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Repórter especial e cronista do O POVO. Vencedor de mais de 40 prêmios de jornalismo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. É também autor de teatro e de literatura infantil, com mais de dez publicações.

João Paulo ainda não voltou para casa

Tem um jeito de não haver julgamento dos PMs e do empresário que desapareceram com o frentista João Paulo, eles devolverem o moço vivo para Margarida de Sousa
Tipo Crônica
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Uma mãe que espera. Margarida de Sousa, 40, há seis anos aguarda a volta do filho João Paulo. Quando foi sumido, em setembro de 2015, o rapaz – novo e encantado, tinha apenas vinte anos de amor.

Preciso da poética emprestada porque a história é constrangedora. Por esses dias, provavelmente, o juiz da 1ª Vara do Júri de Fortaleza decidirá pelo julgamento de quatro policiais militares e um empresário, dono do posto de gasolina onde João Paulo trabalhou em Maracanaú.

O promotor Marcus Renan Palácios afirma na denúncia que o sargento PM Haroldo Cardoso da Silva, hoje com 59, os cabos Francisco Wanderley Alves da Silva, 55, Antônio Ferreira Barbosa Júnior, 51, e o soldado Elidson Temóteo Valentim, 36, "arrebataram e sumiram" com a vida do frentista João Paulo.

Esse enredo, que não era para ter ocorrido nem se João Paulo fosse um "meliante", teria sido um serviço (contam as provas) feito pelos PMs para o empresário Severino Almeida Chaves. Foram presos e, depois, soltos.

 

Parece ação da época da ditadura militar. Não foi, não. Marcus Renan, em maio derradeiro, pediu ao juiz a pronúncia dos quatro prováveis justiceiros e do empresário que flerta com o autoritarismo

 

Pelo inquérito da Delegacia de Assuntos Internos, da Controladoria Geral de Disciplina do Ceará, João Paulo foi confundido com um dos assaltantes do posto de gasolina de Severino "Ceará". E os PMs, leões de chácara do capitalista, desapareceram com o moço e sua motocicleta. Até hoje.

Os PMs e o "patrão" só esqueceram de uma câmera indiscreta testemunha na avenida Cônego de Castro, no Parque Santa Rosa, em Fortaleza. No dia 30 de setembro de 2015, quando prenderam ilegalmente o rapaz, as imagens enredaram.

Parece ação da época da ditadura militar. Não foi, não. Marcus Renan, em maio derradeiro, pediu ao juiz a pronúncia dos quatro prováveis justiceiros e do empresário que flerta com o autoritarismo. Serão julgados! Acredita Margarida de Sousa nas provas que berram no processo.

Marcus Renan está às portas de se tornar procurador de Justiça. Desde dezembro de 2019 foi promovido e, por algum inexplicável das castas do Ministério Público, ainda não deixou a 1ª promotoria do júri de Fortaleza. Talvez porque tenha de cumprir uma escrita contra o apagamento de João Paulo.

Pois bem, agora sai o repórter e vem a crônica.

Tem jeito de evitar o julgamento. Os quatro PMs e o empresário, últimas criaturas filmadas com o filho de Margarida, devolvem João Paulo vivo. Agora, com 26 anos e uma vontade imensa de reencontrar a mãe, a filha de sete anos, a esposa, o pai e a irmã.

 

É a saudade que dói latejante por ter de arrumar o quarto do rebento que todo dia, há seis anos, não volta nunca

 

E João Paulo diz por onde andou, menino! Se ariou, foi? O que fez esse tempo todo? Com quem se meteu? Por que nunca mandou um telegrama, um e-mail, uma notícia? Em que país viveu esses seis anos de exílio?

A moto? Não precisa devolver, não. Deixa para lá, se compra outra ou nem isso. Dona Margarida tinha medo de uma arte do filho. De ele sofrer no IJF com uma perna torturada, um braço em carne viva, de arrastar os joelhos no chão e sangrar...

Margarida de Sousa é uma mãe que falta um pedaço, Chico. É uma metade afastada dela. Cansada de saudade, seu pior tormento. Pior do que se entrevar e João Paulo, ali, para lhe carregar nos braços.

O filho, uma metade exilada dela, é um vulto. O marejo nos olhos ciscados. É a saudade que dói latejante por ter de arrumar o quarto do rebento que todo dia, há seis anos, não volta nunca. A saudade, porque sem adeus, um castigo. Muito pior do que o esquecimento...

 

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