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João Gabriel Tréz é repórter de cultura do O POVO e filiado à Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine). É presidente do júri do Troféu Samburá, concedido pelo Vida&Arte e Fundação Demócrito Rocha no Cine Ceará. Em 2019, participou do Júri da Crítica do 13° For Rainbow.

João Gabriel Tréz cinema&série

James Wan equilibra obviedades e surpresas no engenhoso terror "Maligno"

Descompromissada e divertida, nova empreitada do cineasta James Wan após sequência de blockbusters aposta na liberdade de linguagem ao jogar com subgêneros do terror
Tipo Opinião
Annabelle Wallis interpreta Madison, a protagonista do terror 'Maligno' (Foto: divulgação)
Foto: divulgação Annabelle Wallis interpreta Madison, a protagonista do terror 'Maligno'

Para James Wan, são mais de 20 anos de carreira dedicados, majoritariamente, a elaborar e reelaborar o gênero do terror. Do primeiro longa dirigido pelo cineasta, o menos conhecido "Stygian", em 2000, ele rapidamente se tornou um nome central no estabelecimento de universos que logo se desenvolveriam como rentáveis franquias em Hollywood: de "Jogos Mortais" (2004) a "Sobrenatural" (2010), chegando em 2013 a "Invocação do Mal". À bem-sucedida sequência de obras com direção assinada por James, somaram-se os comandos de blockbusters como "Velozes & Furiosos 7" (2017) e "Aquaman" (2018), que acabaram por reforçar o nome do cineasta junto à indústria, ainda que por outros caminhos. As grandezas de orçamento e bilheteria atingidas por Wan, porém, dão lugar à inventividade descompromissada do - em comparação - pequeno "Maligno", uma divertida montanha-russa de diferentes abordagens do terror.

Hoje, o nome de Wan pode ser encarado como mais ligado a uma ideia de terror sobrenatural, muito por conta dos impactos populares das franquias mais recentes fundadas a partir da direção dele. "Maligno", porém, reúne referências diversas tanto entre si quanto em relação à produção pregressa. Não é de se surpreender quando se vê, no Instagram, que o diretor vem compartilhando conteúdos do filme com comentários honestos como "não vá esperando 'Invocação do Mal', esta é uma besta diferente" ou "não sei bem como descrever este aqui".

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Há, ainda, outras "pistas" divididas por Wan que ajudam, ao menos, a entender a base de criação do longa: "Eu queria aproveitar essa oportunidade (entre os filmes maiores) para fazer algo um pouco diferente", escreveu ele em julho, citando referências como os italianos Mario Bava e Dario Argento, do gênero "giallo", bem como Brian DePalma, David Cronenberg, os filmes de horror em VHS dos anos 1980 e, ainda, o começo "indie" e "corajoso" da própria trajetória.

Materiais oficiais de divulgação do filme, como a sinopse, dão ênfase a um dos motes da trama: as paralisias acompanhadas de visões de assassinatos chocantes que acometem Madison, que se surpreende ao descobrir que elas não são sonhos, mas fatos. Isso, no entanto, só se estabelece na obra depois de dois "prólogos" inicialmente independentes.

No primeiro, que abre de fato o filme antes mesmo dos créditos, é 1993 e a equipe médica de um hospital com ar sinistro precisa dar conta de um paciente violento, Gabriel, que nunca é mostrado. Em um ataque, marcado por comportamentos incomuns dos equipamentos elétricos e eletrônicos do local, ele mata vários profissionais até ser controlado pela doutora Florence Weaver - não sem antes prometer vingança.

O "segundo prólogo" se passa nos tempos atuais, onde a protagonista é apresentada: uma enfermeira grávida que deseja intensamente o laço biológico após sofrer vários abortos espontâneos anteriormente. Numa discussão, o marido dela, um tipo abusivo, a responsabiliza pelas perdas dos bebês e um episódio de violência doméstica ocorre.

Estes dois cenários aparentemente desconectados estabelecem alguns dos principais pontos de partida da trama e a ação seguinte aos dois traz o primeiro cruzamento entre eles: à noite, enquanto dorme na sala, o marido de Madison é acordado por barulhos estranhos na cozinha e, depois, atacado por uma presença furtiva. Ainda de madrugada, a protagonista acorda, vê o marido morto e é também perseguida. Um corte rápido e o plano seguinte é de uma série de carros de polícia e ambulâncias indo em direção à casa.

Em menos de 15 minutos, "Maligno" cruza, em rápidas sucessões, um cenário de ficção científica, aparições sobrenaturais e uma investigação policial. No decorrer do filme, não somente essas três abordagens se mesclam e se contaminam entre si, mas também outras surgem, estabelecendo uma amálgama estilizada e excitante, singular por ser tantas de uma só vez.

Atentando-se minimamente a planos e informações aparentemente aleatórias, é possível juntar peças que já indicam caminhos pelos quais o filme irá atravessar. No entanto, ao mesmo tempo que "Maligno" não necessariamente surpreende nas viradas, os choques à medida que a trama se encaminha são inevitáveis - não somente pelos elementos mais gráficos nos quais o filme aposta, mas pela engenhosidade das decisões.

'Maligno' é o retorno ao terror de James Wan após duas incursões na direção dos blockbusters 'Velozes e Furiosos 7' e 'Aquaman'(Foto: divulgação)
Foto: divulgação 'Maligno' é o retorno ao terror de James Wan após duas incursões na direção dos blockbusters 'Velozes e Furiosos 7' e 'Aquaman'

A junção de tantas referências, ideias e abordagens pode soar desconjuntada - e é possível, de fato, questionar inúmeros "furos" de lógica estabelecidos no universo criado -, mas a experiência se impõe à "ordem". A "origem" do que ocorre ou o "mito fundante" do que vemos são tão importantes, aqui, quanto o momento em que, após uma situação de violência ocorria numa estação policial, uma profissional do local disca um número no celular e dispara: "Por que eu estou ligando para a polícia?".

O que importa, pode-se dizer, é a viagem, não o destino final. Para quem sobrevive de buscar explicações e teorias, vertente extremamente dominante na lógica da cultura pop nas últimas décadas, pode ser frustrante, mas "Maligno" prefere ser livre, instigante, provocador.

O próprio filme ri-se da busca incessante de "porquês" que marca nossos tempos. Em uma cena, uma personagem visita o prédio abandonado do hospital da abertura em busca de fichas antigas. De carro, ela estaciona justamente à beira de um precipício nos fundos do prédio e, andando pela beirada, consegue entrar.

Na instituição abandonada, repleta de poeira, escuridão e destroços, encontra a placa de informações na qual vê que o departamento de registros fica no nível subsolo, no porão. "É claro", solta, após um suspiro. A todo "por quê?" que pode alguém perguntar, "Maligno" devolve: "Por que não?".

Maligno

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