Reportagem Seriada

Paulo Freire: por que o pensador brasileiro mais citado no Exterior é o mais polêmico no País

Há 100 anos, nascia o patrono da educação brasileira, em Recife, Pernambuco (PE). Amado e reconhecido por muitos — e odiado por outros tantos —, Paulo Freire criou todo um sistema de educação e sonhava com a libertação dos oprimidos por meio da leitura — primeiro do mundo, depois das palavras
Episódio 1

Paulo Freire: por que o pensador brasileiro mais citado no Exterior é o mais polêmico no País

Há 100 anos, nascia o patrono da educação brasileira, em Recife, Pernambuco (PE). Amado e reconhecido por muitos — e odiado por outros tantos —, Paulo Freire criou todo um sistema de educação e sonhava com a libertação dos oprimidos por meio da leitura — primeiro do mundo, depois das palavras Episódio 1
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Em Praia, capital de Cabo Verde, ao seguir reto na Liberdade e Democracia, em direção ao mar, encontra-se Paulo Freire. Perpendicular à avenida que traz em si valores caros ao educador, a pequena rua ganhou o pedagogo pernambucano em 8 de setembro de 2000, um Dia Mundial da Alfabetização. É nela onde está localizada a Diretoria Geral de Alfabetização e Educação de Adultos (DGAEA) do Ministério da Educação do país africano.

Ao deparar-se com a placa que identifica a rua Pedagogo Paulo Freire, o professor Leunam Gomes emocionou-se. Então pró-reitor de Extensão da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), ele visitou a região pela primeira vez em 2002, na primeira experiência internacional do Programa Alfabetização Solidária (PAS), que desenvolvia iniciativas de alfabetização de adultos.

"Fomos percebendo que a presença do educador pernambucano ia muito além daquela placa. Nos contatos com o ministro da Educação, com sua equipe técnica e especialmente com o grupo da DGAEA, vimos a intimidade do país com o pensamento de Paulo Freire." Intimidade essa que, ele conta, não existia no Brasil. "O trabalho da ditadura para ofuscar as suas ideias conseguiu resultados", lamenta.

 

Nascido um século atrás, em 19 de setembro de 1921, Paulo Reglus Neves Freire deixou o Brasil após ter ficado preso por cerca de 70 dias. O golpe militar, em 31 de março de 1964, havia interrompido a implementação do Plano Nacional de Alfabetização (PNA) do governo João Goulart, que replicaria e ampliaria experiências de Freire até aquele momento.

Considerado subversivo pelos militares no poder, foi preso e partiu para o exílio em setembro de 1964. Inicialmente, foi para a Bolívia, de onde partiu cerca de dois meses depois em direção ao Chile. Lá, Paulo Freire viveu até abril de 1969 e escreveu "Pedagogia do Oprimido", livro citado mais de 101 mil vezes em trabalhos acadêmicos, segundo a plataforma Google Scholar. 

 

Depois do Chile, mudou-se para os Estados Unidos para trabalhar como professor convidado da Universidade de Harvard. Em fevereiro de 1970, assumiu o cargo de consultor do Conselho Mundial das Igrejas em Genebra e morou na cidade suíça por dez anos. Freire fundou o Instituto de Ação Cultural (Idac) junto a outros brasileiros exilados e prestou serviços educativos principalmente em países mais pobres.

Depois de 1975, atuou em prol da educação popular em países africanos como Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Angola. "Andarilhou" pelos cinco continentes realizando as atividades educativas e só voltou ao Brasil em 1980.

Paulo Freire, ao lado de Miguel Darcy de Oliveira, do Instituto de Ação Cultural (Idac), e de Mário Cabral, ministro da Educação de Guiné-Bissau, África, em 1978(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire Paulo Freire, ao lado de Miguel Darcy de Oliveira, do Instituto de Ação Cultural (Idac), e de Mário Cabral, ministro da Educação de Guiné-Bissau, África, em 1978

Inúmeras homenagens foram recebidas por Paulo Freire em vida. Outras tantas foram prestadas in memoriam. Em março de 1988, esteve em Fortaleza para receber a medalha Frei Tito de Alencar, e naquele mesmo ano a Universidade Federal do Ceará (UFC) atribuiu-lhe o título de Doutor Honoris Causa. Em abril de 1996, tornou-se cidadão cearense por meio da lei nº 12.569.

Mas, a anistia de Paulo Freire pelo governo brasileiro foi declarada apenas em 2009, quando ele já não estava mais aqui. Freire morreu às 5h30min de 2 de maio de 1997, aos 75 anos, devido a um infarto no miocárdio. No julgamento, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça pediu-lhe desculpas pelos crimes cometidos pelo Estado. “Esse pedido de perdão se estende a cada brasileiro que, ainda hoje, não sabe ler sua própria língua”, disse à época o relator do processo, Edson Pistori.

 

 

Um perigoso subversivo?

 

Paulo Freire ganhou projeção no Brasil quando, em 1963, organizou e dirigiu uma campanha de alfabetização em Angicos, no interior do Rio Grande do Norte (RN). Foram 300 alunos e dois meses de aulas. Entre alfabetizandos e alfabetizandas: domésticas, operários, agricultores, motoristas, comerciantes, parteira, serventes de pedreiro, pedreiros, prostituta, funcionários, vaqueiro, mecânicos, soldado, carpinteiros, artesãos, lavadeiras, bordadeiras, jornaleiro e desempregados.

Lá foi aplicado o "método de conhecimento" elaborado pelo educador nordestino — um modelo fonético que acabaram por denominar "método Paulo Freire". A proposta é baseada no diálogo e na valorização do saber dos alfabetizandos. Inicialmente, é feita uma pesquisa participante, por meio de "círculos de cultura", em que educadores identificam palavras conhecidas e utilizadas cotidianamente por essas pessoas e, assim, compõem o "universo vocabular mínimo".

Circulo de Cultura em Sobradinho, no Distrito Federal (DF). Aplicação da proposta de alfabetização de Paulo Freire em 1963(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire Circulo de Cultura em Sobradinho, no Distrito Federal (DF). Aplicação da proposta de alfabetização de Paulo Freire em 1963

"Uma coisa é alfabetizar agricultor, outra coisa é alfabetizar pescador ou pessoas que moram na periferia das cidades, porque eles têm linguajar diferente. Então, o método de Paulo Freire não tem cartilha, a cartilha vai sendo construída a partir das palavras geradoras oriundas do grupo em processo de alfabetização", explica o professor Leunam Gomes, que teve o primeiro contato com as ideias do pernambucano quando fez parte do Movimento de Educação de Base (MEB), que realizava alfabetização por meio do rádio.

"As escolas funcionavam, por exemplo, em igrejas, em casa de farinha, em casas que as pessoas emprestavam a sala", lembra o professor. "Foi uma experiência muito boa porque a gente via a coisa funcionando na prática, e fugia totalmente aos padrões então vigentes, daquela história de aprender o bê-a-bá." Posteriormente, Gomes iria aplicar esses preceitos quando tornou-se gestor da pasta de Educação em municípios cearenses.

Os alfabetizandos passam conhecer as sílabas dessas palavras geradoras para, por fim, conseguirem combiná-las e chegar a outras palavras. "É um método fonético, mas sempre precedido da discussão do contexto. Ele (Paulo Freire) sempre lembrava que o contexto é muito maior do que o texto, e que as pessoas em comunhão têm uma sabedoria que precisa ser acessada pela palavra vivida, que é tão forte quanto a palavra escrita", explica Cristiane Holanda, doutora em Educação pela UFC e professora da UVA, em Sobral.

O objetivo de Paulo Freire era que cada pessoa aprendesse mais do que a ler e escrever. Ele buscava "desafiar a grupos populares para que percebam, em termos críticos, a violência e a profunda injustiça que caracterizam sua situação concreta", como escreveu no texto "Leitura do mundo", publicado no O POVO originalmente no caderno Sábado, em 13 de abril de 1996, e reproduzido no Vida&Arte, em 3 de maio de 1997.

"Paulo Freire diz muito claramente: a leitura da palavra deve ser uma consequência da leitura do mundo", conta João Figueiredo, professor da Faculdade de Educação (Faced) da UFC, que trabalha com educação popular freireana, educação ambiental e didática. "A proposta de Freire é que ninguém se torne instrumento de ninguém."

De volta a Angicos, no Rio Grande do Norte (RN), 30 anos depois da experiência de alfabetização na cidade, Paulo Freire recebe homenagem na escola José Rufino, em 1993(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire De volta a Angicos, no Rio Grande do Norte (RN), 30 anos depois da experiência de alfabetização na cidade, Paulo Freire recebe homenagem na escola José Rufino, em 1993

Nas ideias do pernambucano, não existe neutralidade na atividade de educar. Ele defendia "uma intencionalidade política" por parte da educação, explica o professor, pesquisador e ativista social Sergio Haddad, autor de "O educador: um perfil de Paulo Freire". Não se pode, então, dissociar uma coisa da outra. "Isso significava, para ele, pensar em uma pedagogia para os mais pobres, para os oprimidos, e não uma pedagogia para o mercado, para o individualismo, para a competição."

Ele contestava o que chamou de "educação bancária" — aquela tradicional, em que o professor é um transmissor de conhecimento, e o aluno, um "depositário" que deve memorizar o que for ensinado. No lugar disso, ele propôs a "educação libertadora", em que alunos e professores aprendem uns com os outros. "(Ele diz que) querer que alguém só decore, memorize, é querer muito pouco da mente de uma criança", afirma Margarete Sampaio, professora do curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e membro da Cátedra Paulo Freire da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Na década de 1960, segundo o Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia 15,9 milhões de brasileiros analfabetos — e, por isso, proibidos na época de votar. Era o correspondente a 39,7% da população. O PNA, que teria como base o denominado "método Paulo Freire", tinha a intenção de alfabetizar cinco milhões de jovens e adultos, e a ideia de que eles tivessem uma formação rápida e com leitura crítica da realidade não agradou a todos.

 

"As pessoas, para além de terem o título, tinham também maior consciência política dos problemas. E isso era visto como perigoso, como se fosse um atentado contra as condições sociais que havia naquela época. E o Paulo foi acusado justamente disso (de ser comunista)", aponta Haddad, que trabalhou com Paulo Freire na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Na verdade, tudo isso era o medo de que a gente tivesse uma população em condições de votar de maneira consciente."

O professor João Figueiredo complementa, afirmando que os objetivos de Freire com a alfabetização eram diferentes dos planos dos "governos ditos de direita". "Queriam alfabetizar as pessoas apenas para votarem por eles, a favor deles, enquanto Freire queria que as pessoas se alfabetizassem; ou seja, percebessem o mundo, percebessem os processos opressores, e votassem em quem poderia colaborar para um mundo melhor", afirma. "Nesse sentido é que ele passa a ser visto como um revolucionário, como um cara de esquerda. E tudo isso, era, na verdade, sinônimo de alguém que deveria ser preso."

Ainda hoje rotulado de comunista, o próprio Paulo Freire explicou, em entrevista ao apresentador Serginho Groisman enquanto foi secretário da Educação de São Paulo — cargo que exerceu entre 1989 e 1991 —, que não era anticomunista, mas que tampouco era comunista. "Eu sou, porém, um socialista. Eu acredito no socialismo, eu acredito na participação popular, eu acredito na transformação do mundo realizada sobretudo por aqueles e por aquelas que se encontram desprovidos ou roubados no seu direito de ser", disse.

Fotografia de identificação de Paulo Freire para passaporte brasileiro, em 1979, quando o exílio estava chegando ao fim(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire Fotografia de identificação de Paulo Freire para passaporte brasileiro, em 1979, quando o exílio estava chegando ao fim

 

 

De volta ao passado

 

As perseguições às propostas de Paulo Freire não pararam com o exílio. Nos anos seguintes, conta Sérgio Haddad, livros escritos por ele foram proibidos não só no Brasil, mas em outros países. Com os golpes militares que ocorreram pela América Latina, a Argentina e o Chile são exemplos disso. Ao retornar ao Brasil, o educador também recebeu diversas críticas quando assumiu a secretaria da Educação de São Paulo, em 1989, na gestão municipal da atual deputada federal Luiza Erundina (Psol-SP), então filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Com a polarização vivida no País nos últimos anos, Paulo Freire voltou a ser alvo de ataques de grupos conservadores. Então candidato, em outubro de 2018, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou em uma entrevista que buscava para a pasta da Educação um ministro que tivesse autoridade e que expulsasse "a filosofia de Paulo Freire".

"Tem de ser alguém que chegue com um lança-chamas e toque fogo no Paulo Freire", disse em outra ocasião, durante a campanha eleitoral. Já no Planalto, em dezembro de 2019, Bolsonaro o chamou de "energúmeno". Apoiadores do presidente utilizam a expressão "geração Paulo Freire" de forma negativa para criticar opositores.

Paulo Freire recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Complutense de Madri, Espanha, em 1991(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire Paulo Freire recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Complutense de Madri, Espanha, em 1991

Em 2019, três deputados federais do PSL, partido pelo qual o presidente elegeu-se, propuseram projetos de lei (PL) para revogar a Lei nº 12.612/12, que declarou o educador pernambucano patrono da educação brasileira. Os projetos de lei nº 1.930/2019, nº 2.589/2019 e nº 3.033/2019 são de autoria, respectivamente, de Heitor Freire, do Ceará; Caroline de Toni, de Santa Catarina, e Carlos Jordy, do Rio de Janeiro.

"A péssima situação da educação brasileira nos tempos modernos revela por si só os resultados catastróficos da adoção dessa plataforma esquerdista de ensino", diz o texto do deputado cearense, projeto principal ao qual os outros dois foram apensados. A proposta, atualmente, aguarda o parecer da relatora, professora Rosa Neide (PT-MT), na Comissão de Educação.

A professora Margarete Sampaio, membro da Rede Freireana de Pesquisadores, aponta que o período de governos de esquerda foi marcado por modificações em algumas relações de poder. Ampliação de vagas em universidades, política de cotas e direitos trabalhistas para empregadas domésticas são alguns exemplos citados por ela.

Faixa em homenagem às lutas de Paulo Freire, em fotografia de 1996(Foto: Acervo Paulo Freire)
Foto: Acervo Paulo Freire Faixa em homenagem às lutas de Paulo Freire, em fotografia de 1996

"Quando você mexe com certas coisas, você vai contra o que muita gente acredita, porque, até então, manter aquelas estrutura e condições estava dando certo. Estava dando certo para quem?", questiona. Em um contexto de fragilidade democrática causada por "uma corrente de negacionismo, autoritarismo e violência", Paulo Freire foi tomado como símbolo de tudo que é oposto aos valores conservadores. "Sendo essa pessoa que defendeu uma educação libertadora, que defendeu um outro modelo de sociedade, ele jamais seria reconhecido", diz a professora.

"Estamos vivendo uma recrudescência histórico-temporal, estamos revivendo coisas que são do tempo de Freire. Nós temos a perda de direitos fundamentais conquistados durante esse período", complementa o professor João Figueiredo, que aponta um saudosismo "explícito" da época da ditadura militar por setores da sociedade. "Então, Paulo Freire, nesse aspecto, tem tudo a ver. Porque ele vai se contrapor radicalmente a essa questão. Ele dizia isso: 'É uma defesa radical da liberdade'."

 

 

O "método" Paulo Freire para alfabetização

 

 

O processo tem início com uma pesquisa participante por meio de círculos de cultura — grupos, coordenados por educadores, em que se discute determinado tema. Neles, educadores identificam as palavras geradoras que serão utilizadas. Normalmente, são 17 palavras que fazem parte do cotidiano daquelas pessoas

Nos anos 1960, uma das palavras geradoras utilizadas com nordestinos que estavam trabalhando em Brasília — uma cidade ainda em construção — foi "tijolo". É assim que ela deve ser trabalhada, segundo a proposta de Paulo Freire:

 

Repete-se a técnica para todas as palavras geradoras, que devem contemplar todo o alfabeto. Com o processo, estudantes passam a conhecer e conseguir combinar as diferentes sílabas e formar palavras variadas.

Fonte: Adaptação do livro "Paulo Freire: uma história de vida", de Ana Maria Araújo Freire

CRÉDITOS

  • EDIÇÃO Érico Firmo e Regina Ribeiro
  • REPORTAGEM Gabriela Custódio e Marcela Tosi
  • RECURSOS DIGITAIS Wanderson Trindade
  • IMAGENS Acervo Paulo Freire
  • PESQUISA Data. Doc O POVO
  • COLAGENS DE CAPA Letícia Bernardo
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