Flores, obras expostas, homenagens, salva de palmas e gritos de “Viva, Zé”. O velório de Zé Tarcísio neste sábado, 10, foi preenchido pela sensação de despedida, mas eternizado pelo sentimento de gratidão.
Realizado na Multigaleria do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), velório reuniu amigos, familiares, artistas e autoridades políticas para o adeus a um dos maiores nomes das artes plásticas do Ceará e do Brasil.
Zé Tarcísio morreu na madrugada de sexta-feira, 9, aos 84 anos. O artista que “levou o Ceará para o mundo” traduziu expressões a partir de materiais, matizes, formas e traços. Eterno sonhador e com alma de menino, não parou de produzir arte. Muito menos deixou de tocar corações.
Veja também o webdoc | Zé Tarcísio, casado com a arte
A prova desse cenário foi observada com clareza da manhã até a tarde de sábado. Compareceram ao velório nomes como a secretária da Cultura do Ceará, Luisa Cela; a secretária da Cultura de Fortaleza, Helena Barbosa; Inácio Arruda, Izolda Cela, Vando Figueiredo, Carlos Macêdo e Tiago Santana.
Na Multigaleria do Dragão do Mar, foram exibidos vídeos que mostravam a trajetória e atuação artística de Zé Tarcísio. Falas compartilhadas entre os presentes demonstraram que sua importância não se resumia à sua obra. Era também exaltado por sua bondade e “iluminação”.
Após a missa, uma forte salva de palmas ecoou pela sala, confirmando a força de Zé Tarcísio reverberada nos presentes. Gritos de “viva, Zé!” deram o tom final da despedida. Por meio de sua obra e de quem permanece, o cearense seguirá vivo.
Filha de Zé Tarcísio, Harumi Shimizu Ramos ressaltou o legado “imensurável” deixado por ele. Artista plástica, afirma que seu pai tinha muita influência sobre sua arte, sempre dando conselhos de como progredir.
Harumi mora no Japão, mas conseguiu passar o Natal em Fortaleza com o pai. Antes de ir embora, em 30 de dezembro, ouviu dele que gostaria que viajassem para o Egito juntos em 2027 - e, se desse tempo, para a Europa também.
“Meu pai tinha muitos planos e sonhos. Sonhava em plantar abacaxis nas dunas da Taíba. Falou tanto que fui obrigada a conhecer as dunas pelas quais se encantou. Fez tantos planos para elas… Cheguei a viver esse sonho, mas agora o idealizador se foi”, compartilha.
Um dos sonhos era o “Recreio dos Artistas”, espaço que ficaria na Taíba para que artistas visitassem. “Mesmo não tendo contato físico, trocávamos muito sonhos e muitas informações. Era um convívio muito bom, saudável”, resgata.
Para Harumi, Zé Tarcísio deixou como referências a “sede de justiça e de querer fazer o certo”, abordando temas como política e ecologia. Ela trabalha com vidro e, a partir de sua arte, tenta poluir menos o meio ambiente, se inspirando em seu pai.
Leia também | Exposição celebra 65 anos de carreira do artista Zé Tarcísio
“Quando as pessoas me davam os pêsames no velório, eu falava: ‘Meus pêsames para vocês também, porque vocês perderam um amigo, um artista’. E vamos nos esforçar para que isso tudo não se perca no tempo e se torne moinhos de vento. Vamos tentar manter o nome, a obra, tudo que ele construiu ao longo de 65 anos de carreira”, enfatiza.
Para além de sua arte, Zé Tarcísio ficou conhecido pelo auxílio a artistas que estavam começando suas carreiras. Um deles foi Gerson Ipirajá, curador e artista visual. Para ele, falar de Zé é retratar “um conjunto de coisas importantes em uma pessoa só”.
“Ele foi amigo, pai, irmão, incentivador, mentor, foi quem deu os toques mais assertivos na minha vida. Foi um divisor de águas eu ter ido para Aracati na minha adolescência e ter conhecido Zé. Ele foi generoso de abrir seu ateliê para um jovem que nem sabia ainda o que estava procurando”, relata.
Com o tempo, os dois desenvolveram relação de muita parceria, amizade, cumplicidade e “de sonhos”. Como afirma Gerson Ipirajá, o “legado de Zé é imenso”. Ele também cobrou do poder público “um olhar mais sério para sua obra” enquanto estava vivo. Agora, indica uma missão para seus amigos.
“Temos o compromisso de dar continuidade a esse legado, porque o Ceará precisa - sobretudo a juventude e as escolas - conhecer a obra de Zé Tarcísio, a importância desse homem e de seu pensamento, um ser visionário, que viveu à frente do seu tempo. Um ser generoso, acima de tudo, e que deixa uma obra que fala muito do nosso social”, destaca.
Outra artista presente no velório de Zé Tarcísio foi Silvia Moura, bailarina, atriz e grande amiga de Zé. Ela compartilhou a influência dele nas gerações próximas à sua e ressaltou a versatilidade de seu trabalho também para a educação, o teatro e o ensino de artes.
“Trabalhamos juntos em um projeto em uma penitenciária. Era incrível ver a maneira como o Zé fazia com que aquelas pessoas tão sofridas, destituídas de esperança ou de relação com a arte serem tocadas por ela”, relembra a bailarina.
Para Silvia, Zé Tarcísio tinha “encantamento”: “Era difícil conviver com ele e não falar de encantamento. O olho dele estava sempre brilhando. Estava sempre pronto para dar a melhor risada, o melhor abraço, uma pessoa muito alegre. Mesmo em momentos muito difíceis, ele conseguia levantar a sua alma”.
Ela destaca a falta que o cearense fará não só enquanto artista, mas como amigo. Sua morte representa a perda de “um ser humano incrível, que nunca falava mal de ninguém, não tinha fofocas e estava sempre em processo de olhar o mundo com o olho mágico de quem cria”.
“É uma perda ramificada em vários lugares - na arte, na cultura, na referência, na amizade, na simbologia de um artista idoso criando ativamente, defendendo que as pessoas continuem criando até o fim. Então, é uma perda grande que não é de um único lugar”, enfatiza.
Por fim, acrescenta: "Se despedir de uma pessoa como Zé é quase impossível. Tem nada que fique no lugar. Fica uma saudade, uma falta gigantesca. Claro, ficam também as memórias, as coisas vividas... Mas, se tem uma hora que dá raiva que existe a morte, essa é uma delas".