Reportagem Seriada

Na educação e além: o legado de Paulo Freire

A convite d´O POVO especialistas de diversas áreas refletem sobre a contribuição do pensamento freiriano em suas práticas cotidianas
Episódio 5

Na educação e além: o legado de Paulo Freire

A convite d´O POVO especialistas de diversas áreas refletem sobre a contribuição do pensamento freiriano em suas práticas cotidianas Episódio 5
Tipo Opinião


 

Arte libertadora em Freire

Por Roberta Scatolini* 

 

"Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio"
(Manoel de Barros)

 

Roberta Scatolini é educadora popular e atriz(Foto: DIVULGAÇÃO)
Foto: DIVULGAÇÃO Roberta Scatolini é educadora popular e atriz

A Pedagogia do Oprimido foi sistematizada pelo educador Paulo Freire em contextos de luta no Brasil e no exterior. Direcionada para a justiça social, dos e com os "esfarrapados do mundo", jamais deixou a dimensão po(i)ética fora de suas formulações ou relegou as subjetividades humanas. De maneira que ética e estética são indissociáveis nesta epistemologia e permeiam toda a vida/obra de seu criador.

Ainda nos anos 1950, no início de sua carreira de educador, Freire esteve à frente da escolinha de Arte do Recife (PE) e também pôde acompanhar e aprender com a sua primeira companheira, Elza Freire, que trabalhava numa perspectiva de arte integrada à educação pública. Junto ao escritor Ariano Suassuna, em 1953, ele desenvolveu um projeto de Teatro popular no Serviço Social da Indústria (Sesi), com os operários de Recife, que foi pioneiro enquanto experiência de Leitura do Mundo, conscientização e dialogicidade entre palco e plateia, aproximando a educação e a arte como possibilidade político-pedagógica. E, ademais, em 1963, buscou a parceria com o pintor e ceramista Francisco Brennand, para a criação das fichas de culturas, que tiveram papel central no desenvolvimento de seu "Método".

Ao definir a educação como arte, atividade estética e, fundamentalmente, como um fazer criativo, Freire propõe uma educação de "corpo inteiro". E se a Leitura do Mundo precede a leitura da palavra, cabe pensar que as diversas linguagens artísticas são possibilidades de aguçar os sentidos para ler o(s) mundo(s), integrando os diferentes saberes e o conhecimento sensível para além de uma educação burocratizada. 

Para tanto, a concepção de arte que interessa à Pedagogia Libertadora é aquela que supera os movimentos estilísticos, desconstrói o conceito de beleza universal - cis-heteronormativo, racista, colonial e capitalista - e acolhe a diversidade cultural. Uma arte que problematiza para o desvelamento crítico das subjetividades do mundo e contribui para a produção de sentidos, assumindo a totalidade humana em contraposição ao dualismo cartesiano.

Ao dinamizar a experiência do processo autoral, a arte/educação age como possibilidade criativa para um outro mundo possível. Acende a chama e funda o gosto pela "pronúncia da palavra no mundo", que se dá com o corpo inteiro. E assim, favorece a (re)invenção da cultura e o encontro da terceira margem do rio, construindo o "inédito viável".

(*) Roberta Scatolini é educadora popular e atriz. Graduada em Psicologia, mestre em Educação pela PUC/SP e atualmente doutoranda em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra. Integrou a equipe pedagógica do Núcleo de Trabalhos Comunitários da PUC/SP e do Instituto Paulo Freire/SP e foi animadora cultural no Sesc São Paulo. 

 

 

 

Paulo Freire e a construção de um outro mundo possível

Por Sonia Couto Souza Feitosa*  

.Sonia Couto Souza Feitosa é autora do livro Método Paulo Freire, a reinvenção de um legado(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal .Sonia Couto Souza Feitosa é autora do livro Método Paulo Freire, a reinvenção de um legado

Para contribuir com o fortalecimento e com a construção de um mundo mais humano, alicerçado na justiça social, cabe-nos a tarefa de defender o legado de Paulo Freire, reconhecendo-o como um importante pilar na formulação de uma educação crítica, emancipadora e potente, de modo a possibilitar a construção um outro mundo possível, necessário e urgente.

A trajetória de Paulo Freire foi marcada pela luta contra a opressão, mas ele não se limitou a simples denúncia. Freire nos levou a pensar a vida, pensar o pensado, pensar o vivido, o experenciado e a projetar o futuro. A praxis freiriana reúne um conjunto de saberes e práticas ético-político-pedagógicas que nos levam a considerar que Freire é mais do que um educador, um filósofo, um pensador da educação. Paulo Freire é um éthos, pois representa um modo de ser e de pensar o mundo.

Paulo Freire não elaborou um método e sim uma teoria do conhecimento e procurou o sentido da educação centrando suas análises na relação entre educação e vida, reagindo às pedagogias tecnicistas do seu tempo. A educação, para ser transformadora, precisa estar centrada na vida e considerar as pessoas, suas culturas, respeitar o modo de viver dos sujeitos e suas identidades. Por isso, a prática educativa deve ser crítica, conscientizadora, científica, antinegacionista, antirracista, antifascista, ética e humanista. 

Pouco antes de sua morte, Paulo Freire deu o seguinte depoimento em uma entrevista ao jornalista Edney Silvestre: "Eu gostaria de ser lembrado como alguém que amou o mundo, as pessoas, os bichos, as árvores, a terra, a água, a vida". Freire não se preocupou em ser lembrado pelos livros que escreveu, pelas palestras que proferiu, pela presença marcante no mundo, pelas ideias que inspiraram tantos educadores e educadoras. Ele gostaria de ser lembrado como alguém que teve a imensa capacidade de amar.

Essa afirmação poderia não ter credibilidade, não fosse a extrema coerência entre essas palavras e a militância desse educador em favor dos oprimidos, dos esfarrapados do mundo. O amor ao qual Freire se refere se traduziu em suas obras, em suas palestras, nas suas ideias inspiradoras, na luta em favor de uma educação transformadora. E é encharcado por essa amorosidade que nós, cuja opção é o compromisso com a transformação social, devemos dar continuidade ao seu legado.

(*) Sonia Couto Souza Feitosa é mestre e doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). É autora do livro "Método Paulo Freire, a reinvenção de um legado" e coordenadora do Centro de Referência Paulo Freire do Instituto Paulo Freire.


 

Paulo Freire: necessário ao Brasil e ao mundo

Por Jason Mafra* 

 

Jason Mafra é graduado em História. Doutor e mestre em Educação pela USP. membro do Conselho Internacional do Instituto Paulo Freire(Foto: Arquivo pessoal)
Foto: Arquivo pessoal Jason Mafra é graduado em História. Doutor e mestre em Educação pela USP. membro do Conselho Internacional do Instituto Paulo Freire

“Por que Paulo Freire é necessário ao Brasil e ao mundo?”. Trata-se de uma pergunta afirmativa. Em termos acadêmicos, configuraria uma hipótese, que, uma vez demonstrada, tornar-se-ia uma tese: “Paulo Freire é necessário ao Brasil e ao mundo”. Evidenciando minha concordância com essa ideia, exponho, sucintamente, minhas brevíssimas considerações sobre a imprescindibilidade de Paulo Freire, considerando três aspectos: a) o campo da ciência; b) o campo da política; c) o campo humanístico.

Sob o primeiro aspecto, seria suficiente lembrar que, em 2018, Paulo Freire foi reconhecido como o terceiro pensador mais citado em trabalhos acadêmicos no campo das ciências sociais, no mundo. Esse estudo foi feito por Elliott Green, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, ao analisar as publicações do Google Scholar, uma das bases atuais de maior divulgação de trabalhos científicos. Dentre todos os grandes pensadores citados nas humanidades (Aristóteles, Thomas Morus, Karl Marx, Nietzsche etc), apenas o filósofo americano Thomas Kuhn e o sociólogo, também americano, Everett Rogers, são mais lidos que Freire.

Mas vale ressaltar que suas descobertas vão muito além do campo das ciências humanas. Como pesquisador da vida e da obra do pensador recifense, há mais de vinte anos, pude examinar trabalhos (especialmente teses, dissertações e artigos científicos) que tiveram a teoria de Freire como fonte, em mais de 30 áreas do conhecimento e das artes. Educação, filosofia, administração, antropologia, medicina, teatro, arquitetura, direito, linguagem, música, psicologia e meio ambiente são alguns dentre muitos outros campos onde o legado científico de Paulo Freire se faz presente.

Ainda sobre a questão científica, vale observar que o maior título acadêmico concedido por uma universidade é o de Doctor Honoris Causa. Trata-se de um título de reconhecimento dado a raras pessoas que, por sua vida e obra, produziram contribuições substanciais a algum campo do conhecimento ou da arte. Freire recebeu quase 50 Honoris Causa em universidades de todo o mundo.

No que tange à contribuição política de Paulo Freire não devemos pensá-la apenas a partir do fato de que se trata de um intelectual que sempre se posicionou no campo crítico-progressista da esquerda. A grande feitura de Freire foi demonstrar, de forma incontestável e didática, a inevitável politicidade e educabilidade de todo fenômeno social e cultural. Depois de ler Freire ninguém pode deixar de perceber que todo ato político contém uma dimensão pedagógica e toda prática pedagógica contém uma dimensão política. Assim, consciente ou inconscientemente, todas as pessoas atuam política e educativamente no mundo. Portanto, como outras dimensões na vida, não há neutralidade na educação: ela sempre funcionará para reproduzir um conjunto de valores e ideias ou para problematizá-las, colocando-se como protagonista de um outro modelo de sociedade.

Ao considerar, brevissimamente, essas duas dimensões (científica e política) em Paulo Freire, não é difícil perceber porque o eminente brasileiro tem seu nome estampado em diferentes lugares, como um dos maiores humanistas do planeta. Estátua na Suécia. Universidades, Institutos, Cátedras e centros de estudos que levam o seu nome em Portugal, França, Alemanha, Itália, Espanha, Inglaterra, Holanda, Polônia, Suíça, Dinamarca, Malta, Israel, Egito, Cabo Verde, Angola, Moçambique, África do Sul, Coreia, Japão, China, Índia, Nova Zelândia, Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, México, Estados Unidos, Canadá. Esses são alguns lugares em que o legado humanístico de Paulo Freire se faz presente.

Em todos eles, como fará o Instituto Bell Hooks-Paulo Freire, na França, nos dias 23 e 24 de setembro próximo, de uma forma ou de outra, ocorrerão as celebrações do Centenário de aniversário deste brasileiro que, como gostava de lembrar, por sua recifencidade, sua pernambucanidade, sua brasilidade, sua latinamericanidade, o fizeram cidadão do mundo.

(*) Jason Ferreira Mafra coordena o Grupo de Pesquisa Ylê-Educare: educação e questões étnico-raciais, do CNPq. É membro do Conselho Internacional do Instituto Paulo Freire. Autor de livros e artigos científicos em Educação.

CRÉDITOS

  •  Edição Érico Firmo e Regina Ribeiro
  • Reportagem Gabriela Custódio e Marcela Tosi
  • Artigos Roberta Scatolini e Sonia Couto S. Feitosa
  • Recursos Digitais Wanderson Trindade
  • Imagens Acervo Pessoal
  • Colagens da Capa Letícia Bernardo
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