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Reportagem Seriada

Icaraí: paredão ineficiente e o projeto de seis espigões

Praias de Caucaia, como Icaraí e Tabuba, estão entre os piores cenários de erosão da costa cearense causados pelo avanço do mar. Administração municipal espera recursos para investir em obras mais eficientes de contenção
Episódio 3

Icaraí: paredão ineficiente e o projeto de seis espigões

Praias de Caucaia, como Icaraí e Tabuba, estão entre os piores cenários de erosão da costa cearense causados pelo avanço do mar. Administração municipal espera recursos para investir em obras mais eficientes de contenção Episódio 3
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Caucaia, na faixa metropolitana, aparece como o pior cenário erosivo na costa cearense. Foi a avaliação de todos os pesquisadores ouvidos pelo O POVO. “No monitoramento de 20 anos, o litoral de Caucaia perdeu de 400 metros a 500 metros de faixa de praia, mas na última década a agressividade dessa erosão tem se acentuado”, afirma a engenheira civil Jamilly Melo, do quadro da prefeitura do município. A praia do Icaraí está no epicentro do problema.

Jamilly Melo, engenheira civil da prefeitura de Caucaia , fala sobre o avanço do mar no Icaraí(Foto: Fábio Lima/O POVO)
Foto: Fábio Lima/O POVO Jamilly Melo, engenheira civil da prefeitura de Caucaia , fala sobre o avanço do mar no Icaraí

A avenida Litorânea, agora já quase dentro do mar, foi engolida dia a dia pelas arrebentações mais altas. O processo é até mais antigo. Há enrocamentos longos percorrendo outras praias da cidade. Como um grande paredão em Iparana, próximo à área da colônia de férias do Sesc. Data ainda do final dos anos 1980. A população lida com o trauma desse mar avançando.

No Icaraí, as barracas diminuíram, muitas sumiram de fato, e os muros de condomínios vêm sendo quase lavados pelas ondas. Um ponto de erosão chegou a seis metros do muro do Residencial Santa Isabel, que tem 92 apartamentos. A Prefeitura precisou aterrar o trecho porque não dava nem sequer para passar uma moto. Para cobrar direitos, moradores e proprietários dos estabelecimentos têm se mobilizado através do Movimento SOS Icaraí.

“São dez a 12 condomínios ameaçados. Estamos temerosos do pior. A gente está aflito, a gente está com medo de uma catástrofe anunciada aqui”, diz Alisson Paulinelli, representante dos moradores e síndico do Condomínio Super Quadra, que tem 102 famílias. Em apenas quatro residenciais (Intermares, Morada do Sol Nascente, Santa Isabel e o Super Quadra), são mais de 550 famílias protestando pela situação.

Alisson Paulinele, representante dos condomínios atingidos pela erosão causada pelo avanço do mar, na praia do Icaraí (Foto: Fábio Lima/O POVO)
Foto: Fábio Lima/O POVO Alisson Paulinele, representante dos condomínios atingidos pela erosão causada pelo avanço do mar, na praia do Icaraí

As opções adotadas pelas gestões municipais recentes vêm frustrando expectativas e necessidades. Uma das obras mais recentes na praia - e mais demoradas - foi o “Bag wall”, muro de contenção feito como paliativo para conter as ondas. Em julho de 2019, o mar voltou a esfarelar parte da estrutura. Em fevereiro do ano passado, a Prefeitura havia anunciado nova ordem de serviço para recuperar o muro, mas ele voltou a desabar.

Quando O POVO esteve no local, no final do ano passado, um trator trabalhava carregando pedregulhos numa das pontas da orla onde está o bag wall. Segundo a engenheira Jamilly Melo, seriam recompostos cerca de 90 metros do paredão desmontado. Até a conclusão do trabalho seriam despejadas 1.100 toneladas de pedras para recuperar o enrocamento. Cada rocha despejada chegava a pesar de 1 a 5 toneladas. Voltamos ao local em abril e as pedras despejadas completaram mais uma tentativa de frear a força das ondas.

Trecho com pedregulhos, construído no início deste ano, para conter o avanço do mar em direção aos condomínios residenciais e barracas da avenida Litorânea, no Icaraí. Prefeitura de Caucaia aguarda verba federal, que está contingenciada, para tentar fazer seis espigões e reconstruir a avenida(Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima Trecho com pedregulhos, construído no início deste ano, para conter o avanço do mar em direção aos condomínios residenciais e barracas da avenida Litorânea, no Icaraí. Prefeitura de Caucaia aguarda verba federal, que está contingenciada, para tentar fazer seis espigões e reconstruir a avenida

O bag wall se estende por 1.380 metros ao longo da avenida Litorânea. Sua execução começou ainda em 2010. Demorou até 2017 para ser finalizada, com algumas paralisações forçadas por questões financeiras, principalmente. Embora dinheiro não tenha faltado para o projeto acontecer. No período, foram recebidos cerca de R$ 20 milhões do Ministério da Integração. Não foi mais porque R$ 28,5 milhões continuaram contingenciados desde a transição entre os governos Temer e Bolsonaro. Até janeiro, antes da crise do coronavírus, seguiam com a liberação travada.

“Todo dia venho aqui e posto nas redes sociais. Acompanho tudo que eles fazem. Perturbo mesmo, a prefeitura sabe”, descreve Paulinelli, do SOS Icaraí. Ele é um dos que apontam que o cenário é resultado de obras de contenção feitas na Capital. “Tudo aconteceu por causa das intervenções feitas em Fortaleza. Isso já foi provado no passado”, acusa, e reclama de gestores do passado recente de Caucaia que não teriam se manifestado para a situação.

A administração municipal atual de Caucaia corre atrás dos recursos federais. Quer executar o quanto antes um projeto de revitalização da orla, já que a gula do mar aumenta. Parte das verbas pretendidas chega a R$ 135 milhões. O desenho prevê pelo menos seis espigões. De 400 metros de comprimento por 30 de largura, cada, aproximadamente.

O primeiro deverá ser montado ainda na praia dos Dois Coqueiros, os demais serão entre Iparana, Praia do Pacheco, no trecho mais desgastado do Icaraí e o sexto deles será instalado no fim da praia da Tabuba - outra bastante afetada pela erosão. Também preveem a engorda da praia por dragagem, semelhante ao método usado em Fortaleza.

Paredão reforçado no início deste ano, na tentativa de frear o avanço do mar na praia do Icaraí, enquanto a Prefeitura de Caucaia aguarda verba federal para construir espigões(Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima Paredão reforçado no início deste ano, na tentativa de frear o avanço do mar na praia do Icaraí, enquanto a Prefeitura de Caucaia aguarda verba federal para construir espigões

A avenida Litorânea deverá ressurgir no projeto. Hoje com o oceano respingando nela diariamente, a via é vítima em potencial de qualquer nova maré mais alta. Uma das propostas esboçadas prevê até 12 espigões, mas o valor dispara e a captação financeira fica mais complicada. Mesmo difícil, a ideia dos 12 também está na relação de pedidos junto a órgãos em Brasília.

O paliativo incomoda os moradores. O Movimento SOS Icaraí pede soluções mais definitivas e eficientes.“A solução aqui são os espigões. Das outras gestões, nenhum abraçou a causa de dizer que iria fazer (os espigões). Procuraram obras paliativas. Estamos esperando que recursos sejam descontingenciados para que essa obra finalmente aconteça. Porque vamos precisar disso, ou do contrário isso aqui não vai mais existir”, decreta Alisson Paulinelli.

Vale lembrar que gestões anteriores recorreram à mesma estratégia de pedir dinheiro à União e definir intervenções as mais diversas. O tempo, o vento e as marés provaram que não foram as mais apropriadas para o tamanho do problema. “Se nada for feito, a praia do Icaraí vai continuar sendo erodida, o mar atacando as estruturas urbanas. E não vai parar no Icaraí. Tabuba também está muito erodida. Tem trecho da Tabuba que já recuou 80, 90 metros. Essa erosão vai chegar no Cumbuco. Já tem fortes indícios de erosão lá, mas vai chegar com mais intensidade ainda”, aponta o professor Fábio Perdigão, da Uece .

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