Reportagem Seriada

Francisco de Assis, o homem que guarda o rio

O jornalista Demitri Túlio e os repórteres fotográficos Fco Fontenele e Júlio Caesar, juntos com a bióloga Cecília Licarião, passaram seis horas da manhã de uma segunda-feira acompanhando um senhor, com nome de santo ambientalista, que passa seus dias a zelar pelo rio Cocó. Em imagens e textos, impressões de um guardião
Episódio 5

Francisco de Assis, o homem que guarda o rio

O jornalista Demitri Túlio e os repórteres fotográficos Fco Fontenele e Júlio Caesar, juntos com a bióloga Cecília Licarião, passaram seis horas da manhã de uma segunda-feira acompanhando um senhor, com nome de santo ambientalista, que passa seus dias a zelar pelo rio Cocó. Em imagens e textos, impressões de um guardião Episódio 5
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A história a seguir é de um personagem que tem Francisco de Assis no nome de batismo e vive há 28 anos cuidando de um rio e se misturando às águas dele. A entrevista-reportagem, em formato de narrativa texto-visual, do tenente Araújo seria titulada, a princípio, de 'O guardião do rio'. Depois, num lapso intertextual, na hora da escrita e edição do enredo jornalístico, ficou a dúvida se não era melhor optar pelo 'O homem e o rio...'

Quando o rio, que nasce na serra da Aratanha, em Pacatuba, a 35,65 km de Fortaleza, é atalhado pelas águas salgadas do oceano Atlântico na capital cearense, um ecossistema revive.

É o manguezal do Cocó que explode em possibilidades (e também em morte) para garantir a sucessão de espécies sobreviventes à urbanidade. Do lado do rio, um homem espreita a maré, prova o sal da água e o desafoga, como pode, do lixo que a Cidade despeja a cada dia por lá.


Demitri – Quando você chegou aqui, Araújo, ao rio Cocó?

Araújo – Agosto de 1991...












A entrevista para a pedido do fotógrafo Fco Fontenele, que está ajustando a luz ambiente e o som. E recomeça assim, na beira do rio Cocó, onde Francisco de Assis Araújo Garcia, o tenente Araújo, está sentado na ponta do barco, no Parque em Fortaleza que leva o mesmo nome. Estamos eu, os repórteres-fotográficos Fco Fontenele, Julio Caesar e a bióloga Cecília Licarião.

 

Demitri – Você pode repetir, Araújo?

Araújo – Meu nome é Francisco de Assis Araújo Garcia. Cheguei aqui, no rio Cocó, em 1991, estava com 28 anos de idade. Hoje, tenho 56. Esses últimos 28 anos da minha vida foi aqui, convivência diária com o rio.

Comecei no (antigo) Pelotão Ecológico da Polícia Militar onde a gente comandava patrulha que tinha um ponto base ali, na Aerolândia (vizinho ao Lagamar, bairro até onde o oceano Atlântico entra na Cidade pelo lado leste de Fortaleza. Quando a maré enche da foz ao mangue).

Hoje, tenho um acordo com a Secretaria do Meio Ambiente do Ceará. Eu e um funcionário, que no momento não está trabalhando comigo por causa da quarentena – ele tem mais de 60 anos e estou sozinho... e a gente vai mantendo o rio navegável na medida do possível (entre a ponte da avenida Engenheiro Santana Júnior e até a foz na praia do Caça e Pesca).

Demitri - O que você tira do rio?

Araújo - Tudo que o ser humano utiliza. Já encontrei aqui sofá, colchão, carcaça de fogão, carcaça de geladeira... vocês podem ver lá na ponte tem uma carcaça de geladeira. Bicicleta, já encontrei uma bicicleta inteira, entre outras coisas. Tudo que o ser humano utiliza, eu já encontrei no rio Cocó.












Araújo retira até 15 sacos de lixo, por semana, do rio. No trecho entre a ponte da Engenheiro Santana Júnior até próximo à praia do Caça e Pesca. O material, recolhido no barco da Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema) -, é colocado embaixo da ponte da avenida Sebastião de Abreu, próximo ao píer. Os resíduos sólidos são doados para uma cooperativa de catadores

 

Demitri - Tudo que não presta, jogam no rio?

Araújo - Às vezes, ele nem joga no rio. Mas ele põe numa ruazinha bem distante daqui, quando o inverno chega, carreia todo esse material para o leito do rio.












O rio nasce na serra da Aratanha, no município de Pacatuba distante 35,65 km de Fortaleza. Ele recebe o lixo descartado erradamente das populações de Pacatuba, Maracanaú, Itaitinga e Fortaleza. E tem em seu caminho monturos ou lixões, a exemplo do antigo aterro do Jangurussu. E estações de tratamento d’agua da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e das indústrias, além de ligações clandestinas de esgoto.

 

Demitri - Qual a época que tem mais lixo no rio?

Araújo - É a época de inverno, porque desce muito das ruas. Às vezes as pessoas não põem o lixo no dia certo, esse lixo fica na rua, chove e carreia tudo para o leito do rio. Agora mesmo, não sei se ainda vai ter chuva grande. Daqui uns dias, quando meu auxiliar retornar, a gente vai encontrar muito lixo, porque tem muito lixo preso nos galhos das árvores (rente às águas).












A entrevista aconteceu no dia 26 de maio, no último mês da quadra chuvosa em Fortaleza que começa em janeiro. Já estamos em junho e as chuvas continuam. O lixo, com temporada de chuvas e as inundações no mangue, é arrastado e também se acumula no interior do Parque.

 

Demitri - Como foi a história das duas santas jogas feito lixo no rio?

Araújo - Sim, aquelas duas santas (imagens de Nossa Senhora das Graças de quase 50 cm de altura, feitas de gesso), num sábado, não lembro qual o mês... eu chego de manhã e vou fazer a manutenção do meu barco de passeio.

E o meu saudoso auxiliar, o Edmilson, que infelizmente faleceu, a gente estava conversando... quando ouvimos um barulho. Identificamos que era uma santa. ‘Edmilson, o que foi isso aí?’. Ele olhou pra cima e o rapaz já estava com outra santa para jogar. ‘Rapaz, não jogue, não, no rio, rapaz’.

Ele disse é só uma ‘santinha’. E como a gente estava próximo, deu pra tirar logo uma que ainda tava boiando. E a outra, quando a maré secou, retiramos e colocamos debaixo da ponte. Depois, fiz doação pra pessoas que quiseram levar e restaurar.












Enquanto Araújo descrevia a cena do rebolo das santas, um peixe grande, provavelmente, uma pema, ou filhote de camurupim, saltou fazendo um barulho no espelho d´água. O vídeo captou o som.

 

Demitri - Foram pra onde?

Araújo - Uma foi para Bahia e a outra está aqui, em Fortaleza. Essa da Bahia, eu sempre vejo no Instagram. Tem a fotozinha que a mulher pôs lá, uma imagenzinha da santa.

Demitri - Até imagem de santo é jogada no rio?

Araújo - Tudo que você possa imaginar. Eu não sei se a intenção foi jogar como lixo. Sei que ela estando aqui dentro, vai se transformar em quê? É lixo, né, infelizmente. A gente retirou e deu um destino correto.












Em 2017 e 2018, foi retirada uma média de 600 kg de lixo do rio Cocó, em cada ano. Ano passado, segundo o geógrafo Leonardo Borralho, foram 400 kg. Borralho é articulador da Célula de Gestão das Unidades de Conservação da Secretaria do Meio Ambiente do Ceará.

 

Demitri - A maior parte da sua vida é dentro do rio.

Araújo - Sim, passo a maior parte do meu tempo aqui.

Demitri - Que hora você chega aqui e que hora você sai?

Araújo - Eu chego 7 horas, saio 5, seis horas. Nesses dias, agora, estou ficando sempre o dia todo porque estou fazendo manutenção dos barcos. Estou sozinho, mas quando meu companheiro vem, a gente sai um pouco mais cedo.












A entrevista aconteceu numa terça-feira, Araújo vestia uma calça surrada de “rio”, sapado de borracha, chapéu, óculos, máscara, luvas pretas, uma camisa verde e outra por baixo longa nos braços para se proteger do sol. A equipe do O POVO também estava de máscara como recomendam protocolos de prevenção à pandemia da Covid-19.

 

Demitri - Por que essa devoção ao rio, Araújo?

Araújo - Assim, eu fui pra reserva da Polícia Militar, ficando aqui eu me torno útil para o rio. Se eu estou aqui, estou vendo o que está acontecendo. Faço um serviço voluntariamente porque gosto de fazer. Estou aqui não por necessidade, estou por opção. Estou aqui porque gosto e, simplesmente, me sinto bem em estar aqui.

Demitri - Uma vez você me disse que o melhor canto, onde você se sentia bem, era aqui.

Araújo - Sim.

Demitri - Por que, Araújo? Você é casado, tem filhos?

Araújo - Eu tenho família, esposa, uma filha que está fazendo faculdade. Às vezes trago, elas vêm pra cá também. Principalmente quando estou fazendo passeio, elas vêm e ficam comigo toda a manhã. Gostam também, muito, daqui.

A gente pega o barco e vai até o Caça e Pesca (a foz do rio, onde o Parque do Cocó faz mosaico com o Parque Natural das Dunas da Sabiaguaba). E ela sabe que estou num local onde gosto, então me apoia. Tá tudo certo. A residência, a casa da gente, é o melhor lugar do mundo.

Quando saio daqui e chego lá, lá é o melhor lugar do mundo. Mas quando amanhece o dia, aqui também, não vou dizer que é melhor do que lá, mas vamos dizer que seja igual.












Antes de começar a entrevista, o repórter-fotográfico Júlio Caesar, ao descer do barco, pisou em um tronco caído de mangue-preto. Liso, por causa do lodo do mangue, o fotógrafo patinou e saiu derrapando na lama do mangue. Por pouco não foi à lama por completo. Salvou as duas câmeras.

 

Demitri - Você sente falta do rio?

Araújo - Nesses 28 anos, eu passei uns dias fora, passei uma semana longe daqui. Tive que viajar. Só. O restante, estou aqui sempre. Está sempre ao meu alcance. Quando viajo, deixo sempre uma pessoa aqui e entro em contato pra saber como está o rio, como estão os barcos. Espero fazer isso por mais alguns anos.

Demitri - Quais são os dias dos passeios de barco?

Araújo - Sábados, domingos e feriados de 8 às 13 horas o passeio de 20 minutos (da ponte da avenida Sebastião de Abreu à ponte da avenida Engenheiro Santana Júnior). O passeio de duas horas e de uma hora e dez minutos, esses só agendados. Pode ser qualquer dia da semana, mas depende exclusivamente da maré. São os passeios que faço até o Caça e Pesca.

 

Passeios de barco pelo Rio Cocó
Foto: Mapa Luciana Pimenta
Passeios de barco pelo Rio Cocó

 

Demitri - O que falta pra Cidade respeitar o rio?

Araújo - Olha, estou aqui desde 1991, eu encontrei esse rio numa realidade bem diferente do que a de hoje. As pessoas não respeitavam era de jeito nenhum, porque tinha caça, pesca predatória, tudo tinha aqui dentro. Esse mangue era cheio de piqueniques.

A gente foi conversando e foi mudando. Hoje, depois do dia 4 de setembro de 2017 (data de regulamentação da Unidade de Conservação estadual e de proteção integral), quando o Parque foi emancipado e passou a existir de direito, só o que precisa agora é terminar a dragagem do rio.
E no entorno dessa cerca de proteção, colocar placas informativas. O restante é a conscientização de cada um, respeitar um espaço que é de todos nós.



Demitri - Você acha um milagre o rio e o mangue ainda existirem no meio de uma capital como Fortaleza?

Araújo - Eu não acho um milagre, não. É a força da natureza e por ele estar próximo ao mar. Então, como essa maré entrava 12 quilômetros, mesmo ainda tendo carga de esgoto aqui pra dentro, essa água 24 hora por dia, num turno de seis horas, é trocada.

O mar consegue manter esse equilíbrio. É tanto que temos, aqui, cavalo-marinho. Encontramos na . É um rio que tem jeito, terminando essa dragagem, em agosto ou setembro, talvez, esteja pronta.

E essa água conseguindo retornar, deixando essa parte onde estamos salobra, que atualmente está doce, eu creio que o mangue e os crustáceos vão ter um rejuvenescimento.

 


Às 7 horas da manhã, o tenente Araújo inicia a lida com o rio Cocó. Vem de motocicleta do bairro Demócrito Rocha, onde mora, para o bairro Cocó, na avenida Sebastião de Abreu. "Gosto de motos e barcos, não gosto de carros". Às 18 horas, ele deixa o rio e volta para casa.

Seu "birô" de trabalho é o pier da Sebastião de Abreu, que fica "debaixo" da ponte da avenida Sebastião de Abreu. Ali estão ancorados os barcos Natureza (de madeira), o Natureza (de alumínio) e o Marta. Além do barco do Batalhão de Policiamento Ambiental (BPMA) e outro da Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema).

Aos sábados, domingos e feriados, de 8 às 13 horas, Araújo recebe visitantes para o passeio no rio. O Marta leva até 18 passageiros, durante 20 minutos, entre as pontes das avenidas Sebastião de Abreu e Engenheiro Santana Júnior.

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A equipe chegou ao Parque do Cocó às 7h30min, meia hora depois do horário combinado. “Perdemos a maré”, recebeu-nos assim o “guardião do rio”. Mas deu certo. Saímos do Parque depois das 13 horas.

No barco Natureza, de madeira, Araújo leva até 15 passageiros num passeio por duas horas no mangue. Da ponte da Sebastião de Abreu à foz do rio, na praia do Caça e Pesca. Aqui, só por agendamento.

No Natureza, de alumínio, cabem cinco passageiros para o passeio de 1h10min até o Caça e Pesca. Também tem de ser agendado. Araújo era auxiliado pelo marinheiro Edmilson, que faleceu em maio.

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Na semana, a bordo do barco da Sema e do Natureza de alumínio, Araújo coleta o lixo que fica preso na vegetação do rio, nas margens ou que é jogada no leito e boia com o movimento da maré do mar do Atlântico.

Além do lixo, Araújo corta a vegetação invasora e exótica de aguapés e capim no espelho d'água e que comprometem a oxigenação da água do rio.

O material, lixo e vegetação invasora, é acondicionado em sacos grandes e colocado embaixo da ponte da Sebastião de Abreu. Toda semana ou de 15 em 15 dias, a Sema recolhe o material e faz a destinação correta para cooperativas de catadores.

O agendamento dos passeios mais longos pode ser feito pelo telefone (85) 99205 3948. E pelo Instagram @navecacao_coco você acompanha as publicações do homem que guarda o rio.

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Demitri - O que mudou no rio de 1991 para cá?

Araújo - O rio Cocó, de 1991 para cá, passou por alguns problemas. Principalmente a quantidade de água doce que entra nesse trecho do rio Cocó, hoje, é bem maior que alguns anos atrás.

A maré entrava 12 quilômetros e conseguia deixar boa parte do rio (em Fortaleza) com água salobra. Eu conseguia navegar até o Castelão. Isso (a água salgada do mar) não deixava crescer água pé nem capim. Como foram feitas muitas estações de tratamento d’água ao longo do rio e essa água entra para a calha do rio, aumentou muito a matéria orgânica.

E essa água doce descompensou a maré. Se a maré entrava 12 km, ela não entra mais tanto e não deixa a água salobra. Da avenida Sebastião de Abre até a BR-116, a água está 100% doce, já fizemos teste de salinidade com o pessoal que vem fazer pesquisa aqui.

Mesmo com maré de 3,2 m, essa água está 100% doce. O capim e o água pé que estavam nas gamboas, nos pequenos riachos, começaram a vir para om leito do rio. Como a água está doce, encontraram muita matéria orgânica, então, encontraram o local perfeito.

Por isso que estão crescendo numa velocidade grande e fecham o leito do rio. Se a gente parar de fazer a limpeza, da Santana Júnior até uns 500 metros depois da Sebastião de Abreu, esse trecho fica interditado.



Demitri - O que você já viu de bonito aqui?

Araújo - O próprio rio é muito bonito, mas a gente vê flagrante de aves. Vi uma vez um socó-boi tomando sol que, quando abriu as asas, ficou com quase um metro de tamanho (envergadura). Pena que na hora, não tive como registrar.

Ninhos, pra que coisa mais bonita do que a vida? Um ninho de socó, por exemplo! Um ninho de tamatião, que nunca tinha visto e vi no ano passado. Nunca tinha visto, vi o ninho com os filhotes.

Isso é muito bonito. É a natureza se renovando, conseguido crescer mesmo cercada de casas (prédios, e asfalto), mas também de pessoas que têm consciência que isso aqui tem de ser preservado.












Eu e a bióloga Cecília Licarião registramos alguns bastidores da entrevista com Araújo. Em um dos momentos, todos começaram a fotografar e filmar um socó que se coçava e caçava libélulas. A pouca distância do barco. Foi preciso espantá-lo para começar o trabalho.

 

Demitri - Você conta essas histórias pra sua filha e esposa?

Araújo - Sim, elas gostam de ouvir as histórias do Cocó. Benedita é minha esposa e Mariana é minha filha. Por sinal, está fazendo um curso de turismo para um dia também receber as pessoas no rio. E têm muitas histórias e outras que não posso contar num vídeo desse.

Demitri - Tipo o quê?

Araújo - (risos)

Demitri - Quantos barcos você já teve no rio?

Araújo - Possui três barcos no Adahil Barreto, adquiri em 1993. Esses barcos eu perdi. E em 2005, comprei a Marta. Em 2019, comprei o Natureza (de madeira) e também o Natureza de alumínio.










O Adahil Barreto era uma área que pertencia à Prefeitura de Fortaleza e que passou a integrar o Parque Estadual do Cocó quando a Unidade de Conservação foi regulamentada, em 2017. O parque tem 1.571,29 hectares e se desenha entre os municípios de Maracanaú, Itaitinga e Fortaleza. A área do rio no Adahil Barreto era navegável, mas com o assoreamento do rio e o crescimento de capim e águapés, os barcos pequenos foram impedidos de navegar.

 

Demitri - Os passeios de barco são turísticos?

Araújo - O intuito não é turístico, é educação ambiental. Não é a questão do turismo, é a pessoa conhecer para proteger. Quanto mais você conhece, mais vai proteger. Quem vem passear gosta, tem família que quase todo final de semana vem. E quando pergunto se elas querem ouvir a história, novamente, sobre a fauna e a flora do rio, eles respondem que sim. Se eu não conto, eles pedem.


 

Durante o passeio, Araújo conta sobre a origem da palavra “Cocó”. Existem duas versões. A primeira seria que a palavra viria do plural de “có”, que significa roça em tupi. Seria uma referência às roças que os indígenas, povos originais do Ceará, fariam às margens do rio na época das invasões portuguesas.

A outra versão, estaria relacionada ao tipo de cabelo usado por lavadeiras que usavam o rio para lavar roupa. Uma amarração para trás que evitava que os cabelos caíssem nos olhos. Assim fariam um “cocó”.

A última pergunta ao tenente Araújo foi se ele queria falar algo que fosse importante e que foi esquecido nas perguntas. A resposta foi: “já falei demais”.

A equipe chegou ao Parque do Cocó às 7h30min, meia hora depois do horário combinado. “Perdemos a maré”, recebeu-nos assim o “guardião do rio”. Mas deu certo. Saímos do Parque depois das 13 horas.

Por causa da pandemia e para evitar aglomeração o Parque foi fechado em 19 de março deste ano. A matéria foi possível depois da autorização do gestor da Unidade de Conservação, Paulo Lira.

A previsão de reabertura das trilhas do Parque do Cocó é para agosto deste ano. Este e o próximo serão para limpeza, reparo e remoção de árvores caídas. O Viva o Parque, que acontecia todos os domingos, provavelmente, só voltará em 2021.

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Entre o doce e salgado

Por Cecília Licarião, bióloga, mestre em Ecologia de Populações e Recursos Naturais (UFC) e coordenadora Projeto Aves de Noronha @AvesDeNoronha

O Rio Cocó nasce na Serra da Aratanha e percorre aproximadamente 50 km até desaguar no Atlântico, na praia da Sabiaguaba. Em todo o seu percurso, o rio confere uma grande importância para o ecossistema ao qual pertence.

Suas águas são responsáveis por alimentar uma complexa cadeia que vai desde as suas profundezas até as florestas que o margeiam. Ao se aproximar do Atlântico, suas águas sofrem grande influência do mar.

O balanço entre o doce e o salgado, alternando diariamente conforme a maré, é responsável por manter a integridade da floresta que o cerca, uma vez que o manguezal precisa de água salobra para se manter vivo.

Se a água fica doce demais, o mangue morre. Se esse equilíbrio é posto em risco, toda a floresta ao seu redor e as vidas que dependem dela também estão.

Rio e floresta precisam estar saudáveis para dar suporte a toda a biodiversidade que depende deles. O leito do rio precisa de uma floresta forte e saudável à sua margem. A água salobra é o que mantem as árvores firmes na floresta e permite a regeneração de novas árvores naquele ambiente.

Esse cenário representa um verdadeiro oásis verde em meio ao grande centro urbano de Fortaleza. É uma mina de ouro, ou melhor, de vida. O Parque Estadual do Cocó representa para nossa cidade uma espécie de matriz de biodiversidade. São mais de mil espécies de animais, como raposas, guaxinins, saguis, serpentes, sapos, rãs, peixes, insetos, caranguejos.


Uma explosão de diversidade pode ser vista, ouvida e sentida assim que se põe os pés no Parque. Para além dos já citados, o Cocó conta com uma orquestra de quase 160 espécies de aves.

O rio é usado para muito além de moradia e fonte de alimento. Nas margens dessas águas, a vida se renova. Usando o mangue-preto (Avicennia schaueriana) e o mangue-branco (Laguncularia racemosa) como matéria prima para seus ninhos, socozinhos (Butorides striatus), frangos-d ’água-comum (Gallinula galeata), frango-d ’água-azul (Porphyrio martinicus) e savacus (Nycticorax nycticorax) põem seus ovos em segurança, garantindo as novas gerações de habitantes desse rio. Se você tiver olhos atentos, pode flagrar uma dessas cenas durante o passeio de barco realizado diariamente pelo Tenente Araujo (@navegacao_coco).

Inclusive, recomendo demais que você faça isso. É preciso navegar nas águas desse rio, sentir o cheiro do mangue, acompanhar o voo dos socozinhos, a pesca dos martins-pescadores e as cambalhotas das pemas para entender um pouco mais sobre o que é o Rio Cocó.

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