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O curioso motivo do Van Halen exigir um pote de M&Ms nos shows
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Vladimir Nunan é CEO da Eduvem, uma startup premiada com mais de 20 reconhecimentos nacionais e internacionais. Fora do mundo corporativo, é um apaixonado por esportes e desafios, dedicando-se ao triatlo e à busca contínua pela superação. Nesta coluna, escreve sobre tecnologia e suas diversidades

Vladimir Nunan tecnologia

O curioso motivo do Van Halen exigir um pote de M&Ms nos shows

Uma aula que serve não só para músicos, mas para empresas, governos, profissionais e qualquer pessoa que lide com decisões importantes
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Pote de MMs (Foto: Imagem gerada por IA)
Foto: Imagem gerada por IA Pote de MMs

Em algum momento da vida, quase todo mundo já ouviu alguém dizer que “isso é só um detalhe”. A frase costuma aparecer quando algo parece pequeno demais para merecer atenção.

Um formulário mal preenchido. Uma instrução ignorada. Uma regra que parece exagero. O problema é que, na prática, são justamente esses detalhes que costumam separar o que funciona do que dá errado.

Uma das histórias mais curiosas e didáticas sobre isso vem do mundo da música. Mais especificamente, de uma das maiores bandas de rock da história: Van Halen. O episódio envolve um contrato, um show, uma estrutura gigantesca e um simples pote de M&Ms sem doces da cor marrom.

À primeira vista, parece apenas uma excentricidade de artistas famosos. Mas, quando se entende o contexto, essa história se transforma em uma verdadeira aula sobre atenção, responsabilidade e prevenção de riscos. Uma aula que serve não só para músicos, mas para empresas, governos, profissionais e qualquer pessoa que lide com decisões importantes.

Uma história que parece piada, mas não é

Durante o auge da carreira do Van Halen, nos anos 80, a banda realizava turnês gigantescas pelos Estados Unidos. Não eram shows simples. Eram eventos complexos, com palcos enormes, sistemas de som avançados para a época, iluminação pesada, estruturas suspensas e uma quantidade enorme de equipamentos elétricos.

Para garantir que tudo funcionasse com segurança, a banda exigia contratos técnicos extremamente detalhados. Esses contratos tinham dezenas de páginas, com especificações minuciosas sobre energia, montagem, peso suportado pelo palco, posição de cabos e dezenas de outros itens críticos.

No meio desse documento técnico, havia uma cláusula curiosa. Ela dizia que, no camarim da banda, deveria haver um pote de M&Ms, mas sem nenhum doce da cor marrom.

Durante anos, essa exigência virou piada. Muita gente acreditava que era apenas mais um capricho de artistas mimados, daqueles que pedem coisas absurdas só para mostrar poder. A verdade, no entanto, era muito diferente.

O raciocínio por trás do pedido

A ideia partiu do vocalista David Lee Roth. Ele explicou, anos depois, que o pedido dos M&Ms não tinha nada a ver com gosto pessoal. Era um teste.

O contrato técnico era longo e complexo. Se a equipe local tivesse lido tudo com atenção, certamente também teria lido a cláusula dos M&Ms. Se o pote estivesse correto, era um bom sinal de que o restante do contrato também tinha sido seguido.

Se houvesse M&Ms marrons no pote, aquilo acendia um alerta imediato. Significava que o contrato não tinha sido lido com cuidado.

E se um detalhe simples foi ignorado, havia grande chance de que itens muito mais importantes, como carga elétrica e segurança estrutural, também tivessem sido negligenciados. Ou seja, o doce não era o problema. Ele era apenas um indicador.

Quando um detalhe evita um desastre

Esse cuidado não era exagero. Em algumas ocasiões, quando a banda encontrava M&Ms marrons no camarim, eles decidiam revisar toda a estrutura do show antes de subir ao palco.

Em pelo menos um caso relatado por David Lee Roth, essa revisão extra revelou problemas sérios na montagem, incluindo erros na capacidade elétrica do local. Erros que poderiam causar falhas no equipamento, choques elétricos ou até acidentes graves com a equipe e o público.

O que parecia frescura, na verdade, ajudou a evitar situações perigosas. Um pequeno detalhe serviu como um alarme silencioso.

O que essa história ensina fora do mundo do rock

Pode parecer uma história distante da vida comum, mas o ensinamento é extremamente atual e aplicável. Em qualquer área, quando um processo é complexo, não dá para confiar apenas na aparência de que “está tudo certo”.

Empresas lidam diariamente com contratos, normas, leis, protocolos de segurança e processos internos. Governos trabalham com políticas públicas, licitações, regras técnicas e impactos sociais. Profissionais de saúde seguem protocolos que salvam vidas.

Engenheiros calculam estruturas que precisam suportar peso real, não apenas teórico. Em todos esses casos, ignorar pequenos detalhes pode gerar consequências enormes.

O perigo da cultura do “depois a gente vê”

Um dos grandes problemas do nosso tempo é a pressa. Tudo precisa ser rápido. Tudo precisa ser resolvido logo. Ler um contrato inteiro parece perda de tempo. Conferir uma instrução completa parece exagero. Questionar um processo parece burocracia.

Essa mentalidade cria um ambiente perfeito para erros. O detalhe ignorado hoje vira o problema grave de amanhã.

A história do Van Halen mostra exatamente o contrário. Ela ensina que processos bem feitos exigem atenção, paciência e responsabilidade. Não é sobre desconfiar das pessoas, mas sobre criar mecanismos que ajudem a identificar falhas antes que elas causem danos.

Pequenos testes revelam grandes verdades

O pote de M&Ms funcionava como um teste simples, rápido e eficaz. Não exigia uma auditoria complexa. Bastava olhar para o camarim.

Esse tipo de lógica é usado hoje em diversas áreas. Em empresas, por exemplo, há processos de verificação que parecem simples, mas revelam muito sobre a cultura organizacional.

Um e-mail respondido fora do prazo. Um relatório entregue incompleto. Um procedimento de segurança pulado. Tudo isso são sinais. Eles indicam se as regras existem apenas no papel ou se realmente são levadas a sério.

O custo de ignorar sinais

Ignorar sinais costuma sair caro. No mundo corporativo, isso pode significar prejuízos financeiros, falhas operacionais e perda de confiança. No setor público, pode resultar em desperdício de recursos, obras mal executadas e riscos à população.

Na vida pessoal, os sinais também existem. Um aviso médico ignorado. Um comportamento repetido que indica problema. Uma relação que mostra sinais claros de desgaste. Nem sempre o problema aparece de uma vez. Ele vai se anunciando aos poucos. O erro não está em não perceber tudo. Está em perceber e escolher ignorar.

Atenção não é paranoia, é responsabilidade

Existe uma diferença importante entre atenção e paranoia. Atenção é cuidado consciente. É entender que processos existem por um motivo. Paranoia é ver risco em tudo sem critério.

O Van Halen não desconfiava de todos os produtores. Eles criaram um método simples para verificar se o combinado estava sendo cumprido. Isso não atrapalhava o show. Pelo contrário. Garantia que ele acontecesse com segurança.

No dia a dia, adotar esse tipo de postura pode evitar problemas enormes. Conferir antes de assinar. Ler antes de aceitar. Perguntar antes de confiar. São atitudes simples, mas poderosas.

O Brasil e a cultura do improviso

No Brasil, existe uma valorização cultural do improviso. Muitas vezes, isso é positivo. A criatividade brasileira resolve problemas difíceis com poucos recursos. Mas, quando o improviso substitui o planejamento, os riscos aumentam.

Obras feitas sem projeto adequado. Sistemas implantados sem testes suficientes. Decisões tomadas sem análise completa. Tudo isso gera retrabalho, desperdício e, em casos extremos, tragédias.

A história do pote de M&Ms serve como um lembrete importante. Planejamento e atenção não são inimigos da criatividade. Eles são aliados da segurança e da eficiência.

O que cada pessoa pode aprender com isso

Você não precisa organizar um show internacional para aplicar essa lição. Ela funciona em qualquer escala.
Se você é gestor, crie formas simples de verificar se processos estão sendo seguidos:

- Se você é profissional, leia com atenção o que é sua responsabilidade.
- Se você é consumidor, desconfie quando tudo parece simples demais.
- Se você é cidadão, questione quando regras são tratadas como exagero.

Detalhes não existem para complicar. Eles existem para proteger.

Quando o detalhe vira símbolo

O pote de M&Ms sem doces marrons virou símbolo porque traduz uma ideia complexa de forma simples. Ele mostra que, em sistemas grandes, não dá para confiar apenas na boa intenção. É preciso método.
Hoje, essa história é usada em cursos de gestão, liderança, engenharia e segurança. Não por causa da banda em si, mas pelo raciocínio por trás da decisão.

O aprendizado que fica

No fim das contas, a grande lição não é sobre doces, contratos ou rock. É sobre responsabilidade. Sobre entender que decisões pequenas fazem parte de sistemas maiores. E que, muitas vezes, é o cuidado com o simples que evita o caos.

Em um mundo cada vez mais acelerado, onde tudo parece urgente, prestar atenção pode parecer perda de tempo. Mas, como mostra essa história, atenção é investimento.

Conclusão

O episódio do Van Halen e dos M&Ms marrons não é uma curiosidade vazia. Ele é um alerta elegante e eficaz sobre como lidamos com regras, processos e responsabilidades.

Ignorar detalhes não nos torna mais eficientes. Nos torna mais vulneráveis. Questionar, verificar e conferir não é falta de confiança. É maturidade.

Talvez o maior ensinamento dessa história seja este: quando alguém cria uma regra aparentemente estranha, vale a pena perguntar o porquê antes de rir dela.

Muitas vezes, ali está escondida uma lógica que pode evitar problemas muito maiores. E, no fim, como mostra um simples pote de doces, o detalhe quase sempre importa mais do que parece.

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