Logo O POVO+
As palavras do ano, ou, como encontrar humanidade em um universo de IA
Comentar
Reportagem Especial

As palavras do ano, ou, como encontrar humanidade em um universo de IA

Três dicionários britânicos definiram os termos que, para eles, melhor representaram 2025: parassocial, rage bait e vibe coding. Os termos à primeira vista parecem estranhos, mas revelam uma relação problemática e dependente do ser humano com a tecnologia

As palavras do ano, ou, como encontrar humanidade em um universo de IA

Três dicionários britânicos definiram os termos que, para eles, melhor representaram 2025: parassocial, rage bait e vibe coding. Os termos à primeira vista parecem estranhos, mas revelam uma relação problemática e dependente do ser humano com a tecnologia
Tipo Notícia Por
Comentar
 

 

As palavras são um reflexo da humanidade. Dizemos e escrevemos o que sentimos, pensamos e pretendemos. Foi por essa necessidade que a fala e a escrita surgiram. Aos poucos, desenvolvemos a linguagem para criar beleza, poesia, histórias mirabolantes, assim como argumentos, contas e estratégia.

Somente devido à capacidade de comunicação em ampla escala, o ser humano conseguiu se tornar a criatura soberana dentre todas as espécies. As palavras nos tornaram senhores e irmãos; marcam nosso passado e futuro; movem-nos geograficamente; tornam os sentimentos entendíveis. As palavras são os que nos fazem gente.

É curioso, portanto, que os termos do ano de 2025 reflitam o contrário: o quanto o meio digital tem mexido com as relações sociais. O quanto a evolução tecnológica, aos poucos, remexe nosso vocabulário e, em consequência, nossa humanidade.

Todos os anos, dicionários britânicos determinam a palavra ou expressão que consideram ter melhor representado o ano que passou. Para 2025, o dicionário de Cambridge estabeleceu a palavra “parassocial”. O Oxford English Dictionary escolheu o termo “rage bait”, ou “isca de raiva”, enquanto o dicionário Collins, "vibe coding".

 

À primeira vista, os termos parecem estranhos: palavras desconhecidas na língua inglesa. Porém, refletem a dualidade dos tempos atuais. Quanto mais pessoas interagem na internet, a sensação é de cada vez menos empatia e mais conflitos. A velocidade e o volume de informações parecem engolir o cuidado com o outro.

Há algo, no entanto, que parece permanecer: a força dos sentimentos e da comunicação para fazer o mundo, físico ou digital, continuar a girar. As emoções faladas ou escritas hoje seguem tão valiosas a ponto de virarem produtos e, como ilhas de lucidez, seguem ditando nosso diferencial humano em meio a um oceano robótico e artificial.

 

 

Amar alguém que você nunca viu (ou que não existe)

Imagine sentir amor e empatia — emoções muito relacionadas a toque e carinho físico — por alguém que você nunca viu pessoalmente, ou melhor, nunca trocou uma palavra sequer. Alguém do outro lado do mundo, que não fala sua língua ou sabe da sua existência.

Esse tipo de sentimento é muito comum. Chama-se comportamento “parassocial”, conforme explica Vladimir Nunan, colunista de tecnologia do O POVO+ e CEO da Eduvem, plataforma de educação reconhecida pela experiência inovadora de aprendizagem digital.

A relação estaria relacionada à frequência. Se alguém acompanha uma celebridade ou influenciador todos os dias, e conhece detalhes da rotina dele, cria-se uma associação de que realmente se conhece aquela pessoa. “(O fã ou seguidor) fica emocionalmente abalado quando ele some ou muda de comportamento. Porém, para o influenciador, essa pessoa é apenas mais um”, exemplifica.

 

O que dizem os especialistas nesta reportagem

 

O termo surgiu em 1956 para descrever a relação de telespectadores com personalidades da TV. Foi cunhado pelos sociólogos da Universidade de Chicago Donald Horton e Richard Wohl.

Em 2025, a palavra foi escolhida pelo dicionário de Cambridge muito pela notoriedade que ganhou após o noivado da cantora americana Taylor Swift com o jogador de futebol americano Travis Kelce.

Os comentários da publicação do anúncio do casamento traziam reações exaltadas e emocionadas, como se comemorassem a felicidade de alguém, de fato, da família.

Em contraste, outras pessoas reagiam aos fãs chamando-os justamente de “parassociais”, com frases como “Olha, mais uma Swiftie sendo parassocial por dez minutos seguidos”.

Taylor Swift e Travis Kelce estão noivos(Foto: Reprodução/Instagram @taylorswift)
Foto: Reprodução/Instagram @taylorswift Taylor Swift e Travis Kelce estão noivos

No entanto, sentimentos parassociais podem não ser entre indivíduos de carne e osso. O surgimento de ferramentas de inteligência artificial, como Chat GPT e Gemini, ajudou a modificar as dinâmicas sociais, conforme a psicóloga Thaynara Freitas, psicoterapeuta comportamental. Assim, relações antes comuns entre fãs e ídolos passaram a incluir usuários e softwares.

“A inteligência artificial é muito notável hoje por conta dessa facilidade de diálogo, então parece que você está conversando com uma pessoa, porque as respostas são cada vez mais emotivas e emulam o mesmo comportamento humano. É uma repetição muito natural”, explica a psicóloga.

Para Vladimir Nunan, sentimentos “parassociais” são um resultado de um trânsito pós-moderno. De relações realmente humanas e físicas, caminhamos em direção a “espaços mediados por plataformas e agentes artificiais”. O parassocial, portanto, apontaria “para uma busca por pertencimento em ambientes escaláveis, porém emocionalmente assimétricos”, conforme ele.

No entanto, há quem aponte o sentimento parassocial como algo não necessariamente ruim, mas acolhedor. Foi o caso da história narrada pela repórter do O POVO, Odara Creston, em um relato sobre um dos desdobramentos de uma relação desse tipo: de luto com a morte de um artista.

Ela disse ter passado por isso com o falecimento de Liam Payne, ex-integrante da banda One Direction. Relatou sentimentos complexos: dor intensa, triste e familiar e, ao mesmo tempo, culpa por não saber expressá-la aos outros.

 

“Uma pessoa que fez parte da minha infância, adolescência e começo da vida adulta morreu. Como explicar para as pessoas que eu estou chorando porque meu ídolo faleceu? Ainda mais quando sabem que a pessoa mais importante da minha vida também já fez a passagem?”, escreve a jornalista, que perdera a mãe anos antes.

 

Ao produzir uma reportagem sobre o assunto, Odara entrou em contato com outras pessoas que, assim como ela, experienciaram esse tipo de luto e, no meio da estranheza do “desconhecimento”, encontrou empatia.

“Foi tão enriquecedor perceber que é, sim, normal chorar por aqueles que não conhecemos pessoalmente. O luto é um processo e um dia passa a não doer tanto e ser aquela 'saudade boa' que tantos que já passaram por isso falam”, comenta.

 

 

Quem morde as iscas do ódio?

Algumas publicações se passam por notícia, mas são completamente mentira. São as fake news, já bem conhecidas pelos brasileiros.

Outras trazem fatos ou opiniões polêmicas de propósito para causar reações exaltadas das pessoas que as leem ou assistem. O intuito é provocar discórdia, briga e, assim, engajamento. A máxima é: “não importa o que as pessoas estão comentando, o importante é comentar”.

Esses conteúdos são os “rage bait”, ou iscas de ódio. “As pessoas brigam nos comentários, compartilham indignadas e o conteúdo se espalha, mesmo sem acrescentar informação real”, diz Vladimir Nunan.

Exemplo apontado como rage bait. Uma opinião controvérsa, para gerar comentários(Foto: Reprodução/X/Reddit)
Foto: Reprodução/X/Reddit Exemplo apontado como rage bait. Uma opinião controvérsa, para gerar comentários

A expressão remonta a 2002, de um fórum de discussão online. Fazia referência à reação enfurecida de um motorista enquanto outro piscava os faróis para ultrapassá-lo.

Nesses 20 anos de mudança de significado do termo, a quantidade de informações disponíveis aumentou a cada dia. Cabos debaixo da terra, o 5G e a banda larga expandiram o acesso às redes sociais entre os pontos mais distantes do globo e uma inteligência não humana acelerou exponencialmente a velocidade com que pensamentos viram contéudo digital.

Um turbilhão de mensagens chega ao cérebro a cada segundo, mas nem tudo capta o olhar. Para destacar algo no amontoado, é preciso apelar para coisas “emocionalmente” chamativas. Basta pensar: quais os momentos que você mais se lembra da sua vida? Os que te causaram fortes emoções. O mesmo serve para os conteúdos.

 

Uma maneira de explicar o “rage bait” é tratá-lo como uma evolução do clickbait. O clickbait é uma tática de conteúdo que usa títulos sensacionalistas, imagens chamativas ou informações exageradas para atrair cliques e visualizações, gerando receita. A diferença é que o rage bait necessariamente instiga o ódio.

 

Esse tipo de incitação existe há muito tempo, conforme define Rodrigo Toniol, professor do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Com os tabloides, por exemplo, o sensacionalismo reinava para vender revistas. “Nesse caso, o rage bait é quase como a gente jogando na polaridade, nos extremos, para fazer com que a pessoa queira ver aquilo e de alguma maneira reconheça naquele exagero descrito, algo que deixa ele muito indignado e que por isso faz ele querer ver querer ir mais atrás ainda”, diz o professor.

Tabloides são descritos como uma versão anterior aos "clickbaits" da internet, pelo antropólogo Rodrigo Tonoi(Foto: Mary Altaffer/AFP)
Foto: Mary Altaffer/AFP Tabloides são descritos como uma versão anterior aos "clickbaits" da internet, pelo antropólogo Rodrigo Tonoi

Ou seja, as emoções humanas estão sendo “atiçadas”, como verdadeiros peixes atraídos por uma isca. A consequência é ligeira. Por estarem em contato com milhares de indivíduos diferentes do mundo inteiro, sentimentos fortes proliferam-se como vírus. “Além disso, as pessoas hoje estão cada vez menos tolerantes à raiva. Elas reagem muito rápido”, ponderou a psicóloga Thaynara, citada mais acima.

O rage bait, portanto, é uma estratégia de mercado. “Evidencia a economia da atenção levada ao limite, em um ecossistema no qual emoções intensas se tornam ativos monetizáveis. O rage bait expõe como emoções básicas são exploradas quando o diálogo perde valor econômico”, resume Vladimir Nunan. Ou seja, harmonia não dá dinheiro.

 

 

Programando na “vibe”

O termo escolhido pelo dicionário Collins foca os olhares em quem está por trás desse sistema tecnológico todo: os programadores.

Vladimir Nunan descreve “vibe coding” como uma forma “mais solta” de programar, usando inteligência artificial. Seria como: “em vez de escrever todo o código, a pessoa diz o que quer, testa, ajusta e vai ‘sentindo’ se o resultado funciona, deixando a IA ajudar no caminho”.

 

“Alguém quer criar um site simples e pede ajuda a uma IA dizendo algo como ‘quero uma página moderna, clara e fácil de usar’. A pessoa testa o resultado, pede ajustes e vai refinando até ficar do jeito que imagina, sem escrever código detalhado” - vibe coding, por Vladimir Nunan


O termo foi cunhado por Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI e ex-diretor de IA da Tesla, em um post na plataforma X (antigo Twitter) em fevereiro de 2025. Há familiaridades dele com outros fenômenos da linguagem, segundo o antropólogo Rodrigo Tonoi.

“Tem a ver com uma relação entre você transmitir a comunicação pela forma, muito mais do que pelo conteúdo. Isso é um debate imenso no jornalismo, no campo da linguística. A possibilidade da gente pensar que o meio é a própria mensagem”, diz.

Vibe coding foi escolhida como uma das palavras que definem o ano de 2025. Imagem gerada por IA(Foto: Cultura Creative / AdobeStock)
Foto: Cultura Creative / AdobeStock Vibe coding foi escolhida como uma das palavras que definem o ano de 2025. Imagem gerada por IA

Parece simples e positivo, porém Vladimir Nunan, CEO da Eduvem, indica que esse tipo de programação revela uma mudança “profunda” na relação entre humanos e sistemas técnicos. “Menos comando direto e mais coautoria entre pessoas e máquinas”, diz.

Segundo ele, “o vibe coding indica que começamos a aceitar sistemas que não compreendemos plenamente, confiando mais na sensação de que algo funciona do que na compreensão de como funciona”. De novo, o imediatismo de se interessar pelo fim e não pelos meios.

Isso teria relação com nossa mentalidade, de querer sempre o mais simples, rápido e fácil. “Hoje a gente tem, conforme maior acesso, mais necessidade de maior acesso. Não sei se ficou estranho, mas quanto mais fácil a gente tem algo, mais fácil a gente queira que seja”, resume a psicóloga Thaynara.

 

 

A tecnologia “toma de conta” do vocabulário

Os três entrevistados concordaram que as três palavras escolhidas conversam entre si: refletem o mundo digital e, acima de tudo, como ele molda nossa mente, ações e relações.

Assim como todos os marcos da humanidade, são as inovações que implicam novos termos e expressões. Surge a necessidade de palavras para nomear novos sentimentos e novas relações com o novo. “Nomear novos fenômenos, novas sensações ou até nomear aquilo que esse mundo online tem produzido”, define o antropólogo Rodrigo.

Um bom reflexo disso seria observar a evolução das palavras do ano. Em 2024, os termos escolhidos pelo Dicionário Oxford foram ansiedade e “brain rot”, esse último referente à podridão cerebral devido ao consumo excessivo de conteúdo digital superficial e sem desafios. “Ambos também são muito associados ao campo digital”, diz Rodrigo.

 

Palavras do ano, pelo dicionário Orfoxd, desde 2020

 

As escolhas de 2025, portanto, refletem menos eventos específicos e mais um cenário estrutural, segundo Vladimir Nunan. A tecnologia, para ele, deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a atuar como ambiente relacional, cognitivo e emocional.

As três palavras apontariam para esse cenário e, juntas, indicam “um paradoxo central do nosso tempo”. Ainda que mais conhecedores do outro, não nos aproximamos da verdade dele. Portanto, as três palavras falariam menos sobre tecnologia e mais sobre as pessoas.

Diz Vladimir: “Parassocial, rage bait e vibe coding não são modismos isolados. São sinais de um tempo em que emoções, relações e decisões estão cada vez mais entrelaçadas com a tecnologia. O desafio não está em frear esse avanço, mas em escolher com consciência como queremos nos relacionar com ele, para que a tecnologia amplifique nossa humanidade, e não substitua nossa capacidade de sentir, pensar e se responsabilizar”.

 

 

Para onde caminhamos com nossos pés humanos?

A tecnologia não é, por natureza, desumanizante, defendem os especialistas. Tudo depende da forma como nós, criadores e usuários, nos relacionamos com ela. “Ela se torna ruim quando abrimos mão da nossa agência, do nosso tempo interno e da nossa capacidade de reflexão”, diz Vladimir Nunan.

Para ele, “a questão não é se a tecnologia continuará avançando. Isso é certo. A pergunta fundamental é quem estamos nos tornando à medida que ela avança”. O desafio seria preservar a humanidade no meio do cerco tecnológico.

O desafio no meio tecnológico é preservar a humanidade e o contato com o outro(Foto: GUNNER GU / AdobeStock)
Foto: GUNNER GU / AdobeStock O desafio no meio tecnológico é preservar a humanidade e o contato com o outro

Ainda que a tendência seja de que as relações humanas com a tecnologia se tornem mais intensas, há maneiras de melhorar isso. Uma das técnicas seria afastar-nos um pouco do meio virtual.

Algumas dicas dadas pela psicóloga Thaynara envolvem atos simples, mas deixados de lado, como sair de casa, priorizar relações presenciais, ler livros físicos e escrever à mão. Assim, utilizaríamos dos sentidos para viver com calma, observar o outro, tocar, sentir cheiros, abraçar e respirar.

“É inevitável que a gente seja atravessado pela tecnologia, né, só que a gente não pode deixar que a tecnologia seja maior do que a nossa humanidade. A gente não pode deixar que a tecnologia preencha espaços que o ser humano preenche hoje”, diz Thaynara.

 

Ações para priorizar a humanidade no cerco tecnológico


A outra estratégia seria procurar resquícios de humanidade na tecnologia, conforme defendem Vladimir Nunan e o professor Rodrigo Tonoi. Também reconhecer que nem tudo precisa ser instantâneo ou automatizado. Ou, simplesmente projetar tecnologia com responsabilidade, respeitando limites humanos e não apenas métricas de performance.

Segundo Nunan, “passa por fortalecer o letramento digital e crítico, indo além da técnica para compreender os impactos comportamentais. E envolve resgatar espaços de reciprocidade real, onde haja escuta, conflito construtivo e presença”. Assim, promover um convívio menos conflituoso e mais harmônico, entendendo o ser humano como tecnológico e a tecnologia como produto humano.

 

 

"Olá! Aqui é Ludmyla Barros, repórter do O POVO+. O que achou da matéria? Te convido a comentar abaixo!"

O que você achou desse conteúdo?