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Fortaleza ainda viça aos 300 anos?
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Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações

Fortaleza ainda viça aos 300 anos?

A Cidade que não dança, morre um pouco viço e o tesão vai sendo encaretado
Tipo Crônica
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Tenho tesão pela Cidade que não tem vergonha do corpo dançante, mesmo marmotoso e sem padrões, e xiringa leite podre na cara dos caretas. Viça sim! Sóbria ou embriagada, sem encher o saco de ninguém, se bole porque é bom. É Pré-Carnaval.

Desconfio dos prefeitos que cancelam os carnavais alegando cidades fodidas por causa da falta de recursos... E algumas dessas prefeituras com históricos de cassações de políticos por parecer do Ministério Público.

Caberia, agora, uma apuração inteiriça do Ministério Público e a publicização de quais dos 62 municípios, que barraram o carnaval de 2026, têm histórico de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores cassados por corrupção!

 

"Já pensou Fortaleza sem os piscas piscas no Natal"

 

Valeria uma linha do tempo até o não-Carnaval de 2026 e mostrar o que significou para os cofres públicos uma cassação atrás da outra. E ainda traçar a árvore genealógica da corrupção.

Já pensou Fortaleza sem os piscas piscas no Natal, por que o prefeito anunciou não ter dinheiro para pagar a Enel?

Já houve um fim de ano natalino na cidade solar em que foi tímida a alumiação de praças e ruas. Uma tristeza. Não lembro a época.

Não imagino um São João sem investimentos. E pode até tersem verba, festejado nos quintais como era feito lá em casa. Terreiros passados no ciscador, fios e soquetes puxados dos galhos de pés de goiabeiras para cumeeiras e a quadrilha troando.

 

"Que nem nós com vergonha de nos bulirmos do que jeito for"

 

Milho cozido, canjica, mungunzá, bolo de macaxeira, bolo de milho e batata doce para assar na fogueira. Tinha festa, mesmo na pindaíba. A Cidade que não dança morre um pouco viço e o tesão vai sendo encaretado.

Que nem nós com vergonha de nos bulirmos do que jeito for. De mexer o pezinho, mas ter o acanhamento de se fantasiar e ir pra girar rodar.

Queria saber assim, os prefeitos e as prefeitas que cancelaram o Carnaval irão também fazer jejum de gastos durante a festa pagã? Não irão para suas casas de praia, serra ou viajarão para Olinda, Salvador, Rio de Janeiro ou Paris?

 

"E é estranho apenas o Carnaval sofrer cancelamentos"

 

Não irão mandar a ordenança encher os gelos de carnes de primeira, cerveja e uísque até a tampa? Não encherão a paceta ao lado de "correligionários" - principalmente dos machos - para falar sobre o último caso amoroso?

E, no meio da conversa, "discutir" como eleger ou derrotar Elmano? Duvideodó que não gastem dinheiro público no estiradão pagão momino.

Ora, ora! Carnaval virou negócio há 300 anos. Prefeitura descomprometida com a corrupção, lucra com a festa, com o turismo migratório, com a movimentação em dominó de uma economia formal e informal.

 

"Não quero crer nos narizes torcidos porque se trataria de um "culto" ao "imoral""

 

E é estranho apenas o Carnaval sofrer cancelamentos. Não quero crer nos narizes torcidos porque se trataria de um "culto" ao "imoral", ao não-cristão ou a qualquer outro sagrado porque as pessoas entram num torpor "profano".

Mas ainda é uma mentalidade perene da avareza histórica, com permanência de mais de 500 séculos e tentativas de destruir a imagem do indígena e do negro que já dançavam e se pintavam, mesmo antes do entrudo e da missa.

Como se alguns gestores, nos bastidores, não vivessem o que estaria fora do modelo de família de bem. Porém nem sempre cristã como o que foi prometido aos pés do altar.

 

"Em nossas testas as Cinzas e a Fumaça Purificadora de Oxum no corpo carnavalizado"
 

 

Parece que o batuque evoca, também, a festa pelo fim dos 388 anos de cativeiro indígena e negro. E há a ameaça da branquitude não se segurar e deixar que Zé Celso Martinez ressuscite e penetre as almas dos hipócritas. O samba nasceu preto, mas pode ser alemão também se carecer defenestrar racistas.

Ia escrever sobre Fortaleza que ainda viça, apesar de suas esquinas mal-cheirosas; que viça apesar das castas de privilegiados machistas...

Fortaleza, uma invenção enjambrada da pós-invasão portuguesa-e-outros-bárbaros-europeus, viça muito ainda, apesar de uma oposição política ultrapassada e seus aliados entre sequazes e oportunistas.

Fortaleza viça, ainda bem!

E Felipe Araújo, meu caro amigo do jornalismo e do samba, com os poderes da Fortaleza que viça, elejo você o prefeito da Cidade até a Quarta-Feira de Cinzas... em nossas testas e a Fumaça Purificadora de Oxum no corpo carnavalizado.

 

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