Vida & Arte

100 anos de Nice Firmeza: elaborações do legado da artista no contemporâneo

V&A ressalta a força de contemporaneidade presente na vida e na obra da artista visual Nice Firmeza (1921-2013)
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Pioneira das artes no Ceará, Nice Firmeza ingressou na histórica Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) em 1950 (Foto: Sara Maia, em 22/02/2012)
Foto: Sara Maia, em 22/02/2012 Pioneira das artes no Ceará, Nice Firmeza ingressou na histórica Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) em 1950

Quando menina, por volta dos 8 anos, ainda no Aracati de nascença, Nice Firmeza criava como bem queria nas aulas de pintura. A atitude, registra o professor Gilmar de Carvalho no texto "O ponto do bordado" (2007), publicado na revista Ângulo, "cheirava a rebeldia". "Um dia, foi convidada a sair da sala, porque 'modificava as coisas e não aprendia'", segue. Nice confessou, em entrevista na tese "Calidoscópio: experiências de artistas-professores como eixo para uma história do ensino de artes plásticas em Fortaleza", de Gilberto Andrade Machado, que rejeitava o método imposto: a cópia, o papel numerado, a replicação. "Eu detestava aquele tipo de exercício. Então, eu olhava a imagem, baixava a cabeça e desenhava e pintava do meu jeito". A memória guarda em si muito da essência da artista, cuja vida foi marcada por apostar nos extrapolamentos de moldes.

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Nascida em 18 de abril de 1921, Nice tendia à arte desde sempre. A mãe e o irmão não gostavam da ideia, mas ela foi "abrindo os caminhos para bordar, pintar, casar, ser, cumprir o coração, o destino", como como define a gestora cultural Rachel Gadelha - sobrinha-neta de Nilo Firmeza, o Estrigas, companheiro de vida e de lida de Nice desde 1961 e com quem ela criou, em 1969, a "utopia" Minimuseu Firmeza, ao mesmo tempo casa, museu e obra de arte.

Na Fortaleza de 1950, já tendo "pintado do seu jeito" e aprendido a bordar escondida, por exemplo, Nice se integrou à Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde foi uma das únicas mulheres do importante circuito cultural e, também, conheceu o parceiro. "Nice está na travessia. Ela é uma artista que nasce em um contexto ligado ao que se chama 'arte moderna', ideia que Estrigas chamou de 'renovação da arte cearense', mas tem um modo muito singular de olhar para o mundo", introduz a historiadora de arte e professora da UFMG Carolina Ruoso.

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Nice nasceu em Aracati em 18 de julho de 1921. O contato com arte já vinha desde a infância, mas só se desenvolveu a partir de 1950, já em Fortaleza(Foto: Minimuseu Firmeza / divulgação)
Foto: Minimuseu Firmeza / divulgação Nice nasceu em Aracati em 18 de julho de 1921. O contato com arte já vinha desde a infância, mas só se desenvolveu a partir de 1950, já em Fortaleza

Apesar da formação junto à SCAP, a obra de Nice é frequentemente ligada à chamada arte naïf, que em termos básicos diz sobre uma arte "ingênua", instintiva, sem formação culta. Tensionando, com a prática, noções e nomeações - no que Carolina observa como uma ação decolonial -, Nice inventa confluências entre elas. "Ela é autora de um trabalho inconfundível, independente da fase ou da temática abordada", define a museóloga e diretora do Museu de Arte da UFC Graciele Siqueira.

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"A fase das paisagens, que se encaixaria numa possível fase acadêmica, se diferencia da fase das máscaras ou das figuras humanas, que ao meu ver são pinturas ligadas a uma fase mais moderna. As pinturas sobre as crianças diferem de tudo que ela já havia feito. Já o bordado é singular", elabora a historiadora Paula Machado, coordenadora de projetos do Minimuseu Firmeza.

Difícil se debruçar em só um dos caminhos artísticos de Nice, mas o bordado se impõe pela força de sua delicadeza - assim como a artista. "Ela provoca uma ruptura. Na atitude e na pesquisa artísticas, ela quebra fronteiras entre o que seria uma 'arte popular' e uma 'arte erudita'", elucida Carolina. Ao invés de bordar como uma reprodução, Nice encara a arte como criativa. Estabelece, assim, "confluência" entre ele e a "arte contemporânea".

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"Seus bordados provocam surpresa e causam estranhamento, por conta de tanta delicadeza em um mundo tão violento", definiu Gilmar de Carvalho. Lembrando dos trabalhos que Nice fazia em roupas, o pesquisador se somou aos extrapolamentos da artista e atestou: seus bordados são "alta-costura", "wearable art".

Nice Firmeza, nascida em Aracati no dia 18 de julho de 1921, completaria 100 anos neste domingo, 18(Foto: Bruno Macedo, em 26/06/2006)
Foto: Bruno Macedo, em 26/06/2006 Nice Firmeza, nascida em Aracati no dia 18 de julho de 1921, completaria 100 anos neste domingo, 18

Lúcia Ferreira, professora de bordado e mantenedora das formações nessa arte no Minimuseu, foi aluna de Nice e vê nas obras da professora um espírito "inédito". "Ela pegou aqueles pontos tradicionais, centenários, e criou uma forma de bordar totalmente diferente", avalia, citando até o que chama, carinhosamente, de "ponto Dona Nice" - a união dos pontos rococó e nó francês, aprendida com a mestra.

"A gente vê a presença do bordado muito forte na arte contemporânea. Dizem que uma das referências da presença dele nas artes cearenses seria o Leonilson, mas podemos pensar que a Nice também é", propõe Carolina. "Hoje a gente tem muitos artistas que bordam, arte têxtil, inserção do bordado nas ideias políticas. O trabalho dela deveria ser muito mais divulgado", demanda Lúcia.

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No Minimuseu, Nice foi também pioneira, com Estrigas, numa espécie de criação de políticas culturais espontâneas. "Tudo que a gente vê hoje que está na pauta do que seja uma política cultural a tia Nice e o tio Estrigas viveram de forma precursora", enxerga Rachel. "Tia Nice trabalhava com gastronomia, criava pratos. Deu aula para crianças por muitos anos e ensinava não a técnica, mas a sonhar e expressar o sonho. Trabalhou com arte-educação, com política de cultura infância. A semente, ou o DNA, de tudo que a gente espera de uma política cultural viva eles fizeram lá", considera.

"Nice nunca precisou de títulos acadêmicos para exercer com maestria a docência no campo das artes plásticas e do bordado para crianças, jovens e adultos", lembra Graciele - ainda que a artista seja Mestre da Cultura, tendo sido nomeada em 2007 como Tesouro Vivo pela Secult.

"Eu a via como uma mulher que tinha o dom de transformar o conhecimento acumulado ao longo de sua vida em algo fácil de ser assimilado e praticado. Ela descortinou para os alunos que a arte pode estar numa galeria, num museu, na escola ou no seu jardim. Ensinou que a arte, apesar de complexa e acadêmica em alguns momentos, é simples e para todos", avança a museóloga.

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"Todo o trabalho de artista-educadora configura-se como parte da performance artística da Nice, não está desvinculado do processo criador dela. Ela está educando, criando e ensinando a criar", dialoga Carolina. Reforça-se, assim, o extrapolar de Nice. "Como calcificar Nice numa caixinha, apenas?", questiona a professora. Impossível.

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"Ela faz mediação de diferentes mundos da arte", aponta. O momento de "virada epistemológica" nas artes reforça as múltiplas possibilidades de se compreender Nice a partir do presente. "Como o debate de gênero e o decolonial podem nos ajudar a entendê-la de outra maneira? É importante fazer essa discussão, porque a Nice faz isso na prática dela".

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Programação

Cine São Luiz
Celebrando os afetos do universo criado por Nice e Estrigas, o Cineteatro São Luiz está em cartaz com a exposição virtual “Minimuseu Firmeza - Casa de arte e afeto no Mondubim”. Com textos de Rachel Gadelha, Carolina Ruoso, Carlos Macedo e Olga Paiva, obras digitalizadas do casal e artistas como Aldemir Martins, Hélio Rola e Heloysa Juaçaba e fotos do espaço. A curadoria é de Rodrigo Gadelha.

Onde: cineteatrosaoluiz.com.br/exposicaominimuseufirmeza

Bece
Neste sábado, 17, a partir das 16 horas, a Biblioteca Pública Estadual do Ceará realiza live em homenagem à Nice Firmeza. Conversam sobre as trajetórias de vida e obra da artista o jornalista e escritor Flávio Paiva; a historiadora e coordenadora de projetos do Minimuseu Firmeza Paula Machado; o artista visual Carlos Macêdo; a gestora cultural e herdeira do Minimuseu Firmeza Rachel Gadelha.

Quando: sábado, 17, às 16 horas
Onde: bit.ly/YouTubeBECE

Sobrado Dr. José Lourenço
O domingo, 18, será dedicado a Nice Firmeza nas redes sociais do Sobrado Dr. José Lourenço. Serão rememorados momentos que a artista passou pelo equipamento, bem como da equipe do Sobrado com ela no Minimuseu

Quando: domingo, 18
Onde: @sobrado154

Museu De Arte Da Ufc
Integrando a programação da 5ª Férias no Mauc, o museu da UFC promove na segunda, 19, a partir das 15 horas, a conversa "Nice, Centenária". A professora de bordado Lúcia Ferreira, a mestranda Luiza Helena Amorim, a historiadora Paula Machado e a gestora Rachel Gadelha abordarão os legados de Nice nos campos artístico e museológico no Ceará. A participação na atividade rende certificado e não demanda inscrição prévia.

Quando: segunda, 19, às 15 horas
Onde: bit.ly/MaucYoutube

Museu Da Cultura Cearense
Na próxima segunda, 19, o museu do Dragão do Mar marca o centenário de Nice com exibição de documentário e uma conversa ao vivo. A programação começará às 16 horas, pelo YouTube do centro cultural. Primeiro, será exibido o documentário “NicEstrigas - Arte e Afeto”, de Tibico Brasil, e depois os pesquisadores Bené Fonteles e Patrícia Veloso participam da live “Nice faz Arte”. A conversa será mediada por Valéria Laena, gestora do MCC. Ao longo do mês, o Instagram do MCC irá, ainda, trazer conteúdos ligados às receitas criativas de Nice, que integram o projeto Comida Ceará.

Quando: segunda, 19, às 16 horas
Onde: Youtube do Dragão do Mar e @mcc_dragaodomar

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