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Repórter especial e cronista do O POVO. Vencedor de mais de 40 prêmios de jornalismo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. É também autor de teatro e de literatura infantil, com mais de dez publicações.

Os famintos vão nos comer na comedeira

A comilança no "fique em casa" foi tanta que ricos e a classe média farão uma instalação artística, no Dragão do Mar, com os cupons fiscais de quem comeu mais nas quarentenas da Covid
Tipo Crônica
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Ficamos mais gordos na pandemia. A classe média e os ricos, principalmente. Se não gordos, com quilos a mais ou a sensação de que na maior parte do destroço covidário (que ainda segue na chibata) comíamos amarrados.

Foi o que se deu. Enquanto experimentamos pela primeira vez dois lockdowns e lutos antecipados, comemos pra caramba. Comemos, bebemos e compramos mais nos supermercados que não pararam de encher as burras.

Imagine se todos os mercantis e as bodegas tivessem fechado com a distopia? Qual loucura ainda maior seria dentro de quem tinha casa, comida, cama, apartamento e residências de praia e serra para atravessar a pandemia? Alguma coisa tinha de ser comida.

Fizemos assim, os homens principalmente (que só se sentam à mesa para serem servidos) passaram a cozinhar. Alguns até já sabiam e a falta da doméstica levou ao fogão ou air fryer.

 

"Quando era pivete, poucos na minha rua comiam carne de primeira. Então, comer um bife a cavalo ou um filé à parmegiana era um festival de Cannes"

 

De uma hora para outra, "chefs" bacaninhas a postar no Instagram, no Tik Tok e zap o que estavam preparando para o almoço e janta. A gente também gosta de ostentar comida, além de cachorrinhos caros que agora viraram "filhos".

Quando era pivete, poucos na minha rua comiam carne de primeira. Então, comer um bife a cavalo ou um filé à parmegiana era um festival de Cannes. E, em algum momento, soltaríamos na rua o que tinha sido a mistura. Nem ovo nem sardinha nem carne de lata, boi mesmo. Chã de dentro, patinho.

Pois bem, os vinhos também foram mais bebidos. Secos, suaves, trinta e quatro reais, sessenta, cento e pouco, brancos, tintos, promoção no Pão de Açúcar. No São Luiz é caro, mas o estoque não deu vencimento. No Cometa, que se faz de canelau e é caro também, há variações.

Os supermercados se transformaram na única praça pública permitida e o maior signo dos que podiam comer bem na pandemia. Destino para onde podíamos ir, único lugar público-privado para passear e comprar empanturrações. Comemos horrores durante a pandemia, tanto, tanto.

Meio que os mercantis viraram o antigo Passeio Público na época da invenção besta da tal belle époque por aqui. Ficou assim, durante o confinamento pandêmico: nas ruas de dentro dos supermercados apenas os passeantes que podiam encher os carrinhos ou comprar o mínimo.

Nas ruas de fora dos supermercados, miseráveis na súplica. No Passeio Público eram três níveis de rua. Um para os ricos (com vista para o mar) e outros dois para a classe média e a gentália sem acesso à abundância.

Poderíamos ter guardado os nossos cupons fiscais. Um registro histórico do quanto comemos na pandemia (principalmente no começo). Uma possibilidade de instalação artística do quanto ingurgitamos sofregamente durante o "fique em casa".

 

"Trituramos e bebemos demais na quarentena. Lagosta, ifood, comida vegana, pizza hut, camarão à provençal, el chancho. Não foi tão ruim"

 

Fiquei querendo entender por que quis escrever sobre a comilança de nós classe medianos e ricos durante a pandemia que ainda não deu o game over. Culpa? Ostentação? Soberba? Vontade de dizer que enquanto papávamos muito, uma porrada se derretia?

Comemos muito durante a pandemia, mas também doamos cestas e algum dinheiro pelo pix. Paciência, né? É a covid, é um pedaço de pão, é a lama, é seu Zé, é dona Maria, é o alvoroço do homem gritando no pé do condomínio...

Trituramos e bebemos demais na quarentena. Lagosta, Ifood, comida vegana, Pizza Hut, orgânicos, camarão à provençal, El Chancho. "Não foi tão ruim". Fora, é claro, o vírus e as despedidas sem velórios de quem poderia ainda estar por aqui para uma boa mesa.

Mastigamos e tungamos muito dentro de quem tem sala de jantar. Ficamos uns quilinhos, essas pessoas na sala de jantar preocupadas em não morrer na comedeira da covid... Como comemos!


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