Não há universidade que explique a profundidade reflexiva de quem consegue sintetizar a ganância humana na frase: “Tentando suprimir aquilo que a natureza nos limitava, a gente chega ao limite da própria natureza”. Essa é a potência de Marina Silva, 67 anos, ambientalista acreana e 23ª ministra de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) do Brasil, a segunda vez no cargo.
Não foram a licenciatura em História pela Universidade Federal do Acre (Ufac), ou as pós-graduações em Teoria Psicanalítica (Universidade de Brasília) e em Psicopedagogia (Universidade Católica de Brasília) que entregaram a Marina a base filosófica para entrelaçar com habilidade as relações do capitalismo, do consumo, dos direitos sociais e dos direitos ambientais.
Foram, na realidade, os 16 anos em que ela viveu sem saber ler e escrever, iniciados em 8 de fevereiro de 1958 na pequena comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço (Rio Branco, Acre).
Onde nasceu como filha de um seringueiro e uma dona de casa, irmã de 10, três falecidos; e onde trabalhou nas trilhas de seringueiras, extraindo artesanalmente látex das árvores junto com a família para colocar comida na mesa.
O desejo de ser freira e a primeira contração de hepatite a levaram até Rio Branco (AC). Lá, foi acolhida na casa das irmãs Servas de Maria Reparadora, onde aprendeu a ler e trabalhou como empregada doméstica para se sustentar. Essa experiência, tão parecida ou equivalente à realidade de milhares de brasileiras, concedeu à Marina a mente capaz de filosofar sobre a natureza.
É dessa história que Marina deságua na entrevista de outubro de 2015, concedida ao jornalista Bruno Torturra para o programa Fluxo, citada na aspa acima.
Entre conversas sobre a campanha presidencial de 2014, quando Marina encabeçou a chapa após a morte de Eduardo Campos, em um acidente aéreo em 13 de agosto de 2014; e sobre combustíveis fósseis — com perguntas que seguem as mesmas dez anos depois —, a ministra refletiu sobre a crise socioambiental, política e econômica a partir da filosofia.
“A humanidade caminhou boa parte da sua trajetória baseada no ideal do ser. Os gregos queriam ser sábios e livres; querendo isso, eles criaram a democracia. Os romanos queriam ser grandes e fortes, e para legitimar sua grandeza inventaram e deram grande contribuição para o direito. Os egípcios queriam ser imortais, então eles gastavam mais tempo construindo a tumba do que a casa, mas deram grande contribuição para a medicina”, reflete.
“A gente chega no mercantilismo há 450 anos e muda milhares de anos de trajetória civilizatória, e o ideal do ser é capturado pelo ideal do ter”, pontua Marina.
“Então o ser cientista, o ser filósofo virou fazer ciência e filosofia. O ser santo vira fazer igreja, fazer dízimo, fazer fiéis… Numa cosmovisão em que a base de orientação é fazer e ter, há de se criar um buraco negro para botar tanta coisa que se faz. E o que nós fizemos? Criamos esse buraco negro. Ele se chama consumo.”
Assista à entrevista
A entrevista de Torturra é a porta de entrada para entender a mente de Marina. Enquanto, naturalmente, outras focam em pautas factuais, tensões e polêmicas políticas e questões sobre acordos ambientais, Torturra permite que a ministra apresente, sem interrupções, todo o rol de conhecimento que a tornou uma das mais respeitadas lideranças ambientais do Brasil e do mundo.
Em 2007, foi laureada como Champion of the Earth pela Organização das Nações Unidas (ONU), a maior honraria ambiental da instituição. O fato de ter conseguido reduzir em 50% o desmatamento na Amazônia em dois anos, como ministra de Meio Ambiente em 2003, foi um marco para alcançar a honraria.
Não à toa, quando Marina caminha pelas salas de negociação climática e ambiental mundo afora, ela é recebida com sorrisos e respeito. É ouvida atentamente, e seu posicionamento tem peso e serve de guia, principalmente para outros países latinoamericanos.
É diferente da forma que é tratada no Senado Federal, onde é ofendida sistematicamente. Caso reiterado é o do senador Plínio Valério (PSDB-AM), que em março de 2025 disse, em evento público no Amazonas: “Imagine o que é tolerar a Marina seis horas e dez minutos sem enforcá-la”.
Tudo para meses depois, em maio, ele usar uma audiência que tinha Marina como convidada para dizer que estava “falando com a ministra e não com a mulher, porque a mulher merece respeito, a ministra, não.”
“Dificilmente isso seria dito se o debate fosse com um homem”, resumiu Marina durante o programa Bom Dia Ministra, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), após o primeiro ataque. “É dito porque é com uma mulher preta, de origem humilde e uma mulher que tem uma agenda que em muitos momentos confronta os interesses de alguns”, acrescentou.
Novamente, as origens. Marina Silva consegue reunir em sua história e identidade todos os fatores que movem a luta ambientalista brasileira. Quem a vê, principalmente os nortistas e nordestinos, enxerga nela a imagem de muitas avós do interior.
O cabelo penteado para trás, com fios grisalhos e cacheados, os trejeitos, o sorriso. Marina é a imagem de uma brasileira que historicamente não teve acesso a uma educação formal, e ainda assim carrega uma sabedoria ancestral.
No caso da ministra, foram necessários apenas 11 anos entre se alfabetizar e alcançar a pós-graduação — uma sede para sustentar, com referências acadêmicas, o que a vida já tinha ensinado.
Essa tendência é de nascença. Quem realizou o parto de Marina foi a avó Júlia, parteira, uma cearense que migrou com o filho Pedro Augusto da Silva, pai de Marina, para a floresta amazônica.
“Ela era era mestra nos saberes narrativos e na sabedoria popular. Ensinou-me o poder da memória, da palavra e a admiração pela beleza, propiciando todos os estímulos necessários para o meu desenvolvimento”, rememora a ministra em publicação no Instagram.
“Esse saber não se perde, mas se adensa, se desenvolve, se expande quando a mulher tem a oportunidade de integrar a ele o saber sistematizado dos postulados denotativos da escola”, diz, narrando a própria história. “E por isso, nas mulheres que são expoentes da ciência, vemos uma sabedoria que vai além do conhecimento e se coloca a serviço da vida.”
A trajetória política de Marina Silva começou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), impulsionadas pela teologia da libertação. Foi quando, aos 17 anos e com o mesmo sonho de ser freira, ela conheceu Chico Mendes. “Esse encontro mudou minha vida”, comenta em post no Facebook de 2018.
Aconteceu durante um curso de liderança sindical rural, ao qual ela foi incentivada por um cartaz na Igreja. “Depois disso, comecei a compreender que a minha fé não era pra ficar encerrada em quatro paredes. Passei a trabalhar com ele até sua morte. Lutávamos pela defesa das florestas, dos índios e dos seringueiros. A luta de Chico permanece viva!”
Com Chico, Marina liderou empates — quando a comunidade ia em massa obstruir avanços do desmatamento, criando espécies de correntes humanas —, e fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Acre, em 1984.
Marina era a “nega veia” de Chico, e ela lembra da última conversa entre eles. O ambientalista estava conformado que seria assassinado, que os “cabras” enfim o pegariam. Marina foi de encontro com o pressentimento, pediu para o colega ir às autoridades, mas ele sabia que seria interpretado como um promocionista.
Cinco dias depois, em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi executado com três tiros de escopeta no peito por Darci Alves, a mando do pai Darly Alves, grileiro de terras da região. O último contato de Marina com Chico foi um abraço.
“Muitas das coisas que eu faço e como me comporto, acho que aprendi com ele, sem nem saber que estava aprendendo e ele, talvez, nem sabendo que estava ensinando”, rememora a ministra à revista Philos.
A carreira política de Marina está entrelaçada à de muitos partidos. Ela ingressou no Partido Revolucionário Comunista (PRC) no começo dos anos 1980, quando a organização marxista ainda abrigava o Partido dos Trabalhadores (PT). Em 1986, ela filiou-se ao PT e se candidatou a deputada federal.
Permaneceu no PT até 2008, após renunciar ao 13º Ministério de Meio Ambiente (MMA) por desavenças com o então presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Em 2009, filiou-se ao Partido Verde (PV).
A filiação ocorreu por influência do Partido Verde Europeu, que em 2007 ficou interessado pelo movimento apartidário “Movimento Marina Silva Presidente”. Assim, em junho de 2010, Marina foi oficialmente anunciada como candidata à Presidência da República, a primeira de três corridas presidenciais — detalhe é que Marina sempre foi contra a reeleição presidencial.
Em 2013, Marina foi ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) para concorrer à vice-presidência na chapa liderada por Eduardo Campos. Na época, ela já queria concorrer com a Rede Sustentabilidade (Rede), partido fundado por ela, mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não aprovou o registro do partido.
Em 2015, no entanto, ela consegue a filiação com a Rede e concorre na campanha presidencial de 2018. Em todas as outras corridas, Marina tinha apoio considerável dos eleitores, apesar de nunca chegar ao segundo turno.
No entanto, o cenário político de 2018, que culminou na eleição de Jair Bolsonaro (atual PL), levou Marina à pior colocação de sua carreira: 8º lugar, com 1.069.575 votos. No segundo turno, apoiou o candidato Fernando Haddad (PT).
Entre movimentos partidários, lideranças sociais e filosofias naturalistas, Marina sempre se apoiou em um alicerce: a fé. Católica até 1997 e, desde então, pentecostalista, ela guia-se por valores cristãos para encarar a caminhada pessoal.
Ela usa a fé para pensar a relação do humano com a natureza como de cuidado, não de domínio. Ainda na entrevista com Torturra, Marina foi clara ao apontar o entendimento equivocado da cosmovisão judaico-cristã e ocidental da natureza como uma posse.
“A nossa cosmovisão se apegou no Gênesis 1:28, que diz de dominar a terra e tudo que nela há. Mas se (os religiosos) conhecessem com profundidade e andassem um pouquinho mais, iria para o Gênesis 2:15, que diz: ‘E Deus colocou o homem num jardim para cultivar e cuidar’. Ou então iria para o livro de Levítico 4:6, que diz o seguinte: ‘Mas é melhor uma mão cheia com descanso do que as duas mãos cheias de trabalho e aflição de espírito’”, pontua.
A ministra pensa em uma fé integradora, na qual a natureza é um valor fundamental para a continuidade da espécie humana e da civilização. “No espaço da fé, a ciência tem todo o acolhimento. Eu gostaria que a fé tivesse o mesmo acolhimento da ciência”, declarou ao Estadão em 2010.
Por outro lado, talvez tenha sido a estreita relação com a fé que a colocou em algumas das suas principais polêmicas. Em 2010, ela se posicionou contra o casamento homoafetivo e contra a descriminalização do aborto — ainda que fosse favorável à união civil “de bens” entre homossexuais e à realização de um plebiscito sobre o aborto.
Em 2013, ela chegou a se “retratar” sobre o casamento homoafetivo, mas geralmente evita usar o termo “casamento” e prefere falar em “união civil”. Apesar disso, Marina é reconhecida pelos pares como uma mulher de mente aberta e progressista na pauta dos direitos humanos.
Com décadas de atuação, fato inegável é que Marina transformou a política ambiental brasileira. Fez isso apesar das probabilidades, incluindo a saúde fragilizada por cinco malárias, três hepatites, uma leishmaniose e pela contaminação por metais pesados acumulada desde a infância.
Muitos falam da coragem de enfrentar a violência contra os ambientalistas no segundo País que mais mata os defensores da natureza; ou da resiliência de seguir na luta política em um contexto de interesses econômicos enraizados na Nação. Mas Marina resume sua trajetória de forma simples: “A gente não faz as coisas porque tem coragem, mas porque tem compromisso.”
Série vai explorar personagens - famosos e anônimos - para destacar histórias de vida