Jornalista, repórter do O POVO+ e professor de Linguagens, graduado em Letras/Inglês pelo Centro Universitário Unicesumar. Homem pansexual, foi ativista organizado do Movimento LGBTQIA+ de 2014 a 2021. Em 2020, foi um dos idealizadores do festival artístico Tomada Drag, que mais tarde se tornaria o Coletivo Tomada.
Apesar de não ter chegado oficialmente ao Brasil, Heated Rivalry é um fenômeno nas redes sociais. O que muita gente ainda está tentando entender é por que a série é tão viciante e tem deixado o público tão afoito pela pegação entre dois esportistas
Foto: HBO Max / Divulgação
Produção baseada nos livros de Rachel Reid chega ainda no primeiro semestre ao catálogo nacional da HBO Max após virar sucesso de audiência nos Estados Unidos e Canadá
Se você não estava debaixo de uma rocha nas últimas semanas, deve ter se deparado com o burburinho nas redes sociais envolvendo a nova série da HBO Max, Heated Rivalry.
A obra é uma adaptação do best-seller de Rachel Reid que conta a história de amor entre duas estrelas do hóquei, o canadense Shane Hollander (Hudson Williams) e seu rival, o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie).
O relacionamento entre eles se desenvolve a passos lentos e envolve uma série de questões de identidade, carreira, imagem pública e família.
O que muita gente ainda está tentando entender é por que a série é tão viciante e tem deixado o público tão afoito pela pegação entre dois esportistas.
Juro que estamos vendo pelo enredo
A verdade é que, além do tesão envolvido, Heated Rivalry tem uma narrativa envolvente. Shane e Ilya são seres humanos complexos, que enfrentam seus monstros e precisam entender o que significa ser um jogador profissional apaixonado por outro homem.
Eles estão inseridos em uma história bem construída, que permite aos espectadores mergulharem na história e se envolverem a níveis íntimos com os dilemas, as paixões e as controvérsias dos protagonistas.
Outro ponto importante é que escritores e roteiristas parecem ter, finalmente, perdido o medo de dar finais felizes a personagens gays.
Foto: HBO Max / Divulgação
Em Heated Rivalry, escritores e roteiristas parecem ter, finalmente, perdido o medo de dar finais felizes a personagens gays
Heated Rivalry, assim como Heartstopper (outro fenômeno de audiência, por mais que eu mesmo não goste muito), não ignoram as questões sociopolíticas que envolvem ser uma pessoa LGBTQIA+.
Entretanto, não fazem da dor e da luta a única característica inerentemente gay do personagem, e isso ativa uma certa empatia no público. Ficamos felizes quando nossos personagens favoritos estão felizes.
Uma forma diferente de viver a masculinidade
E falando em questões sociopolíticas, a obra tem um mérito muito importante nesse sentido. Ao explorar o amor e a atração sexual entre dois homens, Heated Rivalry nos apresenta homens sem medo de expressar sentimentos e vivenciar uma masculinidade que não precisa ser agressiva e estúpida.
Enquanto alguns romances ainda insistem em "homens alfa" como ideal de masculinidade, Shane e Ilya exploram o desejo e a intimidade emocional mesmo inseridos visceralmente em uma cultura machista e que os compele a ignorar essas emoções.
Isso vai de encontro a maioria das franquias cinematográficas que foram adaptadas de livros, como Crepúsculo, Ciquenta Tons de Cinza e Bridgerton, além dos livros extremamente problemáticos de Coleen Hoover, nos quais o contraste de gênero era sempre intensificado ao passo que a narrativa trabalhava para normalizá-lo.
Foto: HBO Max / Divulgação
Baseada na coleção de livros "Game Changers", da escritora Rachel Reid, a produção acompanha o relacionamento entre dois jogadores de hóquei que defendem equipes rivais
Algumas publicações como o The Guardian e o Psychology Today exploraram a correlação entre esse aspecto e o fato de muitas mulheres, mesmo - e talvez principalmente - as héteros e cis terem se tornado tão apegadas à série.
A professora de sociologia da Universidade de Southampton Lucy Neville explicou ao The Guardian que mulheres tendem a se interessar por esse tipo de narrativa porque elas contornam os desequilíbrios de gênero que estruturam a intimidade entre homens e mulheres.
Quando você remove a posição de submissão, seja social ou sexual, da figura da mulher e passa a retratar um relacionamento onde não existe uma desigualdade intrínseca, a fantasia toma conta e é muito mais fácil para elas se conectar com a história sem serem atravessadas por memórias ruins ou traumas.
Nas telas, nos rinques e no coração dos fãs
Tornar-se fã de uma série de TV, de uma saga literária ou de uma franquia de cinema também pode ser uma forma saudável de escape em tempos de estresse social e político.
Enquanto isso, à medida que mais e mais pessoas descobrem Heated Rivalry, uma comunidade de pessoas com interesses afins vai se formando, suprindo aquela necessidade inata de pertencimento.
Embora algumas pessoas acusem a série de ser "hipersexual" ou que os fãs só importem com os corpos sarados dos protagonistas, - o que não teria problema nenhum, se fosse o caso - uma parte do público é formada por fãs de hóquei, que encontram ali uma expansão do universo de interesse.
Foto: HBO Max / Divulgação
Heated Rivalry tem ajudado a base de fãs de hóquei crescer na América do Norte
Outras pessoas, que chegaram pelo romance, estão começando a se interessar pelo esporte. Um artigo do The Hollywood Reporter citou um porta-voz da National Hockey League, afirmando que nos 108 de história da Liga, esse pode ter sido o fator mais singular e mais explosivo para atração de novos fãs.
Em tempos de um conservadorismo que caminha a passos largos para banir pessoas LGBTQIA+ dos esporte, da mídia e exterminar nossos direitos, é bom saber que a ficção ainda é uma boa forma de garantir que nossas histórias serão contadas.
Heated Rivalry chega em Fevereiro no catálogo da HBO Max.
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