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"As pessoas não vão deixar de usar máscara porque se vacinaram"

Gerente da Vigilância Epidemiológica de Fortaleza explica que regras de distanciamento e uso de equipamento de proteção individual continuarão, provavelmente ao longo de 2021 inteiro, mesmo após aplicação de vacina contra o coronavírus
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Antonio Silva Lima Neto é médico, com pós-doutorado pela Universidade de Harvard, em Boston, Estados Unidos, professor do curso de Medicina da Unifor e gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde de Fortaleza desde 2009 (Foto: TATIANA FORTES - 07/02/2020)
Foto: TATIANA FORTES - 07/02/2020 Antonio Silva Lima Neto é médico, com pós-doutorado pela Universidade de Harvard, em Boston, Estados Unidos, professor do curso de Medicina da Unifor e gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde de Fortaleza desde 2009

A primeira fase da pandemia do coronavírus, iniciada em março de 2020, que teve seu ápice entre abril e maio, acabou criando um muro imunológico dentro da Capital. Bairros que sofreram mais naquele momento mais dramático e desconhecido, agora estão separados e aproveitando-se de uma barreira natural neste segundo ciclo epidêmico atual. Mas não se sabe até quando essa barreira vai durar, até quando essa parede invisível será favorável, segundo o gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica de Fortaleza, Antônio Lima Neto.

Ele é um dos membros do Comitê Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus, que tem definido semanalmente as regras de distanciamento social. O epidemiologista diz que uma das preocupações neste cenário é não deixar que essa grande parede de imunidade apresente fissuras e deixe o vírus voltar a se espalhar na Capital. A entrevista foi concedida pouco depois de ele sair de mais uma das reuniões. O governador Camilo Santana, que coordena o grupo, anunciou mais uma prorrogação do decreto de medidas restritivas. As festas carnavalescas de 2021, por exemplo, foram proibidas

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No momento, metade dos casos registrados na segunda onda tem acometido jovens, entre 20 e 39 anos, moradores de um cinturão de bairros nobres da cidade. Grupos que voltaram a circular e se aglomerar em  "eventos superdisseminadores" (festas, praias, confraternizações). Esse perfil e essas áreas têm se mostrado as mais suscetíveis à Covid-19 de agora. Mas o aprendizado com os protocolos de atendimento e a própria faixa etária também estariam contribuindo para amenizar o agravamento. A segunda onda começou a ser notada a partir de outubro nas curvas estatísticas. Os gráficos têm mostrado casos avançando mais que óbitos, descoladamente. "Felizmente", atenua o epidemiologista.

Antônio Lima Neto lembrou do episódio em que estava no supermercado e ouviu um homem ao lado dizer que deixaria de usar a máscara tão logo fosse vacinado. "Não vai ser assim. Até o segundo semestre as pessoas têm que entender, muito provavelmente até o fim do ano, que todo mundo no Brasil vai ter que usar máscara, vai ter que se proteger com álcool gel". 

Ele defende mais respostas públicas sobre a pesquisa que desenvolveu a CoronaVac. Vê uma boa eficiência anunciada da vacina do Instituto Butantan, de 78%, mas acha que ainda há números do estudo que precisam ser exibidos. Alerta que a quadra chuvosa que se aproxima, de fevereiro a maio, trará mais atenção para outras enfermidades também muito graves. Por exemplo, a dengue tipo 2 - que após 12 anos sem circular no Ceará, é um risco que pode acontecer simultaneamente ao quadro da Covid-19.

Perfil

Antonio Silva Lima Neto é médico epidemiologista e pós-doutor pela Universidade de Harvard. Também é gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza e professor do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor).

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A seguir, a íntegra da entrevista:

O POVO - Desse quadro atual da Covid-19 em Fortaleza, o que hoje é mais temerário para as autoridades sanitárias, para o controle epidemiológico?
Antônio Lima Neto - A gente está lançando nosso informe epidemiológico, o primeiro de 2021, em que a gente faz uma análise desse momento em Fortaleza. Que tem características que são parecidas com o que está acontecendo em outros locais, e diferentes em relação a outros aspectos.

O POVO - Por exemplo?
Antônio Lima - Fortaleza viveu, a partir de outubro, um novo crescimento de casos. Um crescimento mais lentificado, provavelmente porque tem uma barreira imunológica. Essa segunda onda do ciclo epidêmico é mais lentificada porque não pega uma população totalmente suscetível. Mais ou menos na primeira semana de outubro você conseguia perceber a tendência de aumento. Começou a aumentar em outubro, aumentou em novembro, em dezembro aumentou e flutuou. São casos, em sua maioria, de jovens. Temos hoje quase 50% de casos novos, a partir de outubro, nessa segunda fase do ciclo epidêmico, que são pacientes entre 20 e 39 anos. Se incluir de 40 a 59 anos, aí vai para próximo de 77%. Quase 80% dos casos. Essa segunda fase do ciclo se deu muito com pacientes jovens. E outro tema que a gente traz nesse novo boletim é que (o novo ciclo) está muito circunscrito a algumas áreas da cidade.

O POVO - Quais são essas áreas da cidade?
Antônio Lima - Essas áreas deste segundo momento parecem um pouco com a do início da pandemia (em março). São os bairros de alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da Regional 2. A gente pega o conglomerado de Aldeota, Meireles, se estende ao Mucuripe, chega ao Cocó, Cidade 2000, Papicu e em alguma medida ao Guararapes. Esse grande núcleo de bairros, que foi quem se protegeu em maior intensidade na primeira fase, o isolamento social de fato foi mais intenso ali. Você tem maior proporção de pacientes suscetíveis e isso explica um pouco o fato de estar ali e o fato de você ter identificado aglomerações de jovens e eventos disseminadores. Você entra em casamentos, festas, batizados, uma série de situações, que são chamados de eventos superdisseminadores. É um tema muito discutido no mundo inteiro.

O POVO - Na primeira fase, você até já falou sobre isso, foram dois casamentos apontados como disseminadores. Nesse momento agora são muitas festas.
Antônio Lima - No momento inicial de outubro você teve microssurtos, cadeias de transmissão nessas áreas que mencionei, que em determinado momento se encontraram e impulsionaram esse aumento de casos. O curioso é que quando você analisa os óbitos eles não têm esse padrão. A média móvel de óbitos, diferente de Manaus - que já apresentou uma explosão de óbitos -, ou mesmo de Belém e Recife, que também estão flutuando, o que a gente observa nos óbitos aqui é um aumento com um lapso temporal, sendo a partir de novembro apenas. Mas num nível muito menor que o observado quanto ao número de casos. Enquanto nos casos nós tivemos um pico entre novembro e dezembro que representa quase 40% do ápice da epidemia, na transição de abril para maio, quando se analisa a segunda fase do ciclo epidêmico, nas mortes não foi assim. Ficou em torno de 5%, comparado com o pico de 90 mortes. O que quero dizer com isso? Que há um descolamento entre casos e óbitos. Ou seja, nós aumentamos casos, mas não aumentamos na mesma proporção, felizmente, o número de óbitos. Há várias explicações que têm sido levantadas. Desde o melhor tratamento, a população mais afetada é mais jovem, tem menos risco de complicação. Tem uma série de questões discutidas.

O POVO - Essa aceleração de casos no País todo, a segunda onda, tem uma causa muito específica? Ou já era esperado? E apareceram as confirmações da variante britânica e agora da variante sulafricana. Isso também está no radar de vocês?
Antônio Lima - Tem uma questão interessante quando se fala em segunda onda no Brasil. As cidades e os Estados brasileiros tiveram uma primeira fase cicloepidêmica muito diferente. Tanto em magnitude quanto em relação a temporalidade. Vou citar algumas: Fortaleza, Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro. Na primeira fase, foram as cidades mais afetadas. Em especial Fortaleza e Manaus, em termos de escala, porque estivemos no olho do furacão logo no início. Por isso louvo muito a resposta que foi possível dar diante do que aconteceu. Tanto do Governo do Estado como da Prefeitura Municipal. Todos que estavam envolvidos ali, sobretudo quando você analisa a dificuldade de apoio operacional que teve em relação à coordenação nacional mais robusta, a gente fez ali o que foi possível. Que era aumentar a escala, aumentar muito a assistência, aumentar os testes. Hoje essa discussão de segunda onda no Brasil é muito variável. Vou dar um exemplo: Porto Alegre. A primeira onda de Porto Alegre foi baixa. Imagine uma onda no mar, ela não foi muito elevada. O que significa isso: que a proporção de suscetíveis provavelmente é muito maior, em tese. Em Porto Alegre ou em Belo Horizonte ou em locais que tiveram ondas epidêmicas em menor escala, a segunda onda pode ser maior do que a primeira.

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O POVO - A gente teve na primeira onda um vírus circulante com uma cepa específica no Ceará. Isso tá acontecendo também?
Antônio Lima - A gente não tem evidências. O que se tem de evidência em relação à nova variante, que foi sua pergunta anterior, é que ela é mais contagiosa, a britânica. Mas foi mais contagiosa lá, na Grã-Bretanha. Mas, por exemplo, não há até hoje, mesmo nos locais que têm sequenciamento genético muito fácil, na Europa inteira, não há evidência de que ela esteja circulando com intensidade. Como na França, que é separada pelo Canal da Mancha. A nova variante é mais contagiosa, hoje responde por mais da metade dos casos da Grã-Bretanha, sobretudo da Inglaterra, não da Grã-Bretanha toda - que também inclui Escócia e País de Gales. Pode ser mais contagiosa, mas ainda não se expressou, pelo menos documentadamente em outro país com esse vigor.

O POVO - Hoje está batendo recorde de óbitos lá.
Antônio Lima - Exatamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, não sequenciou a nova variante, que bateu recorde com mais de 4 mil óbitos (na quinta-feira, 7). E não há nenhuma informação confiável que nos diga que parte desses óbitos são causados pela nova variante. Essa epidemia tem muitas incertezas. Ao mesmo tempo em que essa cepa se mostrou mais contagiosa e mais veloz na Grã-Bretanha, não há ainda certeza sobre a capacidade dela de progredir em escala global. Se você ler tudo que tem, mesmo na literatura científica ou leiga, nenhum outro país fez um documento oficial para a OMS (Organização Mundial da Saúde) dizendo que a nova variante circula com intensidade.

O POVO - Está muito localizada ainda?
Antônio Lima - Muito localizada. Hoje nós temos em São Paulo, dois casos, e agora a nova variante sulafricana em Salvador. Acho que, por enquanto, estamos tendo episódios isolados, mas que ainda não têm dominado o cenário epidemiológico. Se você perguntar, hoje, o que está no radar da gente, Secretaria Municipal? O que está no nosso radar principalmente, neste momento, é a questão da imunização. Porque nosso radar é esse. Até porque hoje a Pfizer está divulgando, de resultados preliminares, mostrando que a vacina dela protege contra a nova variante. Todos os vírus mutam várias vezes, alguns deles centenas de vezes, mas isso quer dizer que aquela mutação na proteína Spike, a que se liga à célula humana, ela não foi suficiente para anular a capacidade dos nossos anticorpos sobre a vacina estimuladora de reproduzir a defesa adequada. Ou seja, ele mudou, mas não o suficiente para nos enganar completamente.

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O POVO - Então qual é a projeção epidemiológica para Fortaleza? Você fala da concentração acontecendo ainda na Regional 2, nos bairros nobres. Onde será a próxima disseminação dentro da cidade? Você fala sempre de um crescimento linear...
Antônio Lima - Hoje a gente observa que está estacionando, mas todo mundo se preocupa quando se tem aumento de casos. O aumento está aqui hoje, mas ele pode se expandir. Por que não se expandiu ainda? Nós já estamos em janeiro. O crescimento de casos foi identificado no início de outubro. Se tivéssemos a mesma muralha imunológica na cidade toda, ele teria progredido para a cidade toda. Concorda?

O POVO - A repercussão das aglomerações de Natal e Ano Novo ainda não está nesse primeiro boletim.
Antônio Lima - Ainda não está. A previsão é que apareça após 14 dias. O boletim da semana que vem. Assim que a gente analisou a fase de transição, protocolo de flexibilização, a gente analisa pelo menos 15 dias antes. Isso que estou lhe falando hoje é uma tentativa de analisar espacialmente a segunda fase do ciclo epidêmico de Fortaleza. Onde ele se localizou e qual era o perfil da população mais afetada. A nossa tentativa é de mostrar que esse novo ciclo epidêmico estava localizado numa população específica e que a gente tem que ter todos os cuidados para que não deixar que se expanda.

O POVO - Qual a positividade dos casos, segundo o novo boletim?
Antônio Lima - Hoje estamos com uma positividade de 22% (22 casos confirmados para 100 exames realizados). É ainda alta, mas tem algumas questões, que já comentei em boletim anterior, que é a lentificação de resultados. Por que acontece? Nesse final de ano, os dois feriadões juntos (Natal e Ano Novo) somaram oito dias, quinta a domingo. Nossas unidades, postos de saúde, estavam fechados. A gente estava com as UPAs. Todos os 116 postos de saúde de Fortaleza coletam Swab (exame que detecta a presença do coronavírus), todas as UPAs coletam Swab, mas isso não significa que o laboratório siga o mesmo ritmo da assistência. O laboratório tem a sua escala, pode ter represado exame, pode ter demorado aguardando triagem. E a população também procura menos nesse momento. Um caso leve que eu procure numa segunda-feira, posso não procurar no sábado. Preferi esperar o dia útil. Há vários aspectos ainda embutidos no cenário epidemiológico não só de Fortaleza. No Brasil todo, que sofre ainda interferência dos feriados na propagação do vírus.

O POVO - Agora é momento de aplicar medidas restritivas mais duras, mais rígidas?
Antônio Lima - Esse debate se faz no Comitê (Estadual de Enfrentamento à Pandemia do Coronavírus). Faço parte do comitê, então a minha opinião foi para o comitê, que é quem vai deliberar sobre isso. O que nós podemos avaliar no cenário de hoje é que é ainda indefinido e que sugere cautela. Ou seja, eu não estou em momento de rever o decreto anterior, de abrir mais. Acho que isso não estará no radar.

O POVO - E tornar mais rígido? É possível que aconteça?
Antônio Lima - Aí é o debate do comitê. Não posso falar aqui.

O POVO - Questão de confidencialidade.
Antônio Lima - Mas tem a situação da vacina que eu faço questão de comentar. Está havendo um oba oba sobre a vacina que eu não acho legal. As pessoas têm que entender que vacinação de Covid tem uma outra lógica. Essa não vai ser uma vacinação de campanha de sarampo, em que você vacina 10 milhões de pessoas num dia. Não vai ser assim. Por que não vai ser assim? Porque em todo o Brasil, além de ter grupo prioritário, você tem uma série de questões envolvidas quanto à segurança da vacina e dos profissionais. É muito provável que você não distribua capilarizadamente para todo posto. Porque você não vai ter segurança adequada. É uma vacina nova, que tem sofrido muito com boatos, fake news. A gente tem que entender que é progressivo, que a imunidade não cai do céu de um dia pro outro, que as pessoas não vão deixar de usar máscara porque se vacinaram. Isso tá todo mundo falando: "quero minha vacina para jogar essa máscara fora". Ontem um cara tava no supermercado dizendo isso. E isso não vai acontecer. Até o segundo semestre as pessoas têm que entender, muito provavelmente até o fim do ano, que todo mundo no Brasil vai ter que usar máscara. Todo mundo no Brasil vai ter que se proteger com álcool gel. Não vai ter vacina para a população como um todo. E se tiver, você vai atingir a imunidade aos poucos. Isso é gradual. Tem acontecido um debate na Europa. Tá a maior confusão na França, pela lentidão da vacinação. Porque é uma vacina congelada, a da Pfizer. Por isso que não ia dar certo aqui. Por isso que as pessoas ficavam pedindo a da Pfizer, a gente que trabalha mais diariamente com isso sabia que era inviável. A vacina da Pfizer hoje no SUS é inviável.

O POVO - É cara e difícil de manter, acondicionar.
Antônio Lima - Não só porque é cara. O problema é como você acondicionar. A gente vai montar um plano, e tenho certeza que a gente tem muito know-how no Brasil. Na verdade, a gente ficou atrasado nesse plano de vacinação por um equívoco. Nós temos o programa mais robusto de vacina do mundo. O programa brasileiro de imunização é o melhor do mundo. Em termos técnicos é o mais robusto, o mais capilarizado. Essa vacina coronavac, que foi apresentada, a gente tem que aguardar os números. Ainda faltam números. Ali foi dada uma eficácia, a gente precisa conhecer melhor. Foi dado desfecho secundário de internação, mas não foram dados, por exemplo, os números da eficácia. Foi 78%, mas quantos se infectaram no grupo com placebo? Quantos se infectaram entre os vacinados? Foi 100% de eficiência contra hospitalização. Quantos adoeceram no grupo que não foi vacinado? Você precisa dessas informações. Tem um artigo da (microbiologista) Natália Pasternak discutindo isso. Por que isso não foi divulgado? Isso precisa ser divulgado.

O POVO - Essa politização é um risco muito grande?
Antônio Lima - Essa politização é um equívoco. Você tem que apresentar as coisas de maneira tranquila, transparente. A CoronaVac, 78% é bom. É muito bom, para uma vacina que trabalha com vírus inativado, que não é congelada. Que de certa forma é mais fácil para nós disseminarmos para a população, é uma eficácia bastante razoável. E um detalhe que não sei se todo mundo notou. Foi até um infectologista paulista que mencionou: se você se vacina e de jeito nenhum vai ser internado - pode até ter a doença, mas não vai ser internado - aí sim, vai ser uma gripezinha. Depois que eu estiver vacinado. Porque por enquanto é a doença mais letal que nós já tivemos. Então tem várias questões relacionadas à vacina que precisam ser melhor entendidas pela população: primeiro, que não vai ser de um dia pro outro; segundo, que não vou deixar de usar máscara, terceiro, que as medidas de isolamento vão continuar; quarto, que as aglomerações vão estar impedidas pelo menos até o fim do ano. No primeiro semestre, indiscutivelmente não haverá aglomeração estimulada pelo Poder Público de jeito nenhum. Os eventos ainda serão limitados. Porque você tem que construir o quê? A imunidade coletiva, a imunidade de rebanho. Se acreditava que doença dava imunidade de rebanho sem cobrar um preço. Taí Manaus que não nos deixa mentir, que tá agora vivendo um novo ciclo.

O POVO - A quadra chuvosa, que começa em fevereiro, tem alguma situação favorável para a disseminação do coronavírus?
Antônio Lima - A quadra chuvosa não tem para Covid, mas é uma preocupação nossa. Porque em toda quadra invernosa (que vai até maio), qual o monitoramento principal da Secretaria da Saúde de Fortaleza em termos epidemiológicos? Arboviroses e síndromes gripais. Dengue, chikungunya menos agora. Depois leptospirose e leishmaniose. Leptospirose é a urina do rato que está ali no alagamento. É uma doença não tão frequente, embora muito letal. O que tem agora que aumenta todo ano? Síndrome gripal. O que precisaremos ser capazes de fazer? Diferenciar. A gente tem que monitorar. Com mais rigor. Porque vai ter outros vírus respiratório, adenovírus, as amidalites tradicionais etc. E também vai ter Covid. Embora a Covid não necessariamente se sazonalize. Tem um estudo que diz que muito provavelmente em 2022, e se achava antes que era em 2021, o Sars-Cov2 seria um vírus sazonal, daqueles que aparecem com as chuvas aqui, com o frio em São Paulo. Que ele se sazonalizaria. Porque hoje ele não é, já que provoca um surto no verão do Oriente Médio. Isso nunca foi imaginado por nenhum epidemiologista: que um vírus respiratório pudesse provocar uma epidemia aos 40 graus Celsius. Eu mesmo era um que dizia que aqui teríamos um surto, que o surto de Covid ia ser limitado pela temperatura. E não foi. É um vírus muito complexo. Acho que a quadra invernosa é uma preocupação por isso. Porque além das arboviroses, além da necessidade de a gente monitorar a possível reintrodução da dengue tipo 2 - ele já não circula em Fortaleza já há 12 anos - já existe uma população suscetível a ele. Foi um vírus que circulou no resto do Brasil em 2019. O nosso planejamento da quadra invernosa em Fortaleza inclui a síndrome gripal. Não é Covid, são síndromes gripais e que pode estar incluída a Covid.

O POVO - Com esse cenário, a rede hospitalar suporta até quando?

Antônio Lima - Acho que não mencionei, mas esse é um tema que tem sido muito debatido por nós. As notícias de aumento de internação na rede privada, a gente não sente ainda na rede assistencial pública. A gente não tem sentido. Se pegar uma série histórica, você tem uma flutuação bem discreta de demanda por internação na rede pública de pacientes de Covid. Isso não é a mesma coisa para a rede privada. É como se tivesse um muro imunológico maior nas áreas mais afetadas no início. Esse muro é mais alto. Qual é a nossa tarefa? Não deixar rachaduras nesse muro. Não deixar como o vírus do sarampo faz, que encontra os suscetíveis. Ele sai procurando. O vacinado ele salta, até encontrar a pessoa que não é vacinada. Nossa tarefa nesse momento é impedir que o vírus se propague para as áreas mais vulneráveis. E por enquanto a gente está conseguindo, pelas ações e sobretudo também por essa barreira que a gente não sabe até quando durará. Nesse momento, o que posso dizer é da situação assistencial do município de Fortaleza, e na rede dedicada ao Covid junto com o Estado. Há todo o arcabouço de hospitais do Estado que trabalham conosco em Fortaleza: Hospital Leonardo DaVinci, Hospital de Messejana. E também o IJF 2, que tem se dedicado de maneira muito importante. O IJF 2, em determinado momento da pandemia mais grave, em maio, segurou uma barra. Teve um momento que a gente chegou, acho, a 80 leitos de UTI-Covid. A rede assistencial tem que estar adequada ao momento que vivemos agora. Se esse momento mudar, a gente tem que mudar. É mais ou menos assim que funciona a rede assistencial. Aqui no Ceará foi construído um SUS-Covid. Ia desde a unidade básica de saúde, passava pelas UPAs e chegava aos hospitais. Se necessário, essa rede Covid tem que se montar novamente. Acho que a gente tem capacidade hoje, que não é a ideal, mas é a melhor que nós já tivemos em relação a isso.

O POVO - Então, de toda essa lista de situações da pandemia, qual é a preocupação que vocês mais estão priorizando? Aqui já sem considerar Carnaval, que não deverá acontecer (proibida da festa já foi anunciada na tarde desta sexta-feira, 8, em decreto governamental).
Antônio Lima - Carnaval, não haverá. Acho que é o que apresentamos no boletim epidemiológico. A gente tem uma circulação viral intensa em áreas da cidade, onde existem aglomerações intensas, sobretudo de jovens. E nossa maior preocupação é que o vírus tenha a capacidade de se dispersar para as outras áreas da cidade. A gente tem que tentar conter a transmissão. Claro que os dados precisam ser revistos, mas parece que está meio que flutuando. Ainda pelo fato de não ter tantos exames do final de ano liberados, a gente não sabe em que momento nós estamos nesse segundo ciclo epidêmico, mas nossa maior preocupação é que tivesse uma dispersão maior do vírus que pudesse atingir as faixas etárias de maior risco. Por isso que a vacina tem que correr com os grupos prioritários. É como se fosse uma contenção. Minha preocupação maior é esta e a outra, já lhe disse, que sou um grande fã de máscara. O uso da máscara é uma das coisas mais importantes. Por isso que realmente me causa repugnância quando vejo pessoas fazendo apologia pelo não uso da máscara ou questionar a importância do isolamento social. O desafio que nós temos é que as normas continuem a ser cumpridas. É uma guerra de comunicação, tá acontecendo no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa...A gente tem que estar lutando para fazer valer o que a ciência indica que seja o mais adequado. É nossa grande luta no momento. As pessoas estão cansadas, tendem às vezes a relativizar a importância, aí a gente tem que aguentar a barra até a vacina. Mais uma vez mencionar: construção de imunidade vacinal é longa, sobretudo com vacinas que têm duas doses. Essa vacina tem duas doses. Vamos entender isso e saber que vai ser difícil, mas as regras de distanciamento e uso de equipamento de proteção individual continuarão.

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