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Adeus aos pendrives e HDs? O que está por trás do armazenamento em vidro
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Vladimir Nunan é CEO da Eduvem, uma startup premiada com mais de 20 reconhecimentos nacionais e internacionais. Fora do mundo corporativo, é um apaixonado por esportes e desafios, dedicando-se ao triatlo e à busca contínua pela superação. Nesta coluna, escreve sobre tecnologia e suas diversidades

Vladimir Nunan tecnologia

Adeus aos pendrives e HDs? O que está por trás do armazenamento em vidro

Este artigo explica, de forma simples, o que é essa tecnologia, por que ela está sendo criada, como funciona e o que realmente podemos esperar dela nos próximos anos
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Imagem ilustrativa de apoio (Foto: Pexels/Get Lost Mike)
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Durante décadas, a forma como guardamos informações mudou várias vezes. Já foi em papel, em fitas magnéticas, em disquetes, em CDs, DVDs, cartões de memória, HDs externos e pendrives. Cada nova tecnologia prometia mais espaço, mais segurança e mais durabilidade. Agora, uma nova promessa começa a ganhar espaço nos laboratórios e nas notícias: o armazenamento de dados em vidro.

A ideia parece saída de um filme de ficção científica. Guardar fotos, vídeos, documentos e até grandes bases de dados dentro de pequenos pedaços de vidro quase indestrutíveis, capazes de resistir ao tempo, ao calor, à água e até à radiação.

Mas essa tecnologia já está sendo desenvolvida e testada por grandes empresas, como a Microsoft, e pode mudar completamente a forma como a humanidade preserva sua memória digital.

Este artigo explica, de forma simples, o que é essa tecnologia, por que ela está sendo criada, como funciona e o que realmente podemos esperar dela nos próximos anos.

O problema atual do armazenamento de dados

Vivemos na era dos dados. Todos os dias, bilhões de fotos são tiradas, vídeos são gravados, mensagens são enviadas, sistemas são atualizados e informações são geradas em escala gigantesca. Empresas, governos, universidades e pessoas comuns produzem dados o tempo todo.

O problema é que os meios atuais de armazenamento têm limites claros. HDs e SSDs, por exemplo, duram alguns anos. Com o tempo, podem falhar, perder dados ou se tornar obsoletos.

Pendrives e cartões de memória são práticos, mas frágeis. CDs e DVDs se degradam com o passar do tempo. Servidores em nuvem consomem energia constantemente e exigem manutenção permanente.

Além disso, há um custo ambiental elevado. Data centers consomem enormes quantidades de energia e precisam ser resfriados o tempo todo. Manter dados armazenados por décadas ou séculos é caro, complexo e pouco sustentável.

Diante desse cenário, surgiu uma pergunta importante: como guardar informações por muito tempo sem depender de energia constante e sem o risco de perda?

A ideia de guardar dados em vidro

Foi buscando responder a essa pergunta que pesquisadores começaram a desenvolver o armazenamento de dados em vidro. A proposta é simples na ideia, mas complexa na execução: usar vidro como meio físico para gravar informações digitais de forma permanente.

O vidro é um material extremamente durável. Ele não enferruja, não se decompõe facilmente, resiste ao calor, à água e ao tempo. Há objetos de vidro com milhares de anos que ainda permanecem intactos.

Se o ser humano já conseguiu preservar mensagens em pedra e papiro por séculos, por que não usar um material moderno e resistente para preservar dados digitais?

Essa lógica levou ao desenvolvimento de tecnologias que gravam informações dentro da estrutura do vidro, em escala microscópica.

Como funciona o armazenamento de dados em vidro

Ao contrário de um pendrive ou HD, o vidro não armazena dados por meio de eletricidade ou magnetismo. A gravação acontece através de lasers extremamente precisos, capazes de criar pequenas marcas dentro do vidro.

Essas marcas não ficam na superfície. Elas são feitas em camadas internas, em diferentes profundidades. Cada ponto gravado pode representar informações, como zeros e uns, que são a base da linguagem digital.
Essa técnica permite gravar dados em três dimensões, não apenas em uma superfície plana. Isso aumenta muito a capacidade de armazenamento em um espaço pequeno.

Em testes realizados, pequenos pedaços de vidro do tamanho de um porta copos conseguiram armazenar grandes quantidades de dados, como filmes, livros, documentos e bases inteiras de informação.

Por que o vidro é considerado quase indestrutível

Um dos principais diferenciais dessa tecnologia é a durabilidade. O vidro usado nesses experimentos é projetado para resistir a condições extremas.

Ele suporta temperaturas muito altas, submersão em água, exposição à luz intensa e até a certos níveis de radiação. Isso significa que os dados gravados podem durar centenas ou até milhares de anos sem se degradar.

Diferente de HDs e SSDs, o vidro não precisa estar conectado à energia para preservar as informações. Uma vez gravados, os dados ficam ali, intactos, sem custo de manutenção.

Por isso, essa tecnologia é chamada por muitos de armazenamento de longo prazo ou armazenamento para a eternidade.

O projeto da Microsoft e a memória do mundo

A Microsoft desenvolveu um projeto conhecido como Project Silica, cujo objetivo é exatamente criar um sistema de armazenamento em vidro para preservar grandes volumes de dados por longos períodos.

A empresa já realizou testes bem sucedidos, gravando filmes completos, documentos históricos e grandes arquivos em pequenos pedaços de vidro. Em um dos testes mais conhecidos, foi armazenado um filme inteiro do Superman em uma placa de vidro.

O foco inicial desse tipo de tecnologia não é o uso doméstico. Ela foi pensada para arquivos históricos, dados científicos, registros governamentais, acervos culturais e informações que precisam ser preservadas por gerações.

Museus, bibliotecas, universidades e instituições públicas são alguns dos possíveis usuários desse tipo de armazenamento no futuro.

Isso significa o fim dos pendrives e HDs? Não tão cedo. Apesar do entusiasmo, o armazenamento em vidro ainda não é uma tecnologia pronta para o dia a dia das pessoas. O processo de gravação exige equipamentos sofisticados, como lasers de alta precisão. A leitura dos dados também requer sistemas específicos.

Além disso, essa tecnologia não é indicada para dados que precisam ser alterados constantemente. O vidro funciona melhor como um cofre de memória, não como um espaço de edição contínua.

Pendrives, HDs, SSDs e nuvem ainda continuarão sendo usados para tarefas cotidianas, como trabalho, estudo e entretenimento. O vidro entra como complemento, não como substituição imediata.

Um novo jeito de pensar sobre memória e tempo

Talvez o aspecto mais interessante dessa tecnologia não seja técnico, mas cultural. Pela primeira vez, a humanidade começa a pensar seriamente em como preservar sua memória digital para um futuro distante.

Hoje, muitas fotos, textos e registros importantes se perdem porque os formatos ficam obsoletos ou os dispositivos deixam de funcionar. Quantas pessoas ainda conseguem abrir arquivos gravados em disquetes ou CDs antigos?

O armazenamento em vidro levanta uma reflexão importante: o que queremos que o futuro saiba sobre nós? Quais histórias, pesquisas, obras culturais e registros merecem ser preservados por séculos?

Impactos ambientais e energéticos

Outro ponto relevante é o impacto ambiental. Data centers consomem energia o tempo todo para manter dados ativos. O armazenamento em vidro, por não depender de energia contínua, pode reduzir significativamente esse consumo no caso de arquivos de longo prazo.

Isso não resolve todos os problemas ambientais da tecnologia, mas aponta para um caminho mais sustentável no cuidado com grandes volumes de dados.

Guardar menos dados ativos e mais dados arquivados de forma permanente pode ser uma estratégia importante no futuro.

Quem controla essa tecnologia?

Como acontece com toda grande inovação, surge também uma preocupação legítima: quem controla os meios de armazenamento da memória coletiva?

Se grandes empresas concentram as tecnologias capazes de preservar dados por séculos, é fundamental discutir governança, acesso, transparência e diversidade de vozes. Preservar a memória do mundo não pode ser tarefa de poucos.

Esse debate ainda está no começo, mas será cada vez mais necessário à medida que essas tecnologias avancem.

O vidro como símbolo de uma nova era

Curiosamente, o vidro sempre teve um papel simbólico na história humana. Ele separa, protege, revela e preserva. Agora, passa também a guardar memórias digitais.

Não é exagero dizer que essa tecnologia muda a escala do tempo da informação. Saímos de dispositivos que duram alguns anos para suportes que podem atravessar séculos. Isso muda a forma como pensamos sobre legado, história e responsabilidade.

O que vem pela frente

Ainda levará tempo até que o armazenamento em vidro se torne comum. Os custos precisam cair, os processos precisam se tornar mais acessíveis e os padrões precisam ser definidos.

Mas o caminho já está sendo traçado. O vidro não veio para guardar fotos de férias ou trabalhos escolares do dia a dia. Ele veio para guardar aquilo que não pode ser perdido. Arquivos históricos, dados científicos, registros culturais e memórias da humanidade.

Conclusão

A ideia de dizer adeus aos pendrives e HDs pode soar exagerada, mas o surgimento do armazenamento de dados em vidro indica algo maior: estamos entrando em uma nova fase da relação entre tecnologia e memória.

Não se trata apenas de guardar mais dados, mas de guardá-los melhor, por mais tempo e com mais responsabilidade.

O vidro não substitui tudo o que usamos hoje. Mas ele aponta para um futuro em que a informação não será tão frágil quanto os dispositivos que a carregam.

Talvez, daqui a centenas de anos, alguém encontre um pequeno pedaço de vidro e, dentro dele, descubra quem fomos, o que pensamos e como vivemos.

Se isso acontecer, essa tecnologia terá cumprido um papel que vai muito além da inovação. Terá ajudado a humanidade a lembrar.

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