Dificuldade de concentração, lapsos de memória, insônia e até sintomas que se assemelham a doenças neurodegenerativas. Para milhares de pessoas, mesmo após vencerem o SARS-CoV-2, a batalha contra as sequelas da Covid-19, especialmente as neurológicas, ainda continua.
No Ceará, uma pesquisa conduzida pelo Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), da Universidade Federal do Ceará (UFC) filiado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), busca compreender esses impactos neurológicos da Covid longa por meio de um estudo longitudinal. Iniciado em 2022, o projeto vem acompanhando cerca de 200 pessoas que tiveram Covid-19 e desenvolveram sintomas persistentes.
O estudo é coordenado pelo chefe do setor de Neurologia e coordenador do Ambulatório de NeuroCovid do HUWC, Pedro Braga. “Nós temos visto que os sintomas podem variar bastante. Até o momento, um dos principais achados da nossa pesquisa é a questão cognitiva. Um termo bastante utilizado é brain fog (névoa mental), que descreve dificuldades de concentração e memória. Na prática clínica, ouvimos muitos relatos como: ‘Doutor, depois da Covid, nunca mais fui o mesmo. Minha memória piorou”, explica.
Ele explica que os participantes já passaram por avaliações clínicas e cognitivas. Também foram realizados exames de ressonância magnética cerebral para detectar possíveis lesões estruturais no cérebro. “Alguns pacientes também apresentam distúrbios do sono, como insônia. Também observamos que uma parcela significativa continua com sintomas olfativos persistentes”, relata.
A infecção pelo SARS-CoV-2 pode desencadear um processo inflamatório no sistema nervoso central, resultando em uma desregulação da imunidade. Além disso, a Covid pode afetar a microcirculação cerebral, causando danos endoteliais — ou seja, alterações nas células que revestem os vasos sanguíneos.
Isso pode levar a eventos trombóticos e embólicos, aumentando o risco de AVC, tanto isquêmico quanto hemorrágico. Essas lesões vasculares no cérebro podem estar associadas aos sintomas cognitivos observados nos pacientes.
Segundo o especialista, os estudos já apontam que alguns fatores podem aumentar o risco de desenvolver Covid longa. Um deles é a gravidade da infecção. "A incidência da Covid longa é pelo menos duas vezes maior em pacientes hospitalizados do que naqueles que tiveram uma infecção mais leve", destaca Braga.
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Conforme Pedro Braga, as mulheres também parecem ser mais afetadas, embora a razão ainda não esteja completamente esclarecida. Além disso, a vacinação demonstra ter um papel protetor contra o quadro. "Os estudos já indicam que a Covid longa é mais frequente em indivíduos não vacinados", pontua o neurologista.
Em abril de 2021, uma das fases mais críticas da pandemia no Brasil, Carla Queiroz, 38, asmática e deficiente auditiva desde os 19 anos devido a uma meningite, começou a apresentar os primeiros sintomas da doença. “Comecei a tossir muito e tive uma dor de cabeça insuportável. Fiz o teste e, quando o resultado deu positivo, entrei em pânico. Eu só conseguia pensar: "Meu Deus, eu vou morrer!", conta.
Sentindo o agravamento dos sintomas, ela seguiu para um hospital. Na unidade, a situação se agravou rapidamente, e ela chegou a utilizar o capacete Elmo, mas a abordagem não obteve sucesso. “Tenho um implante auditivo dentro da minha cabeça e a pressão do capacete me incomodava demais. Foi desesperador”, diz.
Diante disso, Carla chegou a ser intubada durante 15 dias. Após ser extubada, a recuperação que se seguiu não foi fácil. “O que realmente me salvou, além de Deus, foi conseguirmos uma médica externa para me acompanhar mais de perto. Mas eu não tinha condições de custear isso, então meus amigos e familiares se mobilizaram de uma forma que eu nunca imaginei”.
Torcedora do time de futebol do Fortaleza, alguns amigos tricolores se mobilizam nas redes sociais para arrecadar fundos. O movimento se tornou popular e torcedores de times rivais, como o Ceará e do Atlético Cearense, também se uniram à campanha. O dinheiro ajudou a custear o tratamento que se seguiu.
Após 36 dias de internação, Carla finalmente recebeu alta. No entanto, os desafios não terminaram. “Quase três anos depois, eu ainda tenho dificuldade para dormir. Também acordo de madrugada e fico um bom tempo sem conseguir pegar no sono novamente. Eu fico muito agitada, parece que minha mente não desliga. Além disso, agora tenho a apneia [distúrbio do sono que afeta a respiração]”, explica.
Ela conta que isso impacta na sua rotina. “Me afeta fisicamente e até emocionalmente, porque parece que não consigo me recuperar, então fico mais irritada e sem energia para as coisas do cotidiano”, detalha.
Carla também enfrenta lapsos de memória. “Às vezes, esqueço coisas simples, como deixar a panela no fogo ou a torneira aberta. No trabalho, comecei a anotar tudo para não esquecer”.
Apesar dos avanços da ciência, o coordenador do Ambulatório de NeuroCovid do HUWC Pedro Braga explica que ainda não há um tratamento específico que reverta os sintomas da Covid longa. "O que recomendamos é a reabilitação por meio de atividades físicas, terapia ocupacional e reabilitação cognitiva", afirma.
"Ainda há muitas questões em aberto. Existe um fator genético envolvido? Qual é o mecanismo exato que desencadeia esses sintomas prolongados?”, indaga. Outro aspecto preocupante são os indícios de que a infecção pelo coronavírus possa acelerar processos como Alzheimer e Parkinson.
"Ainda não temos uma resposta definitiva, mas há estudos na literatura médica sugerindo que esses sintomas possam estar relacionados a doenças neurodegenerativas", alerta o neurologista Pedro Braga. O neurologista explica que, atualmente, os pacientes envolvidos no estudo conduzido pela Universidade Federal do Ceará (UFC) estão sendo reavaliados para monitorar mudanças ao longo do tempo, incluindo possíveis sinais de atrofia cerebral ou outras alterações que possam estar relacionadas à Covid longa. Os pesquisadores esperam que, com o tempo, os dados coletados possam ajudar no desenvolvimento de estratégias para mitigar os efeitos.
Os vários tipos de transtornos do sono provocados pela Covid longa também são estudados por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC). Desde 2023, cerca de 150 pacientes que apresentam os sintomas são acompanhados por exames de polissonografia, que auxiliam no diagnóstico e no estudo dos distúrbios do sono. A fase deve finalizar até o início de 2026.
Em paralelo, a UFC firmou colaboração com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, para aprofundar os estudos sobre a microestrutura do sono e possíveis alterações durante o sono REM, fase do ciclo do sono que se caracteriza por atividade cerebral intensa e fundamental para o processamento das memórias e do aprendizado.
Durante a fase REM, os músculos do corpo são "desligados" (atonía), mas estudos identificaram que alguns pacientes com Covid longa perdiam essa atonia, ou seja, ficavam com os músculos ativos e interagiam com o conteúdo desse sono.
“Agora estamos na fase de compartilhamento de dados entre as duas universidades. Vamos comparar os resultados para verificar se há diferenças entre as populações. Um dos objetivos é acompanhar os pacientes a longo prazo para entender se existe uma conexão mais forte entre esses distúrbios do sono e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas”, explica o professor Manoel Sobreira Neto, da Faculdade de Medicina (Famed) da UFC.
A Universidade Federal do Ceará (UFC) está recrutando voluntários saudáveis que passarão pelos mesmos testes dos pacientes com Covid longa. Os resultados servirão como referência para comparação. Os interessados podem se inscrever por meio de um formulário on-line.