Reportagem Seriada

50 dias sem a presença humana no Parque do Cocó

Por três dias, O POVO visitou o Cocó para mostrar como a experiência do fechamento do Parque na área das trilhas, em função da quarentena da Covid-19, influenciou o ecossistema. A suspensão de visitas deverá ser replicada em pelo menos um dia, às segundas-feiras, na unidade de conservação. Um tempo para fauna e flora descasarem do impacto humano nas trilhas
Episódio 1

50 dias sem a presença humana no Parque do Cocó

Por três dias, O POVO visitou o Cocó para mostrar como a experiência do fechamento do Parque na área das trilhas, em função da quarentena da Covid-19, influenciou o ecossistema. A suspensão de visitas deverá ser replicada em pelo menos um dia, às segundas-feiras, na unidade de conservação. Um tempo para fauna e flora descasarem do impacto humano nas trilhas Episódio 1
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Quais as transformações no Parque do Cocó em mais de 50 dias de quarentena e com a suspensão da visita humana na maior unidade de conservação, cravada em área urbana, do Norte e Nordeste? De Maracanaú à Fortaleza, municípios onde se desenham os 1.571,29 hectares do ecossistema protegido, na Região Metropolitana da capital cearense, quais benefícios e problemas experimentaram a fauna e a flora sem visitantes na área das trilhas quase sempre lotadas antes da pandemia?

Eu, o biólogo Gabriel Aguiar e os repórteres fotográfico Fco Fontenele e Júlio Caesar, iniciamos uma busca por sinais e interrogações na área da Sebastião de Abreu. Foi o início de um desafio proposto pelo gestor do Parque, Paulo Lira, para a anotar sobre uma floresta cercada de prédios, asfalto e Cidade por todos os lados.

Gabriel Aguiar, 25, mestrando em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal do Ceará (UFC), delimitou. A visita às trilhas focaria na parte comportamental do bioma desenhado entre o manguezal, as dunas e a mata de tabuleiro.

Nem uma semana inteira daria conta, por exemplo, de traçar observações sobre aspectos populacionais. Então fomos “sozinhos” pelo que resta de floresta numa das áreas mais cobiçadas pelo mercado imobiliário em Fortaleza.

Iniciamos o roteiro na madrugada do último dia 7 de maio. Chegar cedinho, pegar a hora mais ativa dos pássaros e a virada da jornada noturna, quando o Parque assume outra escrita com seres que vivem no breu da noite cercado pelo urbano.

O comportamento mais visível está no inventário do chão. Como não há pisada humana constante, no meio da trilha do Túnel uma brotação de mudas de mangue-preto reassumiu um trecho bem no meio do caminho.

 

 

“É o que chamamos de sucessão ecológica. A vegetação, os organismos tomando conta do espaço que uma vez foi deles. Então, a gente vai ver plantas crescendo na trilha, sob a água, em locais que passaram a ser delimitados pela trilha aberta para visitação (desde 2003)”, observa o biólogo.

O mangue-preto (Avicennia schaurina) também conhecido como árvore canoé ou siriúba é uma espécie abundante nos manguezais do Brasil e da América do Sul. Na época de sua refazenda espalham sementes na lama ou na borda das trilhas do Cocó.

Além das pequenas mudas, também se observou o deslocamento dos pneumatóforos depois do limite da beirada da trilha. Pneumatóforos são estruturas de respiração, raízes que crescem num sistema radicular e que depois sobem, ficando acima do solo.

A espécie, descreve a literatura botânica e Gabriel Aguiar, tem estruturas especiais chamadas popularmente de “galhas” (não confundir com galhos), umas bolinhas encontradas na superfície das folhas que servem para excretar o sal que é absorvido pela planta no mangue. O Cocó já foi uma grande salina nos anos 1970, pertencentes à família de Antônio Diogo Siqueira Filho.

Na trilha do Rio, foi onde as sementes do mangue-preto mais se sentiram à vontade para reocupar o território. Os 50 e poucos dias sem pés de tênis, sem pneus de bicicletas e o peso das motocicletas do policiamento permitiram o crescimento de um pouco mais de dez centímetros embaixo das matrizes. Árvores que podem chegar a 20 metros no rés da lama.

A suspensão das visitas potencializou outras mudança na área urbanizada do Parque.

 

Cheias

Com a boa temporada de chuvas, as cheias aumentaram depois do arrefecimento das inundações ocorridas de janeiro a abril do rio para o mangue. De acordo com Eduardo Sávio, superintendente da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme), foi a segunda melhor quadra chuvosa dos últimos dez anos na costa de Fortaleza e no mapa do Semiárido cearense.

Até agora, de janeiro a maio (ainda pode ter chuva neste mês), choveu uma média de 1117.3 mm no Litoral de Fortaleza. Contra 1320.6 no ano passado e 1147.7 em 2011 durante o mesmo período. O posto pluviométrico mais próximo do rio Cocó, que fica na Fundação Maria Nilva Alves, no bairro Água Fria/Sapiranga, acumulou 1614.0 mm.

O rio veio pelo menos seis vezes transbordado para cobrir as trilhas da Sebastião de Abreu e parte da vizinha Área de relevante Interesse Ecológico das Dunas do Cocó (Arie) – uma unidade de conservação municipal. As águas subiram mais de 30 cm inundando o interior do parque e fazendo valer a zona de amortecimento que impede o alagamento de prédios e asfalto.

 

Sedimentos

Depois da temporada das cheias e com a quarentena, observa Gabriel Aguiar, há uma grande quantidade de “deposição de folhas cobrindo o solo. Embaixo, tem todo um ecossistema se desenvolvendo com serpentes, lagartos, insetos, aranhas que vão ali fertilizar o solo. Isso não se vê quando tem gente circulando. Esse tipo de deposição pode sim ser planejado pela gestão do Parque para que se torne uma política regular”.

O fechamento forçado do Parque, desde o dia 19 de março, a partir do feriado de São José no Ceará, também pode ser usado pela gestão da Unidade de Conservação e pela Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema) de maneira positiva na “reabertura da floresta”.

No último dia 27/4, pelo meu perfil no Instagram - @demitritúlio, sugeri à gerência do Parque e à Sema que unidade de conservação poderia programar fechamentos para um respiro da fauna, da flora e manejo ecológico sustentável do Parque.

Uma ideia antiga reforçada pelas lições da quarentena. Fechasse às segundas e terças-feiras para visitação. Principalmente porque o equipamento, na Sebastião de Abreu, passou receber uma média de 3,5 mil pessoas somente aos domingos. No ano passado, 252 mil pessoas visitaram as trilhas.

Não haveria prejuízo para quem frequenta ou se exercita no Parque, já que a área dos piqueniques (próximo à gerência) permaneceria aberta e o calçadão ao redor da floresta disponível para corridas e caminhadas.

Pelo Whatsapp, o secretário do Meio Ambiente do Estado, Artur Bruno, informou que encaminhará a proposta de fechamento das trilhas internas do Parque às segundas-feiras.

 


É um aceno positivo para a sustentabilidade da floresta, do rio e do mangue no Parque.

“É um respiro para que a fauna possa se recuperar, se reproduzir e caçar sem o impacto humano. Lógico, a presença humana está cumprindo uma das funções da unidade de conservação, que é aproximar a população do meio ambiente mais conservado, com educação ambiental, prática de esportes e outras questões”, arremata o biólogo Gabriel Aguiar.

 

Visitação é necessária, mas tem de ser sustentável

A visitação humana nas trilhas do Cocó, na área da Sebastião de Abreu e Adahil Barreto, não representa só impacto para o ecossistema do equipamento. O desafio, de acordo com Paulo Lira, gestor da unidade de conservação, é tornar essa presença cada vez mais sustentável

Por causa da redução do fluxo de pessoas todos os dias nas trilhas, pelos menos dois grandes furtos aconteceram com o fechamento das trilhas por ocasião da quarentena. No píer do rio, onde ficam os barcos de passeios, ladrões levaram uma lona que cobria a embarcação Natureza. Um prejuízo de R$ 700, segundo Francisco Araújo que coordena os passeios de barcos ao longo do rio.

Além da coberta do barco, criminosos também furtaram a fiação elétrica da quadra de esportes da Areninha, na avenida Padre Antônio Tomás, e em postes da iluminação pública rua Arquiteto Reginaldo Rangel. “O segurança detectou o que aconteceu à noite. Fizemos boletim de ocorrência sobre o furto”, afirma Paulo Lira.

 

O Batalhão de Policiamento Ambiental do Ceará (BPMA), mesmo com o efetivo reduzido por causa das baixas decorrentes da pandemia e o emprego de policiais no apoio em ocorrências para dispersar aglomerações em Fortaleza, prendeu os ladrões e o receptador dos fios roubados.

Para o gestor do Parque, a presença humana é importante para a segurança do equipamento. “A ocupação, de forma sustentável, inibe a ocorrência de problemas de violência urbana e até de abandono de gatos”, observa o gerente.

Nos últimos cinco anos, Paulo Lira observa que “a ampliação da iluminação em torno do anfiteatro, o fluxo de pessoas caminhando, se exercitando, e a presença policiamento ambiental são fatores de segurança. Isso inibe a ação de marginais”. (Demitri Túlio)

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Precisamos ouvir o que o Cocó tem a nos ensinar

Por Gabriel Aguiar, biólogo e mestrando em Ecologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

Não havia os passos ritmados dos corredores, caixinhas de som, risadas acaloradas, clicks de fotógrafos com suas gestantes e debutantes... Nenhum humano ali passava há cinquenta dias.

Mas silêncio também não havia. Chegamos expectantes ao Parque, rastreando movimentos antes mesmo de entrar: não parava de nos chegar os registros dos guaxinins que nos dias anteriores passaram a circular no Anfiteatro do Cocó.

Fomos recebidos pelo estridente canto de uma saracura, que logo se confundiu com o do carão, do anu, do tetéu, da garça, do socó-boi, do periquito, do bem-te-vi, dos soins... o parque estava animado, cheio de vida.

As trilhas de areia estavam sendo tomadas pelas mudas recém germinadas de mangue-preto. Eram centenas, milhares de futuras árvores brotando por toda parte, ocupando a desusada passagem humana com uma nova perspectiva de floresta.

As águas corriam transparentes sobre as trilhas, varrendo grão por grão do que fora depositado por mãos humanas. Onde a água parava, centenas de girinos ebuliam a superfície. Aparentavam ter sumido conosco os gatos domésticos.

Sem os constantes transeuntes abastecidos de alimentos industrializados, a floresta parecia abrigar agora apenas animais silvestres nativos dali, enquanto os gatos asiáticos eram raramente vistos, apenas nas periferias do ecossistema.

Um privilegiado. É cwaomo eu me sinto com a oportunidade de ter colocado meus olhos e ouvidos naquele rico ambiente que pôde descansar de nós. Sei que em breve estaremos lá de novo e que há muito ganho com isso, mas espero que esses registros sirvam para amadurecer a nossa forma de interagir com o Parque do Cocó.

Trechos das trilhas podem passar a ser elevados; a visitação pode adotar uma política de rodízio com intervalos de descanso para o parque; as podas podem ser suspensas em boa parte das áreas para que o sistema floresça; a alimentação industrial para os animais pode se restringir cada vez mais ao exterior do Parque... precisamos ouvir o que o Cocó tem a nos ensinar!

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