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Repórter especial e cronista do O POVO. Vencedor de mais de 40 prêmios de jornalismo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. É também autor de teatro e de literatura infantil, com mais de dez publicações.

As borboletas do Cocó estão fumando

Pichação em um muro sugere outra dimensão da relação de Deus com os fiéis dentro e fora das das igrejas e cultos religiosos
Tipo Crônica
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"Jesus te odeia". Li este miniconto pichado num muro na Carlos Vasconcelos, na Aldeota, e achei espetacular. Fez-me parar o deslocamento, ficar olhando e ter dúvida na encruzilhada.

Feito um Jânio Quadros basbaque, empanquei nos pés invertidos. Até então, na literatura de muro só tinha lido "Jesus te ama", "Jesus vai voltar, arrependa-se".

Será? Fiquei pensando na igreja da Paz. Ódio e hipocrisia misturados, cristão juramentados recusando conversa e impingindo ao bispo o expurgo de um padre da paróquia política deles.

Ora, ora, tanto a neopentecostal direita bolsonarista quanto a esquerda teológica da libertação produzem narrativas políticas na homilia ou quando, simplesmente, permanecem calados.

E pode ser, nunca havia pensado no personagem Jesus Cristo (o filho, o pai e o espírito santo) odiando alguém ou a seus inimigos. Ele, talvez, deva odiar porque também é os outros.

Eu me sinto um tolo divinal, sentado no banco da igreja, fazendo de conta que lá fora o pau não está cantando. Pois bem.

 

"Não é possível que a leitura sobre 45,2 "filhos de Deus" assassinados para cada 100 mil cearenses, a maioria pobre, também não caiba na homilia da missa das 8 ou no culto"

 

Depois de muito tempo sem ir à missa, fui por causa da despedida precoce de Ana - mãe do Guilherme e irmã do Back. Um câncer. E não foi a pandemia o motivo de minha ausência na igreja. Já vinha de antes. E digo, gosto mais da dramaturgia religiosa do que das promessas do paraíso eterno.

Não é deboche, é apenas uma desconfiança com o etéreo. Como rito teatral, e precisão de andar com alguma fé, me entrego ao deleite da narrativa para qualquer religião. Menos às pregações que ignoram o chão das ruas.

Enquanto fazemos juras de amor ao próximo e arrotamos versículos do livro fabuloso que a Bíblia é, não incluímos nos sermões os números absurdos de homicídios no Ceará. É uma das ausências que sinto.

Não é possível que a leitura sobre 45,2 "filhos de Deus" assassinados para cada 100 mil cearenses, a maioria pobre, também não caiba na homilia da missa das 8 ou no culto.

"Ganhamos" até de São Paulo onde há nove homicídios para cada 100 habitantes. Isso é um dos silêncios nos sermões de qualquer religião. Ficar calado também é política.

 

"Tanto a direita bolsonarista quanto a esquerda teológica da libertação produzem narrativas políticas na homilia ou quando, simplesmente, permanecem calados"

 

Certo, os altares não são secretarias de governo. Vai-se ali para testemunhar o mistério da transfiguração do Cristo vivo. Mas ele também pede espraiamento para além do sacrário, do terreiro ou da mesa.

Ou então corre o risco de ser apenas a celebração alegórica do Sublime, que é catártica e também reage.

Esta crônica não era para ter sido ranzinza, como diz o grande Wilton Bezerra. Era para ter ido pela leveza, mas não consegui. Veio este texto.

Ia escrever sobre as borboletas do Cocó que estão fumando loucamente.

Fumando e correndo o risco de queimar as asas no Parque. Escuto-as tossir toda vida que vou lá, dá pena.

Fedem a cigarro, bebem Coca-cola, Heineken, comem McDonald, Bebelu, chupam bombons e, depois, jogam o lixo no rio e no mangue.

Elas arrotam alto o fedor, as borboletas, e querem uma capela no Parque para rezar aos domingos e cumprir suas obrigações com o Celestial.

 

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