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A grama fake da Praça do Ferreira nos diz muita coisa
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Sou jornalista de formação. Tenho o privilégio de ter uma vida marcada pela leitura e pela escrita. Foi a única coisa que eu fiz na vida até o momento. Claro, além de criar meus três filhos. Trabalhei como repórter, editora de algumas áreas do O POVO, editei livros de literatura, fiz um mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sigo aprendendo sempre. É o que importa pra mim

A grama fake da Praça do Ferreira nos diz muita coisa

A grama artificial da Praça do Ferreira pode ser uma inovação urbanística, mas também sinaliza a dificuldade de Fortaleza em cuidar das suas áreas verdes e a tensão estabelecida entre os interesses econômicos e o bem estar da cidade pela via da preservação e expansão dessas áreas
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Grama sintética na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza (Foto: DANIEL GALBER/ESPECIAL PARA O POVO)
Foto: DANIEL GALBER/ESPECIAL PARA O POVO Grama sintética na Praça do Ferreira, no Centro de Fortaleza

A ideia partiu da minha filha que, de férias em Fortaleza, nos convidou para assistir ao filme “O Agente Secreto” no cineteatro São Luiz, na última sexta-feira. Embora já tivesse visto o filme na semana da estreia, em um cinema de shopping no ano passado, meu interesse era outro. Queria ver bem de pertinho a grama sintética da Praça do Ferreira.

Quando alguém me falou sobre a “inovação”, não atentei direito. Considerei brincadeira, coisa de meme, até que mais duas pessoas perguntarem se eu tinha visto ou lido sobre a “grama fake” da Praça do Ferreira. Uma delas até brincou dizendo que talvez a tendência fosse esta: todas as plantas das praças seriam substituídas por artificiais.

De repente, me vi numa Fortaleza imersa no colorido “Made in China” com girassóis gigantes, onze-horas, boas-noites, peônias, gerânios todos inertes; vasos onde morariam espectros de vegetação, e até altas carnaúbas, tudo ao rés do solo. Em segundos, acordei. Não, não seria possível algo assim.

Na sexta-feira, chegamos quase em cima da hora do início do filme, mas já havíamos comprado os ingressos, então seria o tempo que eu precisava para a pipoca quentinha e uma caminhada pela praça, enquanto minha filha fazia as fotos, as selfies e conversava. De longe, deu para perceber a grama feia para danar.

O verde ousado, com um toque quase agressivo mantinha a opacidade da cor mesmo sob a iluminação que encandeava a praça. Quanto mais próxima ficava, mais estranha me parecia aquela arrumação urbanística inovadora. Vi, no entanto, que do meio da grama artificial, algumas plantinhas surgiam, coitadas, talvez ludibriadas pelo tom verdejante, e se deixavam sacudir alegres ao som do vento noturno.

Nas leituras que fiz em seguida, encontrei uma nota da gestão municipal explicando a mudança do projeto. A questão central foi a “facilidade e custo da manutenção”, além de uma adequação devido aos frequentadores do lugar. Trocando em miúdos (é o que eu penso), é mais barato e quem sobrevive pelos derredores da praça não zela, então, pouco importa que a grama esteja viva ou morta. Se é assim, vamos de grama morta.

Com certa frequência, leio aqui no O POVO e O POVO+ sobre o déficit de verde em Fortaleza, sobre árvores retiradas para obras e nunca replantadas, árvores simplesmente cortadas e adeus, projetos urbanísticos com jardinagem que só existem por ocasião das inaugurações, depois, a falta de manutenção se encarrega do resto.

Já tem muito tempo que a gestão de Fortaleza, no que diz respeito aos aspectos que levam em conta o bem estar da cidade com a valorização de áreas verdes é ponto de tensão constante. A grama sintética da Praça do Ferreira é sinal dos tempos.

Ah, gente, assistir a um filme no São Luiz é outra coisa. Tem risadas espontâneas, palmas. Uma sincronia tão boa que parece uma dança. É emocionante.

Foto do Regina Ribeiro

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