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Produtores de leite do Ceará marcam protesto contra queda no preço
Economia

Produtores de leite do Ceará marcam protesto contra queda no preço

Com redução de R$ 0,30 por litro em 2025, produtores cearenses alertam para risco de êxodo rural e marcam manifestação contra a indústria
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QUEDA no preço pago pela indústria leva produtores a organizar manifestação (Foto: Armando de Oliveira Lima)
Foto: Armando de Oliveira Lima QUEDA no preço pago pela indústria leva produtores a organizar manifestação

A cadeia produtiva do leite no Ceará atravessa impasse. Em 2025, já foram registradas três reduções consecutivas no valor pago aos produtores, somando uma queda de R$ 0,30 por litro.

O impacto direto é sentido sobretudo no Sertão Central e no Vale do Jaguaribe, regiões que concentram as maiores bacias leiteiras do Estado.

O problema, segundo os produtores, que não quiseram ser identificados, vai muito além do campo: afeta o comércio local, compromete a economia dos municípios e ameaça a permanência de famílias na atividade.

Em Quixeramobim, principal polo leiteiro cearense, a redução já significa mais de R$ 2,2 milhões a menos circulando a cada mês.

O mesmo efeito se repete em cidades vizinhas, onde supermercados, farmácias, postos de combustíveis e lojas agropecuárias sentem a retração. “Não é apenas o produtor que perde. O município inteiro se fragiliza”, avaliam lideranças do setor.

O ponto mais criticado é que as sucessivas quedas no preço não tiveram qualquer reflexo no atacado ou para o consumidor final. Nas gôndolas, frisam que o litro do leite e os derivados seguem com o mesmo valor, sem sinal de redução.

Conforme o Agregador do Preço Comparado do O POVO, que acompanha valores de 100 produtos e 36 supermercados de Fortaleza, as precificações do leite integral Betânia de 1 litro continuam, desde outubro de 2024, no patamar de R$ 6,20. 

O valor chegou a oscilar algumas vezes no ano, mas fechou pesquisa de agosto de 2025 realizada pelo Procon Fortaleza em R$ 6,21.

“Alguém está ganhando muito nas costas do produtor”, dizem os representantes, ao destacar que a cadeia produtiva ficou desequilibrada: “Enquanto quem produz recebe menos, quem compra não paga menos.”

O quadro é especialmente grave porque 80% a 90% dos produtores cearenses são de pequeno porte. Sem escala para competir em volume, esses trabalhadores ficam ainda mais vulneráveis à variação de preços.

O risco, apontam entidades do setor, é que muitos abandonem a atividade e migrem para as cidades, comprometendo a sucessão no campo e a própria sobrevivência da pecuária leiteira no Estado.

Diante desse cenário, os produtores articulam uma pauta de reivindicações. Entre os pontos centrais estão a reposição dos valores reduzidos em 2025 e o estabelecimento de um preço mínimo de R$ 2,25 por litro.

Além disso, a adoção do índice Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) como referência oficial no Ceará e a exigência de transparência na formação dos preços pagos pela indústria. “Hoje o cálculo parece arbitrário: cai sempre que convém, mas nunca sobe quando o mercado melhora”, afirmam.

Também está em discussão a aplicação de uma política de bonificação justa, baseada na qualidade do leite e não apenas no volume produzido.

A crítica é que, historicamente, esse tipo de incentivo beneficiou apenas grandes produtores, enquanto os pequenos, que também entregam leite de qualidade, ficaram de fora.

A insatisfação crescente culminou na organização de uma manifestação marcada para o próximo sábado, 30 de agosto, em frente à sede da Alvoar Lácteos, em Morada Nova, a partir das 8h.

A fábrica detém o monopólio no Estado e compra o leite de produtores para fabricar seus produtos, por isso, tem o poder de definir os preços pagos a eles.

O ato, explicam os produtores, é uma forma de sensibilizar o poder público, o consumidor e a própria indústria.

Mais do que um protesto, a mobilização busca chamar atenção para o futuro do setor no Estado.

Sem medidas de proteção e regras claras de mercado, dizem, o risco é de esvaziamento de uma das atividades rurais mais tradicionais do Ceará, com consequências diretas para a economia local e para milhares de famílias que dependem do leite como principal fonte de renda.

Alvoar afirma que reduções no preço do leite refletem cenário nacional de maior produção e menor consumo

A Alvoar Lácteos afirma que as recentes reduções no preço pago ao produtor no Ceará não são decisões isoladas da empresa, mas resultado de uma conjuntura nacional marcada por recorde de produção e retração no consumo.

Conforme a companhia, no segundo trimestre de 2025 o Brasil registrou o maior volume de leite já captado na série histórica, enquanto a demanda de lácteos nos supermercados caiu 3,5%, de acordo com dados da Nielsen.

No Ceará, a empresa afirma ter recebido 30% mais leite do que em 2024. Mesmo considerando apenas os mesmos fornecedores, o aumento foi de 17%.

“Essa combinação de maior oferta e menor demanda pressiona os preços para baixo”, destacou a empresa, ressaltando que a queda também impacta seus próprios resultados.

A Alvoar diz que, apesar das reduções, mantém valores acima dos praticados no ano anterior.

“Hoje, nenhum produtor que vende leite diretamente para a companhia recebe menos de R$ 2,20 por litro. Casos de pagamentos de R$ 1,80 ou R$ 1,90 referem-se a atravessadores, ou outras indústrias”, informou.

 

Para a Alvoar, transferências pontuais entre fábricas do grupo ocorrem apenas em situações emergenciais, representando no máximo 2% a 3% da produção, sem relação com benefícios tributários.

A companhia também negou que adote práticas arbitrárias na definição de preços. Alega que o valor pago leva em conta fatores como qualidade, quantidade e localização do produtor, sendo informado previamente antes do fornecimento.

Quanto às reivindicações dos produtores, a Alvoar afirmou estar aberta ao diálogo, mas destacou que parte das manifestações recentes tem sido liderada por pessoas que não são fornecedoras diretas da empresa.

“O preço mínimo pago pela Alvoar hoje é de R$ 2,20, superior ao relatado em negociações de atravessadores. Já a adoção do índice Cepea é inviável, porque ele sequer é calculado para o Nordeste, cuja realidade difere de outras bacias leiteiras”, pontuou.

A empresa informou ainda que está em fase de implementação de um programa de bonificação por qualidade, que poderá acrescentar até R$ 0,21 por litro ao pagamento. A previsão é que o sistema entre em vigor em breve.

Produtores apontam perdas e defendem preço mínimo de R$ 2,25 para garantir sustentabilidade da atividade

Produtores de leite do Sertão Central e do Vale do Jaguaribe afirmam que as reduções no preço pago pela indústria já somam R$ 0,30 por litro apenas em 2025.

Para eles, a queda não foi repassada ao consumidor final, que continua pagando os mesmos valores, o que gera a percepção de ganhos desproporcionais dentro da cadeia produtiva.

O setor calcula que a diminuição no preço tem efeito direto sobre a economia local. Em outros municípios, a retração também se reflete no comércio, em postos de combustíveis, farmácias e lojas agropecuárias. “Não é apenas o produtor que perde, mas toda a economia dos municípios”, avalia a categoria.

 

Entre as principais reivindicações, o grupo defende a reposição dos valores reduzidos ao longo do ano e a definição de um preço mínimo de R$ 2,25 por litro.

Conforme eles, a proposta foi discutida em reunião com a Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), quando a indústria chegou a sinalizar acordo, mas dias depois teria anunciado nova redução de R$ 0,10. “Esse episódio foi a gota d’água”, relatam.

A medida, defendem, daria mais transparência ao processo de formação de preços. Hoje, segundo os produtores, os valores seguem uma lógica considerada arbitrária, que só acompanha o mercado quando há queda, mas não quando os preços sobem.

O setor também critica a política de bonificação, que, na prática, não teria sido implementada de forma justa no Ceará.

Segundo eles, os critérios favorecem o volume produzido, o que amplia a diferença entre grandes e pequenos. “De 80% a 90% dos produtores do estado são de pequeno porte, mas não são contemplados de forma adequada, mesmo quando oferecem leite de qualidade”, afirma o movimento.

As consequências já são visíveis, destacam os representantes. A queda na receita desestimula a permanência no campo e compromete a sucessão familiar, com muitos jovens optando por buscar oportunidades nas cidades.

Para os produtores, o objetivo da manifestação de sábado, 30, é sensibilizar autoridades e sociedade para garantir condições mínimas de continuidade da atividade.

Estimular a produção agrícola já existente é um bom caminho? | O POVO News

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