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São João Paulo II, o papa peregrino, completaria hoje cem anos de nascimento

Figura que mudou o rumo da história da Igreja Católica no século XX, papa João Paulo II completaria hoje 100 anos de vida. Peregrinação, aproximação da juventude e alinhamentos políticos conservadores marcam sua trajetória
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João Paulo II cumprimenta fieis em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 1991: segunda das três visitas que fez ao Brasil (Foto: WILSON PEDROSA/AE)
Foto: WILSON PEDROSA/AE João Paulo II cumprimenta fieis em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 1991: segunda das três visitas que fez ao Brasil

O papa peregrino, uma das figuras mais influentes do século XX, aquele que renovou a imagem da Igreja Católica e virou símbolo de paz e benevolência. Assim ficou marcado na memória de muitos fiéis mundo afora o agora santo, papa João Paulo II, que neste 18 de maio completaria 100 anos. A vida, atravessada por atuação política marcante e pelo carisma com que conduziu a Igreja Católica, também foi pontuada por aspectos controversos.

O POVO refaz a rota do papa por Fortaleza. Confira:

 

 O polonês Karol Wojtyla, filho mais novo de uma família de três irmãos, que aos 20 anos já havia perdido todos os entes do núcleo familiar, foi ordenado padre em 1946. A esta altura, findada a Segunda Guerra Mundial, Karol já havia sido obrigado a largar os estudos na Universidade Jaguelônica, fechada por nazistas, e passado a se dedicar a trabalhos braçais. Os encalços o levaram a busca da fé.

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Em 1967, já com dois doutorados, fluente em 12 línguas, tendo escrito duas contribuições ao Concílio Vaticano II, Karol, o então arcebispo de Cracóvia e forte figura de oposição ao governo soviético, foi promovido pelo papa Paulo VI ao Colégio de Cardeais. Onze anos mais tarde, em 16 de outubro de 1978, iniciou seu papado - sendo o primeiro papa não italiano em mais de quatro séculos -, que durou por quase 27 anos e foi o terceiro mais longo da história.

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Para o padre Antônio Furtado, sacerdote consagrado na Comunidade Católica Shalom de Fortaleza, o pontificado do papa João Paulo foi para Igreja Católica um "divisor de águas". Ele relembra a tradição que se impunha aos sumos pontífices de permanecer em Roma, dentro dos muros do Vaticano, e de como já no discurso inicial João Paulo II mostrava que faria diferente.

"Não tenham medo! Abram, sim, abram de par em par as portas a Cristo!", estas foram as primeiras palavras como chefe da Igreja de Pedro, e este tom determinou seu pontificado. "Depois, ele começa a visitar país, após país", indica padre Antônio, que hoje guarda relíquias do santo (uma gaze com sangue de uma das suas cirurgias, um pedaço de uma de suas batinas, e recortes do tapete em que ele pisou no Aeroporto de Fortaleza e da toalha que cobriu o altar em que ele celebrou a missa na Capital).

A peregrinação foi marca de João Paulo II: o pontífice visitou 125 países e realizou 982 encontros com chefes de Estado, o que não foi arrefecido nem mesmo quando em 1981 ele sofreu um atentado a bala e teve a saúde fragilizada. Em 1982, ele justificou as viagens dizendo que se tratavam de um exercício de "carisma de Pedro em escala universal". "Se viajo e vou até as pessoas, encontro-me com muitas delas, tanto pessoas simples quanto políticos. E elas me ouvem. Senão, jamais viriam até mim", disse.

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"Eu diria que a visita do papa ao Brasil (ele esteve em três visitas oficiais) e a tantos países foi um verdadeiro avivamento. Os católicos não tinham costume de ir às ruas, a não ser nas procissões de padroeiros, mas não se via multidões, milhões de pessoas reunidas em missas públicas, transmitidas pela televisão. Então, o alcance midiático foi muito grande. Ele conseguiu entrar em lugares em que, normalmente, não se entrava e isso despertou também os católicos para a necessidade da evangelização pelos meios de comunicação. O Brasil foi um grande exemplo disso, que hoje tem vários canais de televisão católicos, redes de rádio, o surgimento de novas comunidades", detalha padre Antônio.

Atração de jovens fiéis para renovar a Igreja e a criação da Jornada Mundial da Juventude são legados apontados pelo padre, e que fizeram do papa uma figura tão celebrada. Quando morreu, em 2 de abril de 2005, há 15 anos, os católicos o aclamaram como "Santo Subito", pedindo sua imediata beatificação, que acabou por ser realizada em tempo recorde, por seu sucessor, papa Bento XVI. Já a canonização, dada por papa Francisco, completa seis anos este ano.

"A vida de São João Paulo II é um exemplo, então celebrar os 100 anos, para nós, é trazer de volta à memória das novas gerações a vida de um homem que incentivou que a Igreja saia para evangelizar", afirma padre Antônio. Diácono da missa que o papa celebrou em Fortaleza, padre Gilson Soares aponta "a comunicação, o acolhimento e o diálogo com outras religiões, o crescimento de comunidades, a dimensão missionária e cristã" como frutos da vida de São João Paulo II. "O povo despertou não só a religiosidade, mas o ser o cristão. Foi muito marcante para todos nós".

 

Virgílio Távora com o papa João Paulo II em Fortaleza.
Virgílio Távora com o papa João Paulo II em Fortaleza.

Fortaleza recebeu João Paulo II há 40 anos; multidão foi às ruas para ver

Foi decretado feriado, e mesmo que não o fizessem, a Cidade pararia. Nas beiras das calçadas, tendo montado quase camarotes em frente às casas, de lenços nas mãos e olhares curiosos, ávidos por enxergar uma nesga que fosse da tez muito rosada do papa, cearenses de diversas cidades estiveram à espera do papamóvel. Era 9 de julho de 1980, e João Paulo II, papa há apenas dois anos, chegava à Fortaleza, penúltimo destino das 13 cidades brasileiras que visitou, para uma passagem de apenas 30 horas que mudou a vida de muita gente.

O céu ainda era só breu, quando Margarida Maria Feliciano de Lima, com então 15 anos, chegava, deixada pelos pais, no Castelão, que era inaugurado. Chegar tão cedo era medida para evitar tumultos - que realmente aconteceram, com o arrombamento de um dos portões, em que três mulheres morreram pisoteadas. Estudante do Colégio Juvenal de Carvalho, Margarida foi escolhida entre tantas outras meninas para apresentar uma dança ao papa, num estádio lotado por mais de 120 mil pessoas. Era uma das muitas homenagens, naquela manhã, que ainda teve Luiz Gonzaga e entrega de presentes.

"Foi uma emoção inexplicável. Eu vejo muito como uma escolha de Deus na vida ter participado desse momento muito lindo. Todos queriam pegar nele e estar perto. Aquele Castelão lotou não para ver um homem, mas para buscar o amor de Deus", conta.

Leigo praticante na comunidade da Paróquia Nosso Senhor do Bonfim Parangaba, Antonio Marcos Ferreira de Aquino, 46, tinha oito anos e lembra da carreira que deu até a avenida Dedé Brasil - hoje Silas Munguba - para ver o papa. O menino foi se esgueirando até achar lugar entre a multidão bem na hora que o carro, que passava devagarzinho, a 20 km/h, indo Castelão para o Seminário da Prainha, estivesse bem na sua frente. "No exato momento em que eu cheguei, ele estava virando o rosto na minha direção. Acho que naquele ponto da avenida eu era a única criança. Ele baixou os olhos na minha direção, viu a criança, e fez o sinal tradicional da cruz. E eu pude olhar o rosto dele", relembra a emoção que o acompanha até hoje e que o faz devoto.

A missa de mais tarde, no lado de fora do Castelão, reuniu 1,2 milhão de pessoas e marcou a abertura do X Congresso Eucarístico Nacional. Um grito em uníssono ainda ecoa na cabeça de padre Gilson Soares, pároco da Paróquia de Nossa Senhora das Graças Manoel Sátiro. "'A benção, João de Deus' era o que aquela multidão repetia", conta. Padre Gilson tinha 32 anos e somente há dois era padre, mesmo tempo de papado de João Paulo II, e foi lhe dada a missão de ser diácono da missa presidida pelo sumo pontífice. "Eu estava do lado direito do papa, eu proclamei o evangelho, eu estava ali assessorando o papa no altar. A lembrança forte que tenho é de (que ele tinha) muita simplicidade e uma atenção para com todos", conta.

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Escolhido por dom Aloísio Lorscheider, então arcebispo de Fortaleza, para representar a juventude, Moysés Louro de Azevedo Filho tinha 20 anos quando viu o papa e lhe entregou uma carta em que ofertava a própria vida e sua juventude. Ele se propunha, naquele momento, "evangelizar os jovens, especialmente os mais distantes de Cristo e da Igreja". Moysés relembra que se ajoelhou, entregou a carta e, mesmo tendo preparado algumas palavras, nada conseguiu dizer. "Lembro-me dos olhos do papa olhando para mim, transpassando o meu coração. Era como se ele me dissesse: 'não se preocupe, não precisa dizer nada. Em nome de Cristo, acolho a tua oferta!' Ele me abraçou, tocou minha face e me abençoou! Posso dizer com convicção: esse encontro mudou minha vida". Dois anos depois, Moysés fundou o projeto que se tornou a Comunidade Católica Shalom.

Confira fotos da passagem do papa João Paulo II por Fortaleza em 1980:

 

Vanderlúcio Souza, seminarista em estágio Pastoral pela Arquidiocese de Fortaleza na Paróquia São José, em Canindé.
Vanderlúcio Souza, seminarista em estágio Pastoral pela Arquidiocese de Fortaleza na Paróquia São José, em Canindé.

Geração João Paulo II

Era 9 de julho de 1980. Meus pais moravam em Morrinhos, na localidade de Poço Branco. Grávida de 8 meses de mim, na garupa da bicicleta pilotada por meu pai e com meu irmão no quadro, aquela família foi até a sede da cidade para acompanhar a Santa Missa presidida por São João Paulo II, em uma das poucas televisões que existiam na cidade.

Foi um dia lindo de acordo com a minha mãe. Segundo ela eu vibrei no seu ventre. Até hoje ela guarda um souvenir daquela visita ilustre ao nosso Estado. A cena dele beijando o chão ao chegar na capital cearense também marca sua memória.

Para minha mãe ali, no seu ventre, sob a benção do sumo pontífice, nascia minha vocação. Hoje sou seminarista da Arquidiocese de Fortaleza, em estágio pastoral. Cresci no pontificado deste grande santo e certamente integro a Geração João Paulo II que traz tantos ensinamentos marcantes como o apreço pela nova evangelização, destemor diante dos desafios e o amor filial à Sempre Virgem Maria, a quem Sua Santidade consagrou seu pontificado.

Vanderlúcio Souza, seminarista em estágio Pastoral pela Arquidiocese de Fortaleza na Paróquia São José, em Canindé.

 

Missa

Ontem, papa Francisco anunciou que celebraria uma missa pelo centenário de São João Paulo II: "Amanhã de manhã, às 7 da manhã (2 horas de Brasília), celebrarei a Santa Missa, que será transmitida para todo o mundo, no altar onde repousam seus restos mortais. Do Céu ele continua a interceder pelo Povo de Deus e pela paz no mundo".

 

Duas músicas foram compostas para a passagem de João Paulo II pelo Brasil em 1980; relembre

"Obrigado, João Paulo" foi uma canção composta por Luiz Gonzaga e pelo padre Gothardo Lemos. “A bênção, João de Deus", do compositor Paulo Roberto. Relembre as letras:

"Obrigado, João Paulo"

De longe viestes
Pra estar no Nordeste
No meu Ceará
Teu gesto tão nobre
No rico e no pobre
Não se apagará
Da fé, peregrino
Ao Pastor Divino
Vieste adorar
Trazendo ao meu povo
Fervor todo novo
Pra Deus mais amor
João PauloII
De Deus, grande graça
O povo te abraça
Em ti, ver Jesus
Feliz te agradece
Por o visitares
E a Cristo adorares
Na terra da luz
Há séculos sofrendo
Rigor mais tremendo
De um clima feroz
O povo suporta
A fé nos conforta
Deus luta por nós
Se fica, padece
Se parte, entristece
Mas mostra o valor
De quem na pobreza
Descobre a riqueza
Da fé no Senhor
João Paulo II...
Na tua passagem
A minha homenagem
Filial no Senhor
A terra sofrida
A mim tão querida
Beijaste com amor
Também eu te beijo
Meu maior desejo
É beijar tua mão
E fazer-te de veras
Promessas sinceras
De amar sempre o irmão
João Paulo II...
A tua visita
É graça bendita
Pro povo cristão
É felicidade
Privar da amizade
Do teu coração
Pastor muito amado
De amor nosso brado
A Deus levarás
E a Roma voltando
Saudades deixando
Entre nós ficarás

“A bênção, João de Deus"

A bênção, João de Deus
A bênção, João de Deus
Nosso povo te abraça
Tu vens em missão de paz
Sê bem-vindo
E abençoa este povo que te ama!

A bênção, João de Deus!
João Paulo, aqui estamos
A família reunida
Em torno de ti, ó Pai
Reafirmando
A esperança no amor que une a todos!

 

A agenda do papa João Paulo II no Ceará

A visita do papa João Paulo II ao Brasil, em 1980, durou 12 dias (de 30 de junho a 11 de julho) e percorreu 13 cidades, sendo a penúltima delas Fortaleza. Veio ao Ceará após passagem a Teresina, no Piauí. O pontífice chegou na manhã do dia 9 de julho e partiu no dia 10, com destino a Manaus - onde encerrou sua visita ao País no dia 11. Nas ruas de Fortaleza, percorreu 74 quilômetros, sendo 25,6 km no papamóvel, veículo aberto, andando com velocidade média de 20 km/h, e os demais em um ônibus.


8 de julho

Centenas de pessoas se aglomeram nas proximidades do Castelão, onde o papa seria homenageado em um show, e formam fila para entrar no estádio, que abriria os portões somente no dia seguinte, às 6 horas da manhã.


9 de julho

O dia foi decretado feriado nas repartições públicas e mais de 5 mil agentes de forças de segurança fizeram a segurança do comboio papal, da multidão que o seguia, e organizaram o trânsito. Por ocasião de um arrombamento de um dos portões de acesso ao Castelão, três mulheres morreram pisoteadas e centenas de fiéis ficaram feridos, nas primeiras horas da manhã.


9h42min - Chegou em Fortaleza, no Aeroporto Pinto Martins, que teve as pistas interditadas a partir das 8h30min. No desembarque, beijou o solo de Fortaleza. Foi recepcionado por várias autoridades, como comandante da Base Aérea, Dilson Lira Castelo Branco, o secretário da Casa Civil Cláudio Santos, dom Aloísio Lorscheider, e o governador Virgílio Távora e dona Luiza Távora


9h53min - Partiu em comboio, a partir do portão da base aérea, na Borges de Melo, percorrendo a BR-11, por 10 km, em direção ao Castelão, passando pelo Quarto Anel Viário - chamada à época de via Paranjana.


11h - Era esperado o início para às 10h, mas o evento atrasou. O papa foi homenageado no Castelão, recebido por uma multidão com lenços brancos e amarelos. Uma multidão de mais 120 mil pessoas assistiu dentro do estádio a homenagem. João II foi saudado por dom Aloísio

Luiz Gonzaga deveria cantar apenas o baião "Obrigada João Paulo II", mas emendou também a canção "Asa Branca". 34 violeiros também cantaram versos ao papa. Uma jangada em miniatura, uma viola, um chapéu de couro, e um peixe fossilizado foram alguns dos presentes que o papa recebeu.


12h - Deixou o Castelão pela via Parajana, acessa a José Bastos, segue na Carapinima, até a Tristão Gonçalves. Acessa a Duque de Caxias, segue pela Dom Manuel, com destino o residência arquiepiscopal, no Seminário da Prainha. A Praça Cristo Redentor foi interditada. A chegada foi à 13h05min.


Repouso e almoço no residência episcopal


15h25min - Deslocamento de volta ao Castelão, em velocidade 60 a 80 km/h e em carro fechado.


16h - Cerimônia de abertura do X Congresso Eucarístico Nacional, na parte externa do Castelão. Papa falou para cerca de um milhão de fiéis. Na homilia, o papa falou "daqueles que, por razões diversas, devem abandonar a sua terra de origem e transferir-se para outras regiões", ressaltando o sofrimento dos imigrantes.


19h54min - Retorno ao Seminário da Prainha


21h30min - Jantar com bispos


Dia 10 de julho

8h30min - Deslocamento em carro fechado para o Centro de Convenções, passando pela avenidas Monsenhor Tabosa, Antônio Justa, Estados Unidos, Antônio Sales, Engenheiro Santana Júnior, Raimundo Cela, e Antônio Jucá


9h2min - Encontro com bispos no auditório do Centro de Convenções. O encontro serviu para que o papa ouvisse os bispos e repassasse suas impressões do que viu da Igreja, após catorze dias no Brasil. Os relatos dos bispos foram de que o papa apoiou as ações da CNBB e pregou pelo apoio e o serviço aos pobres.


12h15min - Retorno ao Seminário da Prainha


13h - Deslocamento para o Aeroporto, passando pela avenida Aguanambi. No aeroporto, participou de uma breve cerimônia de despedida


16h15min - Decolou em avião com destino a Manaus

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