melhores jogadores do mundo. A seleção do Uruguai foi ouro em 1924 e em 1928. Dois anos depois, a Fifa realizou a primeira Copa do Mundo, em 1930. A já envelhecida Celeste Olímpica dava sinais de declínio, mas foi campeã mesmo assim. Credenciou-se como equipe tal qual o mundo jamais havia visto.

É controverso apontar quem foi o craque daquela geração - portanto, primeiro “rei” do futebol. Naquele time há uma lenda. O médio direito José Leandro Andrade. Ele nasceu perto da fronteira com a Argentina e seria filho ou neto de um ex-escravizado que fugiu do Brasil. Ele participou da seleção campeã do Campeonato Sul-Americano de 1923. O presidente da Associação Uruguaia de Futebol, Atilio Narancio, havia prometido levar a seleção às Olimpíadas de 1924, em Paris, caso o time fosse campeão sul-americano. A conquista veio e o dirigente hipotecou a casa para pagar a viagem.

Um negro, de um metro e 80 de altura, era algo praticamente inédito em gramados europeus. Jogador de classe, ele iniciava a armação do time pelo lado direito. Andrade e seus companheiros foram campeões e desfrutaram da boemia parisiense dos anos 1920. A entrega aos prazeres cobrou seu preço: em 1925, Andrade foi diagnosticado com sífilis. Ainda assim, foi às Olimpíadas de 1928, em Amsterdã, e no título da Copa do Mundo, em 1930. A doença, porém, já fazia seus efeitos. Andrade já não era o mesmo, embora tenha sido eleito o terceiro melhor jogador da Copa. O que há quem aponte como injustiça - ou, antes, um tributo ao craque que decaía.

Veja imagens da Copa do Mundo de 1930

Historiadores apontam como o destaque maior daquela geração Héctor Scarone, meia atacante habilidoso e goleador, que foi contratado pelo Barcelona em 1926, quando foi apontado como melhor atacante do planeta. Nas Olimpíadas de 1928, ele fez o gol do título na disputadíssima final contra a Argentina. Mas, quem foi eleito craque da Copa do Mundo de 1930 não foi Andrade nem Scarone, mas o capitão da equipe, o zagueiro José Nassazzi. Numa época em que os times jogavam num megaofensivo esquema 2-3-5, Nassazzi se impunha na área e era temido pelos atacantes. Iniciou a linhagem dos lendários capitães uruguaios.

O título de 1930 foi o momento culminante da celeste olímpica e também marcou o início do declínio daquela geração. E começaria a surgir uma nova dinastia.

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A ascensão da Azurra

Se no elenco multicampeão uruguaio havia vários protagonistas, a Itália bicampeã mundial de 1934 e 1938 tinha um craque destacado. Giuseppe Meazza talvez tenha sido o primeiro ídolo absoluto de uma equipe que dominou o futebol mundial por um longo período. Provavelmente o primeiro incontestável “melhor do mundo”. Grande driblador e ótimo finalizador, foi o craque da Copa de 1934 e capitão da conquista em 1938. Era também dono de algumas características que marcariam os craques de gerações seguintes: adepto de noitadas, mulherengo, dormia em bordéis, era apreciador de vinhos e carrões. É também um precursor do estilo metrossexual de David Beckham e Cristiano Ronaldo. Não abria mão de jogar com cabelo bem arrumado.

Veja imagens da final da Copa do Mundo de 1934

Em meados dos anos 1930, o grande rival de Meazza pelo posto de melhor do mundo era o austríaco Matthias Sindelar. Tinha apelido de "Der Papierene" - "feito de papel", pelo futebol leve, rápido do jogador de pernas e braços finos. Bem diferente dos italianos. A Áustria comandada por ele foi a primeira grande seleção germânica, antes de a Alemanha se tornar relevante. Era apelidada de Wunderteam - time maravilha. Enfrentou os italianos na Itália na semifinal de 1934. Os austríacos, leves e técnicos, sofreram com o gramado pesado da chuva desde a véspera. A marcação foi implacável em Sindelar, que não estava na melhor condição física. Com gol polêmico, a Itália de Meazza venceu por 1 a 0, no que foi considerada a final antecipada.

Sindelar teve fim trágico. Em março de 1938, a Alemanha nazista anexou a Áustria - e o Wunderteam. O último jogo oficial do craque foi a partida entre Altreich da Alemanha e o time de Sindelar, o Austria Viena, rebatizado como Ostmark - nome alemão para a província que se tornou a Áustria anexada. Para desgosto do Terceiro Reich, os austríacos venceram, por 2 a 0. O primeiro gol foi de Sindelar. Ele não aceitou a convocação alemã para a Copa de 1938. Em janeiro de 1939, quando estaria sendo investigado por suspeitas de ser judeu ou social-democrata, foi encontrado morto ao lado de Camila Castagnola, com quem teria um relacionamento. Acredita-se que tenham cometido suicídio.

Sem Sindelar como adversário, Meazza comandou a Itália no bicampeonato em 1938. Foi o capitão, mas desta vez não foi o craque da Copa. Havia uma nova estrela em ascensão. O primeiro brasileiro a ser o melhor do mundo.

O diamante Leônidas

Na Copa de 1938, a seleção brasileira teve pela primeira vez um desempenho digno de nota em Mundial. Leônidas da Silva teve uma exibição como nunca havia sido vista. Foi apelidado Le Diamond Noir, o Diamante Negro. Virou marca de chocolate que existe até hoje. Marcou sete gols em quatro jogos. Nenhum brasileiro tem essa média em copas. Para ter noção do tamanho do feito: Ronaldo, em 2002, marcou oito gols em sete jogos. O maior goleador do País em copas é Ademir Menezes, que fez nove em seis jogos em 1950. Na conta total de jogos pela seleção, Leônidas tem incríveis 38 gols em 38 partidas.

Leônidas da Silva
Foto: FIFA/divulgação
Leônidas da Silva

Na França, ele teve a mais notável atuação de um jogador numa grande competição até então. Fez gol até descalço, ao ficar sem a chuteira. Quase marcou de bicicleta, na primeira vez que a jogada foi executada num Mundial, contra a Tchecoslováquia. Foi um assombro. Mas, contundido, ficou fora da semifinal. A adversária foi a então campeã Itália, de Meazza, que marcou de pênalti o segundo gol italiano no 2 a 1. Nunca se saberá como teria sido com o principal craque brasileiro em campo. Leônidas voltou para a decisão de terceiro lugar e marcou dois na vitória brasileira por 4 a 2. Pela primeira vez o futebol brasileiro era notado e pela primeira vez teve o melhor jogador do planeta.

Ainda no auge, Meazza viu o trono ser usurpado por um novo melhor do mundo. Jogou até 1947. Leônidas seria nome certo em mais duas copas do mundo, que acabaram não ocorrendo por causa da Segunda Guerra Mundial.

Confira as taças conquistadas por Leônidas pela seleção brasileira

Tempos de guerra

O cancelamento das Copas de 1942 e 1946 privou os Mundiais de gerações de grandes craques. A década de 1940 foi época de gênios que não tiveram a métrica de um campeonato intercontinental para medir qual o tamanho de cada um. Num tempo em que a Europa estava destruída pela guerra, a melhor seleção da América do Sul era a Argentina.

O River Plate tinha um superataque, formado por Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. O maior deles era o meia-direita José Manuel Moreno. Quem o viu jogar diz que foi maior que Maradona, Messi, Di Stéfano - todos futuros melhores do mundo. Há pouca controvérsia de que aquela foi a maior equipe que a Argentina já teve - até porque Maradona e Messi nunca tiveram propriamente grandes conjuntos ao seu lado.

Naquela época, Brasil e Argentina se enfrentavam no torneio amistoso chamado Copa Roca. Em 1939, os brasileiros chegavam com status de terceiro colocados na Copa do Mundo, mas a Argentina levou a taça e ainda impôs um arrasador 5 a 1 no Rio de Janeiro. Leônidas marcou seu gol quando o placar era de 5 a 0. Moreno fez 2.

Sem copas do mundo, aquela Argentina venceu o que estava à mão. Foi quatro vezes campeã sul-americana, em 1941, 1945, 1946 e 1947. O tricampeonato de 1945 a 1947 é feito até hoje único na história da atual Copa América. Moreno estava no primeiro e no último título. Entre 1944 e 1946, jogava no México e ficou fora da seleção. Pelo River Plate, foi cinco vezes campeão argentino. Numa época em que transferências internacionais eram mais complexas, ainda mais durante a guerra, foi campeão no México, no Chile e na Colômbia.

Aquela Argentina entrou em declínio com a greve de jogadores de 1948, que levou a debandada de craques do País, Moreno entre eles. Desavenças políticas fizeram com que os portenhos não disputassem a Copa de 1950. Os Mundiais ficaram sem o futebol dele.

Naqueles anos, o craque capaz de rivalizar com ele pelo posto de melhor do mundo era o italiano Valentino Mazzola. A trajetória do meia-atacante foi ainda mais prejudicada pela guerra que a de Moreno, pois o campeonato italiano foi interrompido a partir de 1943 até o fim do conflito. Mazzola comandou a Torino na conquista de cinco títulos seguidos - o último antes da paralisação e os quatro seguintes à guerra. Isso porque dois campeonatos deixaram de ser realizados.

Mazzola seria provavelmente uma das estrelas da Copa de 1950, mas foi vítima de uma das maiores tragédias da história do futebol: o avião que trazia a delegação de Lisboa se chocou contra a Basílica de Superga, em Turim. Os 31 ocupantes morreram, inclusive os 18 jogadores daquele supertime.

Outro páreo nessa disputa foi o letal atacante português Peyroteo. É até hoje o maior goleador da história do futebol de Portugal, à frente até de Eusébio. Chegou a marcar nove gols em um jogo. E a média é assombrosa: 529 gols em 327 jogos oficiais pelo Sporting. No campeonato nacional, foram 331 gols em 197 jogos. A média de 1,68 gols por jogo é a maior entre todos os jogadores dos grandes campeonatos nacionais do mundo. Pelo Sporting, ganhou cinco títulos portugueses, cinco Taças de Portugal e uma Supercopa de Portugal.

Outro destaque europeu da época foi provavelmente o craque mais longevo da história do futebol. O inglês Stanley Matthews jogou ao longo de 33 anos, de 1932 a 1965. Ponta direita veloz e exímio driblador, é bem votado como maior jogador britânico de todos os tempos. A ótima forma física o permitiu jogar até os 50 anos. Aos 41 anos, em 1956, foi o primeiro ganhador da Bola de Ouro, como melhor jogador da Europa. Naquele ano, em Wembley, enfrentou a seleção brasileira. Bateu de frente contra o maior lateral-esquerdo de todos os tempos, Nilton Santos, apelidado de “a enciclopédia do futebol”. Nílton contou que riu ao ver o veterano que enfrentaria. Em campo, comeu poeira e levou um baile como talvez nunca na carreira.

Assista aos melhores momentos de Inglaterra 4 x 2 Brasil, com o duelo entre Stanley Matthews e Nilton Santos

Sem grande brilho nem dele nem dos “inventores do futebol”, foi às Copas do Mundo de 1950 e 1954. Tinha 39 anos nesta última. Foi o primeiro jogador de futebol profissional a receber o título de cavaleiro do Império Britânico - sir Stanley Matthews.

Peyroteo parou em 1949. Leônidas jogou até 1950, ainda como jogador de grande importância, mas já havia algum tempo deixara de ser a maior estrela do futebol nacional. Moreno peregrinou por vários países e jogou até o começo dos anos 1960, com mais de 40 anos. O auge, porém, havia sido na década de 1940. Matthews jogou até 1965.

Quando a Copa do Mundo voltou a ser realizada, em 1950, já havia uma nova geração de protagonistas do futebol mundial.

A volta dos Mundiais

Thomas Soares da Silva, o Zizinho ou Mestre Ziza, disputa com Leônidas pelo posto de maior jogador brasileiro antes de Pelé. Era meia direita driblador, habilidoso, de passes surpreendentes, grande finalizador e capaz de controlar como poucos o ritmo do jogo. Corria o campo todo, distribuindo passes e dribles. Tinha como marca registrada o drible em zigue-zague, invadindo a área e chutando cruzado para o gol. Estilista da bola, sabia jogar duro e ia para o confronto com adversários quando necessário. No País de Didi e Gérson, Zizinho é apontado por quem o viu jogar como o maior armador da história do futebol brasileiro. O estilo era diferente. Menos dado a lançamentos longos e mais aos passes curtos. Driblava, limpava o lance e entregava a bola de bandeja ao atacante. No ranking dos craques nacionais, há quem só o coloque abaixo de Pelé e Garrincha.

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Zizinho também foi prejudicado pela Segunda Guerra Mundial. Estreou na seleção brasileira em 1942, quando ocorreria a primeira Copa cancelada pelo conflito bélico. Em 1946, seria o cérebro do time no segundo Mundial que não houve. Em 1945, Zizinho fez parte daquele que há quem considere o maior ataque da história da seleção brasileira - superior até àqueles que uniram Pelé e Garrincha. A linha ofensiva tinha Tesourinha, Zizinho, Heleno de Freitas, Jair Rosa Pinto e Ademir Menezes. Com esse ataque, o Brasil conquistou a Copa Roca de 1945, acabando com o complexo de inferioridade - justificado - em relação à Argentina. Ainda aplicou uma goleada por 6 a 2 foi vista como resposta ao 5 a 1 de 1939.

Em 1950, Zizinho estava no auge e chegou na condição de melhor jogador do planeta - posto que confirmou no torneio, embora o Brasil tenha perdido o título. Mas, começou contundido e ficou fora dos dois primeiros jogos. Estreou na Copa na terceira partida, contra a Iugoslávia. Fez um dos gols, foi o dono do jogo e assombrou o mundo.

"Não se trata apenas de um craque, dos muitos que andam espalhados pelo mundo. Este é um gênio, um homem que possui todas as qualidades que podem ser idealizadas para um profissional chegar mais próximo da perfeição", encantou-se o jornalista inglês Willy Meisl, ao escrever para o World Sports sobre o desempenho de Zizinho naquela partida. Após o último jogo antes da decisão, o italiano Giordano Fattori escreveu para a Gazzetta dello Sport: "O maestro da esquadra maravilhosa. O futebol de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando alguma coisa rara". Com exibições capazes de despertar tais interjeições, Zizinho foi escolhido craque da Copa. Era o segundo Mundial seguido em que um brasileiro saia como destaque maior, o último havia sido Leônidas em 1938. Em ambas, o Brasil saiu sem a taça. Até porque do outro lado estava outro craque maiúsculo.

Juan Alberto Schiaffino era o maior craque da seleção uruguaia. Mais que isso, costuma ser apontado como maior jogador uruguaio de todos os tempos. Foi ele o autor do gol de empate contra o Brasil na partida decisiva de 1950. Foi escolhido o segundo melhor jogador da Copa. Marcou época no Peñarol, no Milan e brilhou ainda na Roma. Chegou a jogar também pela seleção italiana.

Imagens da final da Copa de 1950

A derrota brasileira em 1950 estigmatizou uma geração. Embora ainda fosse um dos maiores craques do planeta, Zizinho não foi convocado para a Copa de 1954. Em 1957, aos 36 anos, comandou o São Paulo no título do disputadíssimo campeonato paulista, à época o mais importante do Brasil ao lado do carioca. Foi o último campeão antes da hegemonia do Santos de Pelé, que ganharia 9 dos 12 títulos seguintes. Foi o último grande momento de Zizinho, quando já havia outra geração de craques consolidada e uma ainda maior que começava a surgir.

Schiaffino ainda brilhou na Copa de 1954. Na semifinal do torneio da Suíça, os uruguaios sofreram sua primeira derrota na história das copas. Afinal, venceram de forma invicta em 1930 e 1950, e não participaram em 1934 e 1938. Perderam pela primeira vez para uma das maiores equipes da história do futebol.

Seleção magiar

A seleção húngara do começo dos anos 1950 era o maior time de futebol formado até então. Entre 1950 e 1954, foram 27 vitórias e quatro empates. A lenda conta que a equipe chegou invicta ao Mundial, mas houve uma derrota, por 4 a 2, para a Suíça. Em 1952, levou a medalha de ouro olímpica. A estrela do time era Ferenc Puskás. Atacante habilidoso, criativo, inteligente e de chute fortíssimo. Pela seleção húngara, fez 84 gols em 85 jogos.

Era uma equipe revolucionária taticamente, a primeira a usar o 4-2-4 em copas. E também fisicamente. Os brasileiros se surpreenderam ao ver os húngaros em campo já suados, como se tivessem disputado um jogo antes. Eles faziam aquecimento e decidiam os jogos logo no início. Em quatro dos cinco jogos na Copa, marcou dois gols nos primeiros 20 minutos. A exceção foi contra o Uruguai, quando fizeram o primeiro aos 12 do primeiro tempo e o segundo, aos 2 minutos do segundo tempo. Matavam os adversários antes de perceberem que o jogo havia começado. Aquela foi a maior seleção a não ter vencido uma Copa. Detém até hoje a marca de melhor ataque da história do torneio, com 27 gols em cinco jogos. O Brasil de 1970, por exemplo, marcou 19 gols em seis jogos.

Na goleada de 8 a 3 contra uma Alemanha Ocidental reserva, Puskas sofreu entrada por trás, torceu o tornozelo. Ficou fora das duas partidas seguintes, contra Brasil e Uruguai. Retornou para a final contra os próprios alemães, ainda sem as melhores condições. Ele abriu o placar aos seis minutos. Czibor ampliou dois minutos depois. Mas, a Alemanha Ocidental diminuiu aos 10 e empatou aos 18. Aos 39 do segundo tempo, veio a surpreendente virada. Puskas ainda marcou novamente, mas foi marcado impedimento. Foi a maior zebra da história das copas, conhecida na Alemanha como “milagre de Berna”.

Mesmo com a derrota e os jogos dos quais ficou fora, Puskas foi escolhido craque da Copa. O maior craque do maior time visto até então. Até 1954, provavelmente era o maior jogador da história. Seu clube, o Honved, era então considerado o melhor do planeta. Marcou 357 gols em 354 jogos pela equipe. Dois anos depois, o time iria se desfazer, aquela seleção húngara deixaria de existir e o futebol do País entraria em decadência. A Hungria estava sob regime comunista. Protestos tomaram o País e o governo foi deposto. Mas, a reação da União Soviética foi implacável e houve endurecimento das restrições.

O Honved disputava partida fora do País e os jogadores, inclusive Puskas, decidiram não retornar. Ele ficou proibido de jogar futebol até 1958, quando se transferiu para o Real Madrid. Integrou um dos maiores esquadrões da história. Conquistou três títulos da então Copa dos Campeões da Europa, atual Liga dos Campeões. Também conquistou o primeiro Mundial Interclubes, além de cinco campeonatos espanhóis e uma Copa do Rei. Em 1962, voltou a disputar uma Copa do Mundo, dessa vez pela Espanha. Fez gol de bicicleta contra o Brasil, mas foi anulado por jogo perigoso.

Puskas hoje dá nome ao prêmio da Fifa pelo gol mais bonito do ano. Ele briga pelo posto de maior jogador europeu de todos os tempos com Johan Cruijff, Zinedine Zidane e Cristiano Ronaldo. No Leste, ninguém se compara ao gênio húngaro. Mas, naquele supertime do Real Madrid, havia uma estrela maior que ele.

Veja imagens de Puskas em ação

A coroa europeia

Em 1955, outra competição além da Copa do Mundo passou a oferecer referência internacional para se avaliar os melhores jogadores do planeta - embora restrita a um continente. Foi disputada a primeira edição da Copa dos Campeões da Europa, atual Champions League. Com o futebol internacionalizado, atualmente a competição é o principal parâmetro para decidir os melhores do mundo. Acima inclusive da Copa do Mundo, na qual Messi e Cristiano Ronaldo nunca brilharam com a mesma intensidade. Naqueles primeiros anos, a Copa dos Campeões teve domínio absoluto do Real Madrid de Alfredo Di Stéfano.

O craque argentino foi parte do grande River Plate de Moreno e também deixou o País após a greve de 1948. Foi para a Colômbia, onde fez história, e chegou a jogar pela seleção do país. Em 1953 chegou ao Real Madrid, após complicada negociação na qual o Barcelona também o queria. O caso foi parar na Fifa, com intervenção do governo espanhol, e foi sugerida uma solução salomônica. Di Stéfano jogaria um ano no Madrid, outro no Barcelona, mais um no Madrid e outro no Barça. Os catalães não toparam o arranjo. Em Madri, Di Stéfano mudou a história do futebol europeu.

Quando ele estreou, o Real Madrid não era campeão espanhol, desde 1933. Incríveis 20 anos de jejum. Naquele ano, ganhou a primeira das oito conquistas nacionais com Di Stéfano. De 1955 a 1960, a equipe seria campeã das cinco primeiras edições da Copa dos Campeões. O recém-criado troféu não tinha, obviamente, o peso que tem hoje. Os campeonatos nacionais eram mais valorizados. Ainda assim, o feito é histórico.

Rápido, técnico, goleador, era a estrela maior do primeiro clube a montar um elenco internacional “galáctico”, como se diria décadas depois. Além dele e de Puskas, seria contratado o brasileiro Didi, craque da Copa de 1958, que não se encaixou no time - alegadamente, segundo ele, por problemas com Di Stéfano. O meia francês Raymond Kopa era outro astro.

Se foi sucesso absoluto na Europa, Di Stéfano nunca jogou uma partida de Copa do Mundo. Foi convocado pela Espanha para 1962, mas estava machucado e não entrou em campo. Com Puskas e Di Stéfano, os espanhóis foram derrotados pelo Brasil de Didi.

O futebol se aproximava de seus anos de auge. Diferentemente do atual predomínio prolongado de Messi e Cristiano Ronaldo, com escassos e eventuais concorrentes, aquele era um período de produção frenética de craques de primeira grandeza. Moreno, Zizinho, Schiaffino, Stanley Matthews, Puskas, Di Stéfano coexistiram. Vários deles disputaram jogos entre si. Alternaram-se no topo. Uns surgiam enquanto outros chegavam ao auge e alguns mais se aposentavam. A sucessão dinástica era frenética. Um ano em baixa - ou parado, caso de Puskas - significava ser suplantado.

Nesse disputado contexto, Di Stéfano foi o melhor jogador do planeta na segunda metade dos anos 1950. Foi ele quem passou a coroa a um novo e definitivo rei.

Veja lances de Di Stéfano

O rei

Edson Arantes do Nascimento assombrou o planeta aos 17 anos. Em 1958, foi campeão do mundo, fez seis gols nos quatro jogos que disputou. Cinco deles na semifinal e final da Copa. No mesmo ano, foi campeão paulista pelo Santos, um título então de elevado grau de dificuldade. Marcou 58 gols em 38 jogos.

Pelé foi o segundo melhor jogador da Copa de 1958. O craque foi o maestro do meio-campo, Didi. Quem revê os jogos percebe que não foi injusto. Didi era o dono do time. Há ainda Garrincha, que chamava o jogo e desestabilizava as defesas pela ponta-direita. Em duas jogadas quase idênticas, deixou o centroavante Vavá na cara do gol para virar o jogo, depois de o Brasil sair atrás na Final. Entre os dois gols, ainda mandou uma bola na trave. Há quem defenda que Garrincha foi ainda mais decisivo que Pelé - se é que alguém pode ser mais decisivo que o jogador que fez cinco gols em dois jogos de semifinal e final.

Em 1962, Pelé já chegou absoluto como melhor do mundo. Fez um golaço de força e técnica na estreia contra o México, mas se machucou no segundo jogo e deixou para Garrincha o protagonismo e o posto de melhor do mundo naquela Copa e naquele ano. Em 1966, Pelé novamente ficou de fora após o primeiro jogo, por contusão. Em 1970, voltou no auge da maturidade para reafirmar a realeza definitiva. Porém, há quem defenda que o melhor Pelé não foi o da seleção, mas o do Santos. Os números justificam. Um gênio que está apenas parcialmente nos videotapes.

Pelé marcou 1.284 gols na carreira, mas essa tão conhecida informação não é tão impressionante quanto esta: ele chegou ao gol 500 aos 21 anos, em 1962. Pelé foi o melhor jogador do mundo em 1958, em 1970 e em quase todos os anos nesse intervalo. Não há outro atleta, em qualquer esporte, que tenha tido auge tão absoluto e duradouro. Porém, aqueles primeiros anos de Pelé foram particularmente assombrosos.

Não são apenas números. Carlos Drummond de Andrade define bem: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé.” A questão fundamental que apresenta o poeta é que a grandeza do rei do futebol não está nos números, não se resume a eles.

Como dimensionar o tamanho do craque que interrompeu uma guerra? Que, ao ser expulso, causou tal revolta da torcida que o juiz foi quem foi substituído, e ele voltou a campo? Como qualificar o craque cujos gols perdidos ficaram na história?

Pelé não apenas executou praticamente todos os fundamentos à perfeição - até como goleiro - como criou jogadas que não existiam. Redefiniu padrões físicos e técnicos. Para o público de hoje, talvez a melhor forma de definir o que foi Pelé seja imaginar um jogador que unisse a técnica e a habilidade de Messi com a força física de Cristiano Ronaldo.

Na Copa de 1970, viveu a plenitude no comando de um time de gênios. E numa Copa repleta de outros supertimes e supercraques. Provavelmente nunca houve um torneio de futebol como aquele. Pelé foi a estrela mais reluzente.

Disputou quatro Copas do Mundo, venceu três, foi protagonista em duas. Nas outras duas, contusões o afastaram dos gramados. Ganhou ainda duas Libertadores da América, dois Mundiais de Clubes, cinco Taças Brasil - o campeonato nacional da época -, 1 Recopa Sul-Americana, 1 Recopa Mundial, 1 Torneio Roberto Gomes Pedrosa (precursor do atual campeonato brasileiro), 10 campeonatos paulistas, 1 Liga dos Estados Unidos, 2 Copas Roca, quatro torneios Rio-São Paulo, entre outros muitos torneios.

É comum que comparações atuais tenham dificuldade de dimensionar a relevância de alguns títulos de Pelé. Sobretudo, de traçar o paralelo em relação à Europa. É difícil hoje entender que os esvaziados campeonatos estaduais já foram mais valorizados que títulos nacionais. O campeonato brasileiro nem existia quando Pelé começou a jogar e o modelo de disputa passou por muitas mudanças desde então. Que a Libertadores da América chegava a ser menosprezada. Torneios amistosos, excursões, tinham grande relevância, de intercâmbio técnico e tático e também por motivos financeiros. Não bastava ganhar, era preciso dar espetáculo, e isso definiu o padrão de futebol brasileiro daqueles tempos.

Até 1994, o prêmio Bola de Ouro, concedido pela revista France Football desde 1956, premiava exclusivamente europeus. Em 2015, a revista refez sua lista de quem seria o vencedor se fossem incluídos jogadores de todo o mundo. Pelé levou sete prêmios, recorde até hoje, pelos anos de 1958, 1959, 1960, 1961, 1963, 1964 e 1970. Vale considerar que, em retrospectiva, essa premiação 50 anos depois perde a noção da época. Ficam marcados apenas feitos que atravessaram as décadas. No calor do momento, as percepções seriam diferentes. Não é improvável que Pelé tivesse ainda mais prêmios.

Veja lances de Pelé

Diferentes gerações de craques rivalizaram com ele, naqueles que foram os anos de auge do futebol mundial. Nos primeiros passos na carreira, teve como concorrentes Puskas e Di Stéfano. No auge, Garrincha, Eusébio e Bobby Charlton. Já maduro, George Best e Rivelino, além da geração que disputaria a sua sucessão: Johan Cruyff e Franz Beckenbauer.

Revolução

Pelé se despediu algumas vezes. Da seleção em 1971, aos 30 anos - a idade que Neymar terá na próxima Copa. Do Santos, aos 34. Voltou a jogar nos Estados Unidos e parou definitivamente em 1977. Deixou a seleção no topo do mundo, como tricampeão, condição jamais alcançada por nenhum outro atleta. Deixou o Santos antes de entrar em declínio. No último ano de Pelé no Santos, a Copa do Mundo de 1974 colocou em confronto os dois jogadores que o sucederiam como melhores do mundo.

Beckenbauer já era uma estrela mundial havia quase uma década. Na Copa de 1966, na qual Pelé novamente se machucou e o Brasil foi um fiasco, surgiram vários pretendentes ao trono, como o moçambicano Eusébio, jogando por Portugal, e o inglês Bobby Charlton. O alemão foi a revelação. Aos 20 anos, fez quatro gols em seis jogos. Dois na estreia, um nas quartas-de-final contra o Uruguai e mais um na semifinal contra a União Soviética. O dado é particularmente relevante porque Beckenbauer se notabilizaria como líbero - jogador de defesa. Mas, naquele Mundial em novamente em 1970 ele jogava no meio de campo.

Técnico, elegante, com extraordinário senso de cobertura, o “Kaiser”, como foi apelidado, brilhou no meio e, como líbero, levou a função a um patamar nunca antes alcançado. Comandava a zaga, ficava na sobra e reiniciava as ações ofensivas. É considerado o maior jogador de defesa de todos os tempos. Entende, então, o que significaram aqueles quatro gols em Copa do Mundo?

Na segunda metade dos anos 1960, Johan Cruyff brilhava em campos holandeses e chamou atenção internacionalmente quando levou o Ajax à final da Copa dos Campeões em 1969. No caminho, eliminou o Benfica de Eusébio, numa espécie de transição no trono de craque maior do Velho Mundo. Era emblemático, pois o Benfica foi o clube europeu mais vitorioso na década, com o maior jogador da Europa na década. Na decisão, os holandeses perderam para o Milan de outro dos grandes do futebol europeu de então, Gianni Rivera. Cruyff levou o Ajax de volta à final da Champions em 1971, 1972 e 1973. Foi campeão das três. Então, foi para o Barcelona na mais cara transferência do futebol mundial até então. Até o aparecimento de Messi, era o maior craque da história do clube catalão.

Cruyff chegou à Copa de 1974 como melhor jogador do mundo - Pelé se aposentaria dali a quatro meses, mas voltaria a jogar no ano seguinte, nos Estados Unidos, já longe do auge. O holandês fez jus à fama. Rápido, tecnicamente perfeito, ótimo finalizador, habilidoso - criou um dos dribles mais impressionantes e desmoralizantes do futebol, aplicado de costas, celebrizado como “Cruyff turn”, o “giro de Cruyff”. Taticamente, foi o maior da história. Corria o campo todo, jogava em várias posições. Combatia, armava, finalizava.

Cruyff era o alicerce de um time revolucionário. O “futebol total”. Tão inovador que a forma de jogo jamais foi reproduzida, embora tenha introduzido elementos que influenciam o esporte até hoje. A Holanda assombrou o mundo, que nunca tinha visto tantos deslocamentos, marcação pressão, linha de impedimento. A forma como muitos jogadores avançavam em direção à bola por vezes dava impressão de uma grande pelada. E assim atropelaram os gigantes sul-americanos. Uruguai, Argentina e Brasil foram batidos um a um. Na final, enfrentaram os donos da casa, a Alemanha Ocidental de Franz Beckenbauer.

Os holandeses jogavam melhor futebol, mas a Alemanha era um timaço. Tinha até mais craques. Além de Beckenbauer, havia Paul Breitner, Gerd Müller, Sepp Maier, Overath, Berti Vogts. Era um time calejado, que começou a ser arquitetado na Copa de 1966. Técnicos, combativos, mentalmente fortes. E tinham um líder. Na maior zebra desde 1954, os alemães, 20 anos após bater a Hungria de Puskas, venceram a Laranja Mecânica.

Veja lances da final da Copa de 1974

Cruyff foi o craque da Copa. Beckenbauer ficou em segundo. De 1974 a 1976, o Bayern de Munique, do craque alemão, igualou o feito do Ajax e foi tricampeão da Copa dos Campeões. O holandês era mais decisivo, mais habilidoso. Jogava no ataque. Mas, o alemão muitas vezes chegava a superá-lo com disciplina e dedicação somadas à técnica refinada. Nisso, apesar das posições diferentes, há alguma semelhança com Messi e Cristiano Ronaldo.

Os dois ainda se tornariam grandes técnicos. Cruyff foi multicampeão no Ajax e no Barcelona - levou o clube catalão à primeira conquista de Champions League e criou escola que influencia até Pepe Guardiola. Beckenbauer foi a duas finais de Copa do Mundo com a Alemanha e levantou a taça em 1990.

No fim da década de 1970, com o declínio dos dois gênios e ainda de outros monstros da geração anterior, como Rivelino, houve um raro vácuo no topo do futebol mundial. Na Copa de 1978, o destaque foi o argentino Mário Kempes. Na Europa, despontavam o inglês Kevin Keegan e o alemão Karl-Heinz Rummenigge. Ambos donos de técnica apurada, embora oriundos de duas escolas de futebol marcadas pela velocidade e força - sobretudo na Inglaterra, onde estava no auge o “kick and rush” - o chutão pra frente para o atacante correr em disparada e disputar a bola. Nenhum deles, porém, teve o tamanho para ocupar o espaço deixado por Cruyff, Beckenbauer, Pelé, Eusébio, Garrincha e por aí vai.

Naquela virada de década, aproximava-se da maturidade a talentosa geração que teria a hegemonia no começo da década de 1980, enquanto dava os primeiros passos aquele que seria o candidato que mais se aproximou do trono de Pelé no século XX.

Gênios da camisa 10

Pelé eternizou a camisa 10. Depois dele, Cruyff brilhou com a 14, Beckenbauer com a 5, Keegan com a 7 e Rummenigge com a 7 e a 11. No começo dos anos 1980, os maiores jogadores do planeta novamente, e pela primeira vez desde Pelé, portavam o número 10 às costas.

Zico e Michel Platini eram pontas-de-lança clássicos. Armavam e chegavam na frente para finalizar. Faziam lançamentos precisos e marcavam gols com igual desenvoltura. Técnicos, dribladores, craques completos, a alma de seus times.

No começo dos anos 1980, Zico marcou incríveis quatro gols na Final da Libertadores da América e levou o Flamengo ao primeiro título mundial de um clube brasileiro desde Pelé. Na decisão em Tóquio, deu o passe para os três gols - dois deles absolutamente brilhantes. O Flamengo venceu de forma implacável o Liverpool supercampeão europeu, onde Kenny Dalglish havia substituído brilhantemente Kevin Keegan.

Na Copa de 1982, Zico marcou quatro gols e foi o artilheiro do supertime que tinha ainda craques como Falcão, Sócrates, Júnior, Cerezo e Leandro. Mas, foram eliminados pela Itália de Paolo Rossi, grande atacante italiano que vinha de prolongada suspensão por suspeita de envolvimento em escândalo de manipulação de resultados. Foi campeão e craque daquele Mundial. O segundo melhor jogador escolhido pela imprensa foi o brasileiro Paulo Roberto Falcão, estilista do meio campo que brilhava na Itália. Em terceiro lugar ficou Rummenigge.

Platini foi outro destaque e levou a França até a semifinal. Era a estrela do futebol francês e já era cobiçado no exterior. Após o Mundial, transferiu-se para a Juventus, na Itália, e foi finalista da Champions League. Em 1984, foi campeão da Eurocopa com a seleção. Em 1985, levantou a Champions.

Em 1983, Zico foi para a pequena Udinese, da Itália, e terminou um gol atrás de Platini na artilharia, mas com menos jogos e a melhor média da competição. Em 1984, após tumultuada passagem pelo Barcelona, Maradona chegou ao Nápoli para superar os dois como melhor camisa 10 da Itália e do planeta.

Desde o fim dos anos 1970, o argentino despontava como o talento ascendente do futebol mundial. Já era cogitado na Copa de 1978. Em 1982, decepcionou. No Barcelona, enfrentou problemas de saúde, contusões, polêmicas, mas, décadas antes de Ronaldinho Gaúcho e Messi, foi aplaudido no Santiago Bernabéu na conquista da Copa do Rei de 1983 contra o Real Madrid.

No Nápoli, viveria o maior momento de um jogador desde que Pelé conquistara a Copa de 1970. Na Copa de 1986, levou a Argentina ao título marcando o gol que muitos apontam como o mais bonito da história dos mundiais. Teve aquele que talvez tenha sido o maior desempenho individual já visto numa Copa - rivaliza com Garrincha em 1962. Também conseguiu levar o então inexpressivo Nápoli a brigar, e vencer, os gigantes italianos, nos anos áureos da liga. Na Copa de 1990, carregou nas costas uma Argentina cambaleante até nova final, perdida para a Alemanha em pênalti mal marcado.

Maradona era menos completo que outros gênios da posição, mas tinha habilidade sem igual. Às vezes preferia os passes precisos aos muitos gols que também marcou. Tecnicamente brilhante, também tinha enorme capacidade de liderança.

Em mais uma semelhança com Garrincha, só não foi maior ainda em função da vida extracampo. Teve problemas com drogas e, no auge da forma, foi flagrado no antidoping e passou mais de um ano suspenso. Voltou fora de forma, enfrentando lesões, com atuações apenas razoáveis e cada vez mais polêmicas dentro e fora de campo. Recuperou a forma e teve boas exibições na Copa de 1994. Mas, por trás do emagrecimento estava a substância efedrina. Voltou a ser flagrado no antidoping e novamente suspenso.

Veja lances de Maradona

Enquanto estava no auge, Maradona teve como maior rival na Itália e no topo do futebol mundial o centroavante holandês Marco van Basten, que levou o Milan ao bicampeonato europeu e comandou a Holanda no maior título de sua história, a Eurocopa de 1988. Van Basten sofreu muito com as contusões e teve a carreira encurtada.

Com Maradona derrotado pelas drogas e Van Basten pelos tornozelos, uma nova geração passou a disputar a hegemonia no começo dos anos 1990.

Os melhores da Fifa

Em 1991, passou a haver uma eleição oficial da Fifa do melhor jogador da temporada - o que não necessariamente significa ser o melhor do mundo. A votação é feita entre técnicos e capitães de seleções. O primeiro vencedor foi o alemão Lothar Matthäus, após levantar a Copa de 1990. Van Basten venceu em 1992, pouco antes de parar. Em segundo lugar ficou o búlgaro Hristo Stoichkov, comandante do supertime do Barcelona do técnico Cruyff. A partir dali até a Copa de 1994, ele brigaria pelo status de principal craque do planeta com o italiano Roberto Baggio e o brasileiro Romário. Os dois últimos se enfrentaram na final da Copa de 1994. Baggio perdeu o pênalti decisivo e Romário foi o craque que deu ao Brasil o primeiro título mundial desde Pelé.

 

Veja gols de Romário pelo Barcelona

Na segunda metade da década, o trio já veterano viu a ascensão de dois craques de estilos antagônicos, que passaram a disputar o posto de melhor do mundo. Ronaldo era goleador de muita velocidade aliada a habilidade. Zinedine Zidane com extrema técnica para ditar o ritmo de jogo e distribuir passes no meio de campo.

Ambos se enfrentaram na final da Copa de 1998, quando Ronaldo teve atuação apática após sofrer convulsão. Zidane marcou dois dos três gols franceses. Ronaldo sofreu com graves contusões nos anos seguintes, mas voltou para se tornar goleador e craque da Copa de 2002, no pentacampeonato brasileiro. Ao lado dele estava no ataque brasileiro o maior rival de Ronaldo e Zidane pelo posto de melhor do planeta na virada de século: o brasileiro Rivaldo.

Ao longo dos anos 1990, nenhum jogador a receber o prêmio de melhor do mundo foi campeão da Champions League no mesmo ano. O primeiro foi Zidane, em 2000. No início deste século, a principal competição europeia passaria a ser o parâmetro com peso cada vez maior de definição do craque da temporada.

Zidane, Ronaldo e Rivaldo eram veteranos na Copa de 2002, e viram a ascensão do jovem brasileiro Ronaldinho Gaúcho. Dono de habilidade exuberante, o maior driblador deste século tinha uma capacidade sem igual de surpreender. Maravilhou o mundo e abriu caminho para a era de ouro no Barcelona. Curiosamente, a Copa de 2006, que se esperava fosse sua apoteose, marcou o início de um declínio precoce. Com altos e baixos, ainda jogou por quase uma década, mas sem jamais brilhar como nas temporadas de 2003 a 2006.

Todos os gols de Ronaldinho Gaúcho pelo Barcelona

A partir dali, despontaram Messi e Cristiano Ronaldo. O futebol atravessa o mais longo período período na história de dois jogadores polarizando os postos de melhores do planeta. Messi tem 33 anos. CR7, 35 anos. Nenhum dos craques que os antecedeu pelo menos nos últimos 60 anos - no mínimo, desde Stanley Matthews e Di Stéfano - foi o melhor do planeta tão velho. Reflexo, também, da revolução na preparação física.

Mas, o auge de ambos já fica compreensivelmente para trás à medida que a aposentadoria inevitavelmente se aproxima. Não se vislumbra no horizonte ainda quem, para além de uma ou outra temporada esporádica, irá substituí-los no topo do futebol mundial. Nem o que acontecerá antes: o declínio dos atuais soberanos ou o surgimento do novo supercraque planetário.

 

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