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Como enfrentar o desafio de viver este 2026 cheio de IA
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Jornalista, Professora, Empreendedora social, Mestre em Educação (UFC). Nesta coluna Cidade Educadora, escreve sobre os potenciais educativos das cidades, dentro e fora das escolas

Como enfrentar o desafio de viver este 2026 cheio de IA

O que já estava ruim, vai ficar pior neste ano de eleições nacionais e eventos mundiais inundados por imagens e vídeos feitos por Inteligência Artificial
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PRIMEIRO turno das eleições está marcado para 4 de outubro. Segundo turno, se necessário, será no dia 25 de outubro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil PRIMEIRO turno das eleições está marcado para 4 de outubro. Segundo turno, se necessário, será no dia 25 de outubro

Vimos acompanhando o crescimento alarmante de conteúdos criados a partir da chamada inteligência artificial (IA).

Se, antes, já causavam grandes impactos negativos imagens manipuladas em programas de edição ou postas em contextos errados, acompanhadas de informações falsas ou distorcidas, intencionalmente produzidas para confundir ou enganar, agora, temos que lidar com imagens e videos hiper-realistas, com rostos e vozes forjados pela IA. E nenhum de nós está blindado das falsas verdades.

Todo cuidado é pouco. Jovens e idosos são os perfis de usuários mais expostos e vulneráveis a golpes, respectivamente, porque usam a internet com mais frequência e porque costumam ter menos experiência com os dispositivos tecnológicos.

Crianças, mulheres e meninas são as que correm mais riscos de terem imagens e vídeos manipulados. Nesse cenário preocupante para este ano de eleições, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) destaca ainda a atuação irresponsável e de alcance exponencial dos "influenciadores políticos", que misturam opinião, entretenimento e desinformação.

As eleições de 2018 foram muito marcadas pela difusão de desinformação em grupos de aplicativos de mensagens instantâneas. Naquela época, as informações falsas ou distorcidas já eram produzidas em escala profissional e distribuídas por influenciadores digitais em uma frequência que se tornava incontrolável.

Durante as eleições presidenciais de 2022, a disseminação de conteúdos falsos ou distorcidos foi intensificada e agravada pelas redes sociais, a partir de um número ainda maior de plataformas digitais onde tais informações circulam livremente.

Neste 2026, a inteligência artificial generativa torna todo o processo de diferenciação entre falso e verdadeiro muito mais complexo.

No dia 4 de outubro de 2026, mais de 155 milhões de brasileiros vão escolher nas urnas representantes para os cargos de deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente da República. Até lá, o Brasil se vê novamente diante de um problema que só cresce mais e mais, a cada dia: o combate à desinformação.

A IA parece ser a ferramenta perfeita diante de disfarces eficientes para conteúdos fraudulentos usados em ataques cibernéticos e postagens enganosas impregnadas de discursos de ódio, ideologias nazistas e fascistas, antidemocráticas, misóginas, racistas e homofóbicas. E elas têm se multiplicado cada vez mais nas redes, principalmente, entre os mais jovens.

De acordo com a Unesco, no contexto eleitoral, o objetivo da desinformação não é necessariamente persuadir as pessoas a acreditar que seu conteúdo é verdadeiro, mas impactar a racionalidade e a definição das prioridades do eleitor na hora de escolher seus representantes.

Nesta primeira semana do ano, explodiu a informação de que a rede social X (antigo Twitter) tornou-se um dos principais sites com imagens de pessoas que foram despidas sem consentimento pela Grok, chatbot de IA vinculado ao X. São mais de 6 mil imagens ilegais sexuais produzidas por hora em uma escala de deepfakes sem precedentes, utilizando, inclusive, imagens de crianças.

Musk tem comercializado o Grok como um lugar para a liberdade de expressão, divertido e irreverente. Uma vez publicada a imgem ilegal na rede, é difícil reverter o problema.

Não há responsabilizações à altura para a plataforma. Diante das reclamações dos usuários, o chatbot se desculpa e diz que removerá as imagens. Mas, em muitos casos, as imagens permanecem ativas e o programa continua a gerar novas violações, em poucos minutos.

As eleições deste ano serão as primeiras sob a norma do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que regulamenta o uso de inteligência artificial (IA) na propaganda de partidos, coligações, federações partidárias, candidatas e candidatos.

A Resolução do TSE 23.732/2024 foi criada nas eleições municipais de 2024 e proíbe que as campanhas eleitorais utilizem as deepfakes — conteúdos fraudulentos produzidos por IA.

A medida cria a obrigação de alerta sobre o eventual uso de IA na propaganda eleitoral, limita o emprego de robôs para mediar o contato com o eleitor e prevê a responsabilização das grandes empresas de tecnologia que não retirarem do ar conteúdos com desinformação, discurso de ódio e ideologia nazista e fascista, além de temas antidemocráticos, racistas e homofóbicos. A fiscalização popular é muito importante para esse cumprimento.

Cuidados

- É preciso nos informarmos cada vez mais e termos em mente o seguinte: hoje, qualquer rosto pode ser fabricado, qualquer voz copiada e qualquer emoção pode ser simulada. Antes de acreditar em fotos, vídeos, textos, duvide;

- Antes de agir impulsionado por pedidos que chegam pelo celular, ligue para a pessoa que pede;

- Antes de compartilhar conteúdos que você não tem certeza de que sejam reais, verifique: cheque fonte, autoria e contexto.

- Não deixe seu perfil público em nenhuma rede. Nas Configurações e Privacidade, escolha por ter seu perfil privado. No X, escolha “Audiência e Marcação”, assinale “Proteger seus posts” e “Proteger seus vídeos”. Na IA do Grok, no item “Grok e Colaboração de Terceiros”, é possível não permitir que seus dados sejam usados para treinamentos e ajustes.

Dicas para ajudar a identificar vídeos gerados por IA:

- Preste atenção em áreas como mãos, olhos, boca, cabelos, orelhas e pele. Tente perceber movimentações estranhas, robóticas, travadas e pouco habituais para humanos, como a maneira como as sobrancelhas e os olhos se movem e as assimetrias faciais muito discrepantes. Fique atento se a pele está com efeito borrachenta ou com brilho muito artificial;

- Atente para a sincronia entre a fala e o movimento dos lábios. A voz pode parecer artificial ou ter falhas de som, sem emoção, mesmo sorrindo;

- Perceba o fundo das imagens e a iluminação. Quase sempre, há várias inconsistências, bugs, pessoas com expressões estáticas, objetos borrados, distorcidos ou estranhos;

- Para fotos e vídeos, vale fazer a chamada pesquisa contrária na internet sobre os conteúdos e os lugares, para saber como eles são, de fato. A ferramenta do Google Lens, por exemplo, permite que o usuário carregue a foto na busca para encontrar seu local de origem;

- Sempre utilize o bom senso. Se a imagem ou o vídeo é muito impressionante, diz tudo o que você quer ouvir, e não foi noticiada por nenhum veículo confiável, desconfie. Sempre busque a fonte, a autoria e o contexto.

Foto do Sara Rebeca Aguiar

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