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Reportagem Seriada

Automação e tecnologia: as armas contra a crise

Como a diversificação de canais de venda, digitalização de processos e padronização têm ajudado empresas brasileiras a sobreviverem à crise global da Covid-19. Este é o tema do especial que O POVO aborda neste e em mais três episódios
Episódio 1

Automação e tecnologia: as armas contra a crise

Como a diversificação de canais de venda, digitalização de processos e padronização têm ajudado empresas brasileiras a sobreviverem à crise global da Covid-19. Este é o tema do especial que O POVO aborda neste e em mais três episódios Episódio 1
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Avassaladora e sem precedentes. Talvez seja dessa forma que a crise desencadeada pela Covid-19 entrará para história, mas, no caso da economia brasileira, a pandemia também deverá ser lembrada como um divisor de águas para diversas empresas que, em meio ao caos gerado pelo vírus, foram obrigadas a abandonar métodos tradicionais de negócios e mergulhar de vez nas (nem sempre) novas tecnologias.

Neste cenário, mecanismos como automação, rastreabilidade e digitalização têm deixado de ser opção e virado necessidade para que muitos consigam reduzir custos, otimizar processos e seguir atuando em meio à crise.

A automação e a padronização de mercadorias, inclusive, é o que têm possibilitado que muitos negócios adentrem no e-commerce e consigam sobreviver à crise. Essa diversificação dos canais de venda, aliás, é apontada por 48% das empresas brasileiras como ações futuras para lidar com a realidade da pandemia, conforme revela pesquisa da Associação Brasileira de Automação-GS1 Brasil.

O estudo constata também o quão importante tem sido os mecanismos digitais para que as comercializações sigam acontecendo em um cenário de isolamento/distanciamento social, uma vez que 39% dos entrevistados afirmaram que o aplicativo WhatsApp tem sido um dos principais meios de venda, assim como a loja/varejo online (30%), as redes sociais (15%) e o marketplace (shopping virtual), citado por 12% das empresas ouvidas pela Associação. 

Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil(Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil

De acordo com Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil, organização que desenvolve e mantém os padrões mundiais mais utilizados para uma comunicação empresarial eficiente, como o conhecido código de barras, a utilização de uma linguagem padronizada em seus produtos permite que as empresas não apenas consigam se manter ativas no mercado digital, como também se comunicarem adequadamente com todos da cadeia de suprimentos e melhorarem a logística em um momento tão delicado como o da atual crise pandêmica.

"Quando as informações estão organizadas, é possível rastrear essas mercadorias em qualquer lugar do mundo. Como seria possível transitar tantos produtos sem uma linguagem única e padronizada?", questiona Virginia. Segundo ela, a GS1 Brasil possui, atualmente, 48 milhões de produtos cadastrados, o que facilita a conversa entre o varejo e a indústria nacional.

"Essa padronização é uma porta para o mundo digital e necessária para que haja uma automação. Isso é fundamental para o próprio consumidor, que tem a possibilidade de comparar, em canais diferentes, os mesmos produtos, com as mesmas características", diz.

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Aceleração da transformação
digital na pandemia

Sobre a aceleração da transformação digital desencadeada pela pandemia, a CEO da GS1 Brasil afirma que muitos negócios tiveram que se readaptar rapidamente para resistir à crise, e que essas mudanças vieram para ficar.

"Muitos estavam com isso apenas planejado e, de uma hora para outra, tiveram que se virar para conseguir sobreviver. Vimos casos de empresas que não tinham nem WhatsApp e começaram do zero. A crise veio para acelerar algo que viria a qualquer momento", conta.

"No período atual, não há espaço para quem não tem seus processos estruturados e um olhar cuidadoso para a questão do e-commerce e do marketplace, bem como uma logística organizada para ajudar no processo de entrega", complementa.

Quem também acredita que o uso da tecnologia tem sido o grande diferencial para as empresas neste momento de crise é o economista e consultor Alcântara Macedo. Segundo ele, é graças aos recursos tecnológicos que a economia tem conseguindo girar, na medida do possível, em meio às limitações impostas pela pandemia.

"Houve uma redução drástica na produção e isso gerou prejuízo às empresas ou, no caso das mais rentáveis, pelo menos uma diminuição do lucro. Neste contexto, quem teve o melhor desempenho foi aquele que utilizou a tecnologia em seu processo produtivo", opina.

Além de garantir a produtividade no atual momento, a tecnologia e os sistemas de automação, aponta Macedo, garantem maior competitividade às empresas, já que permitem agilizar a produção e reduzir custos.

"Se você não faz uso desses mecanismos, não tem como competir, pois sempre terá preços acima do mercado", destaca. Para o economista, caso as empresas utilizem a crise para abraçar de vez a tecnologia e a digitalização de seus processos, é possível que, na retomada definitiva da economia, o cenário fique ainda mais favorável do que antes.

"Quem não fizer isso, lamentavelmente, ficará pelo caminho. Quem evoluir, porém, sairá da crise mais rapidamente e verá que a competição ficará mais fácil no futuro", acrescenta.

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Não tentar nada de novo
já é assumir um grande risco

O professor André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getulio Vargas (FGV), analisa o impacto da pandemia na aceleração do uso da tecnologia pelas empresas. 

André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da FGV(Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da FGV

A automação, as novas tecnologias e tudo aquilo que temos visto sobre inovação é um processo de aceleração. A pandemia acelerou a adoção dessas tecnologias. A gente normalmente associa a tecnologia, principalmente de internet, a aumentos de receita, mas ela também é fundamental para diminuir despesas operacionais. A automação é uma parte importante deste processo, pois permite à empresa vender sem que aumente seus custos na mesma proporção.

As empresas que conseguirem se adaptar vão ficar, independentemente do tamanho, muito embora os pequenos vão sofrer mais em função das dificuldades de gerenciamento de recursos financeiros. Mas, no fim das contas, a criatividade e a capacidade de lidar com a tecnologia e a cultura de inovação vão ser fundamentais nesse processo de seleção natural.

Essa questão para os pequenos, de despertar a conscientização de que o uso da internet, do comércio eletrônico e da tecnologia são fundamentais, acho que é uma grande lição. As questões culturais que impediram empresas de se aventurar, de se arriscar, de tentar novas iniciativas com o argumento de que não precisavam se arriscar porque os negócios estavam rodando, isso se mostrou falho. Na prática, não tentar nada de novo foi assumir um grande risco.

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Empresa nasce digital
e colhe os frutos na crise

Se para muitos negócios a tecnologia virou uma necessidade de sobrevivência diante da crise, para a empresa cearense GoBag, que nasceu digital antes mesmo de a pandemia chegar ao Estado, a paralisação da atividade econômica em lojas físicas somente serviu para reforçar que o foco no mundo online foi a melhor escolha.

Lançada em janeiro, a plataforma funciona como um marketplace voltado ao segmento de roupas e acessórios, onde os consumidores, mesmo de suas residências, podem provar os itens antes de comprar.

Segundo a criadora e CEO da empresa, Nicole Hissa, a plataforma, que reúne diversas lojas com atuação em Fortaleza, funciona da seguinte forma: o cliente acessa o site ou aplicativo da GoBag, escolhe os itens que deseja provar e, após recebê-los em casa, tem 48 horas para decidir se deseja adquiri algo.

"Ao realizar o pedido, o consumidor recebe as peças no mesmo dia, sem compromisso de compra. O grande diferencial é poder provar antes de decidir, já que muitos não compram roupas online por medo de não servir", afirma.

 

Plataforma GoBag colhe roupas e acessórios em lojas e leva até consumidores para que eles possam experimentar(Foto: Divulgação)
Foto: Divulgação Plataforma GoBag colhe roupas e acessórios em lojas e leva até consumidores para que eles possam experimentar

Conforme Nicole, com a chegada da crise muitos lojistas que não tinham suas próprias plataformas online procuraram a empresa para continuarem com suas vendas. Conforme diz, o número de marcas presentes na GoBag cresceu mais de 30% após o advento da pandemia.

"Para as lojas, é interessante porque o processo de cadastramento é rápido e não precisa de investimento inicial. Elas só pagam uma comissão se, de fato, efetuarem vendas", conta. Segundo ela, o número de pedidos também tem crescido ao longo dos meses.

Como segurança para os lojistas, a GoBag também deixa pré-aprovado o pagamento dos pedidos em sua plataforma. Caso os consumidores não devolvam os itens ou violem o lacre adesivo que é colocado nas peças, o valor é automaticamente debitado.

"Enviamos nossos entregadores para pegar as mercadorias na loja, levar aos clientes e, posteriormente, recolher o que não for comprado. Caso haja algum problema, os lojistas têm a segurança de que não ficarão no prejuízo", diz Nicole. Atualmente, toda a equipe de entregadores da plataforma é formada por mulheres. "É uma forma de elas complementarem a renda", diz.

Sobre o futuro, Nicole opina que a tecnologia ganhará ainda mais importância após a crise e que o hábito de consumir online, mesmo em setores tradicionalmente presenciais, como o de roupas, tende a se tornar cada vez mais comum. "As marcas estão aumentando sua presença digital e vejo essa diversificação de canais de vendas, em e-commerce, marketplace e redes sociais, como um facilitador deste processo".

INFO - TECNOLOGIA NA PANDEMIA_Impactos da pandemia nas empresas brasileiras
Foto: Cristiane Frota
INFO - TECNOLOGIA NA PANDEMIA_Impactos da pandemia nas empresas brasileiras

 

Episódio 2 - Na série sobre automação das empresas durante a pandemia do novo coronavírus, as estratégias dos supermercados, como os serviços de autoatendimento e pagamento por proximidade

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