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Independência do Brasil custou sangue e dinheiro
Reportagem Seriada

Independência do Brasil custou sangue e dinheiro

Há o imaginário de um processo tranquilo, deflagrado por um grito na beira de um rio quase consentido pelos antigos dominadores. Porém, a independência brasileira ocorreu após sangrenta batalhas, com participação cearense destacada, e ainda custou muito dinheiro em indenização
Episódio 2

Independência do Brasil custou sangue e dinheiro

Há o imaginário de um processo tranquilo, deflagrado por um grito na beira de um rio quase consentido pelos antigos dominadores. Porém, a independência brasileira ocorreu após sangrenta batalhas, com participação cearense destacada, e ainda custou muito dinheiro em indenização
Episódio 2
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O Brasil foi a única ex-colônia da América do Sul que sustentou o regime monárquico após a independência. Tornou-se um império entre repúblicas. A emancipação de Portugal seguiu rumos distintos aos vizinhos. Não foi resultado de rebelião comandada pelas elites locais contra o domínio europeu. A condução coube a um príncipe europeu, herdeiro da coroa da metrópole e filho do rei com o qual o País rompia. Isso sugeriria uma transição sem sobressaltos, certo? Não exatamente.

A independência do Brasil não foi um acordo entre pai e filho. Guerra foi travada de fevereiro de 1822 até novembro de 1823, com milhares de mortos. No mais sangrento dos combates, nos campos de batalha do Piauí, houve determinante participação cearense. Só na Bahia, os confrontos duraram um ano e quatro meses e envolveram mais de 16 mil combatentes do lado brasileiro e 5 mil portugueses, conforme registra Laurentino Gomes no livro 1822 (Nova Fronteira, 2010). "O número de combatentes foi maior do que o das guerras de libertação da América espanhola na mesma época", escreve Gomes.

Os combates começaram bem antes do "grito do Ipiranga", após o "Dia do Fico". Dom Pedro foi considerado rebelde por Lisboa, após a recusa em retornar a Portugal. Houve duas frentes de batalha. No Sul, tropas portuguesas resistiram em Montevidéu, na então província Cisplatina, até 18 de fevereiro de 1823. A outra frente era o Norte e Nordeste do Brasil. Havia pouca esperança de os portugueses manterem todo o território na América, mas acreditavam, principalmente, em manter como colônia a região que hoje corresponde às duas regiões brasileiras.

O Brasil tinha um particular problema — quase não tinha exército e as precárias forças estavam sob linha de comando quase toda composta por oficiais portugueses. Os brasileiros lutaram pela independência com tropas improvisadas, mal equipadas, quase sem treinamento, reforçados por mercenários arregimentados na Europa.

Na Bahia, simpatizantes de Portugal e defensores da independência se confrontaram a partir de 19 de fevereiro de 1822 até o comemorado 2 de julho de 1823. A maior batalha foi em 8 de novembro de 1822, em Pirajá, a 10 quilômetros do centro de Salvador. Ao longo de dez horas, aproximadamente 10 mil brasileiros e portugueses se enfrentaram.

Batalha de Pirajá(Foto: Carybé / Bahia com História / Governo da Bahia / divulgação)
Foto: Carybé / Bahia com História / Governo da Bahia / divulgação Batalha de Pirajá

A batalha envolve um relato delicioso, embora não comprovado. Foi narrado pelo historiador Tobias Monteiro. Os brasileiros estariam em grande desvantagem e, dando a batalha por perdida. O major José de Barros Falcão de Lacerda, teria dado ordenado ao corneteiro Luís Lopes que desse o toque de recuar. Nervoso e atrapalhado, Lopes teria acidentalmente dado o toque errado: "Cavalaria, avançar e degolar". Não havia cavalaria para avançar ou degolar ninguém, mas os adversários ficaram assustados e fugiram em desordem, permitindo a vitória aos brasileiros. Não há comprovação de que o episódio ocorreu, mas ficou notório por ser uma ótima história.

Em 2 de julho de 1823, os portugueses se retiraram de Salvador. Mais ao norte, os combates prosseguiam. Somente em 6 de agosto de 1823, ato assinado por uma junta militar composta por representantes de Maranhão, Piauí e Ceará formalizou a adesão das três províncias ao Brasil independente. O documento foi encontrado no Arquivo Público do Piauí, pela professora Claudete Maria Miranda Dias, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), durante as pesquisas de doutorado.

O processo de independência dos atuais três estados nordestinos teve uma dinâmica própria em relação ao que ocorria na Bahia. Em 8 de agosto de 1822, chegou a Oeiras, no Piauí, major João José da Cunha Fidié, enviado por Lisboa para assegurar a lealdade a Portugal. Ele comandou a repressão às vilas que gradualmente aderiram ao processo de independência.

Em 19 de outubro, Parnaíba reconheceu o regime sob comando de dom Pedro. Fidié reprimiu o movimento, e os partidários da emancipação se refugiaram em Granja, no norte do Ceará. Na ausência do major, Oeiras se rebelou. Outras vilas fizeram o mesmo. Fidié foi implacável contra todas elas, que pediram socorro ao Ceará e ao Maranhão.

Representação artística da Batalha do Jenipapo(Foto: Divulgação / governo do Piauí)
Foto: Divulgação / governo do Piauí Representação artística da Batalha do Jenipapo

Seguiram para o território piauiense personagens marcantes da história do Ceará, como Tristão Gonçalves e João de Andrade Pessoa, o Pessoa Anta, além de Pereira Filgueiras, capitão-mor do Crato que, pelo histórico de combates, recebeu a alcunha de "Napoleão dos sertões".

Em 13 de março de 1823, um exército de sertanejos armados em grande parte com foices e facões, sem treinamento algum, tentou emboscar Fidié. Ao longo de aproximadamente 5 horas, entre 9 e 14 horas, aproximadamente 4 mil combatentes se enfrentaram às margens do rio Jenipapo, no atual município de Campo Maior, a 85 quilômetros de Teresina.

Houve centenas de mortos e a coalizão de cearenses, piauienses e maranhenses acabou derrotada pelos portugueses, que tinham soldados profissionais. Mesmo assim, conseguiu se apoderar de munição e suprimentos de Fidié. As tropas do major sofreram deserções e ele buscou refúgio em Caxias, no Maranhão. Após longo cerco, ele se rendeu e foi enviado ao Rio de Janeiro. Deixou o Piauí em 6 de agosto de 1823, quando a adesão das três províncias à independência foi formalizada.

Em 15 de agosto de 1823, o Grão-Pará foi a última província a aderir à independência. Porém, três meses depois, houve uma revolta popular em Belém contra portugueses, que teriam privilégios em relação aos brasileiros. Cinco dos envolvidos foram fuzilados. Outros 256 foram confinados no porão de um navio. Quase sem ar, amontoados e sob o calor do norte, os prisioneiros provocaram um tumulto. Tiros de fuzil foram disparados contra eles. Quando o porão foi aberto, havia 252 corpos e quatro sobreviventes, no que ficou conhecido como tragédia do Brigue Palhaço, um dos episódios aterradores da independência do Brasil.

Porém, o processo não terminou ali. A professora Claudete Maria Miranda Dias considera-se que a série de revoltas que ocorreram até 1850 foram ainda parte do tumultuado processo para consolidar a independência do Brasil e a unidade nacional. Seguiram-se movimentos como a Confederação do Equador, Balaiada, Cabanagem, Sabinada, Revolução Farroupilha, até a última delas, a Revolução Praieira. Todas reprimidas com violência. Os resultados foram prisões, enforcamentos e fuzilamentos.

 

 

O preço da independência

Após as batalhas, a diplomacia. A independência brasileira foi reconhecida por Portugal em 29 de agosto de 1825, pelo Tratado de Paz e Aliança, mediado pela Inglaterra. O Brasil se comprometeu a pagar indenização de dois milhões de libres esterlinas. Além disso, dom João preservou honorificamente o título de imperador do Brasil.

Ocorre que dom João, ao deixar o Brasil em 1821, limpou os cofres do Brasil. A nação recém-formada e ainda mais envolvida em guerra não tinha dinheiro para a indenização. Os ingleses prontamente emprestaram o dinheiro. O reconhecimento da soberania brasileira foi praticamente simultâneo ao início da dívida externa.

Dom João como príncipe regente(Foto: Domenico Pellegrini (1805) / Museu Nacional de Arte Antiga Portugal)
Foto: Domenico Pellegrini (1805) / Museu Nacional de Arte Antiga Portugal Dom João como príncipe regente

 

 

A ruptura do Brasil com Portugal

Se a separação entre Brasil e Portugal foi um processo transcorrido entre territórios governados por filho e pai, respectivamente, por que houve conflitos?

Um fator a considerar é o poder real que dom João VI tinha sobre Portugal naquele momento. A partir da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte a Portugal, em 1808, a família real lusitana fugiu para o Brasil. Com a derrota final de Napoleão, em 1815, dom João não retornou a Lisboa. Pretendia ficar no Brasil, para indignação dos portugueses, que sentiam desprestigiados.

Nos anos de domínio napoleônico, a população da metrópole perdeu meio milhão de habitantes. Muitos mortos em batalhas ou pela fome. Outros tantos fugiram para não perecer por um caminho ou outro. A situação econômica era de penúria. E o rei insistia em permanecer em seu exílio colonial do outro lado do oceano. Na manhã de 24 de agosto de 1820, eclodiu a Revolução Liberal do Porto. Exigia o retorno do rei e, mais que isso, o fim do absolutismo monárquico. Dom João teria de governar submetido a uma Constituição. Então, esse é um ponto central, dom João VI já não governava Portugal com plenos poderes.

Porém, o movimento era liberal apenas para Portugal. Em relação ao Brasil, havia ressentimentos acumulados. Em grande parte, o fato de o País ter seguido rumo diferente — até mais tardio — do adotado pelas antigas colônias espanholas no processo de libertação passa pelos 13 anos de permanência da família real no Rio de Janeiro, e das transformações trazidas pela transferência da capital do império colonial português.

Desde 16 de dezembro de 1815, o chamado Estado do Brasil deixou, de forma honorífica, a condição de colônia para ser elevado à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Nos 13 anos em que dom João ficou no Rio de Janeiro, os portos foram abertos às nações amigas, houve liberdade de comércio e as manufaturas deixaram de ser proibidas. A imprensa também deixou de ser proibida.

Houve um salto educacional, com a chegada do ensino superior, por meio da escola de medicina de Salvador, seguida de instituições voltadas ao ensino de agricultura, engenharia e química. Foi criado o Banco do Brasil. Houve também uma profunda transformação da cultura, com a vinda de artistas europeus de várias linguagens. As cortes constitucionais portuguesas pretendiam rever várias dessas transformações e promover um processo visto como recolonização.

Esse movimento fez com que ganhasse força a mobilização para emancipar o Brasil que era incipiente. Formaram-se vários grupos de pressão no Rio de Janeiro. Sem partidos, organizavam-se em clubes, igrejas, na maçonaria e outras sociedades secretas. Publicavam jornais, como o Revérbero Constitucional Fluminense, de Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa. Havia disputa entre republicanos e monarquistas constitucionais.

Litografia da aclamação popular de dom Pedro I como imperador do Brasil(Foto: Jean-Baptiste Debret / Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin)
Foto: Jean-Baptiste Debret / Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin Litografia da aclamação popular de dom Pedro I como imperador do Brasil

Vários autores registram que, até as cortes portuguesas, não havia movimento consistente para separar o Brasil de Portugal. Porém, quando dom João deixa o Rio de Janeiro sob pressão das Cortes, ele deixa o filho como príncipe regente e dá um conselho: "Pedro, se o Brasil tiver de se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para qualquer um desses aventureiros." Um processo de independência, se irreversível como era, deveria ser controlado pela família Bragança.

Os aventureiros de que falava dom João eram os republicanos, que varriam a antiga América espanhola. De fato, os Bragança governaram o Brasil até a chegada da República, 67 anos após o Grito do Ipiranga.

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