A psicanalista Claudia Molinna é também advogada, especialista em Direito Penal e Médico. Foi uma das primeiras Delegadas da Mulher no Brasil e fundadora da tropa de elite da Polícia Civil de Pernambuco, o GOE - Grupo de Operações Especiais. Atualmente, é vice-presidente da Associação dos Delegados e Delegadas da Polícia Civil do Estado de Pernambuco
Metta: a bondade amorosa como resposta a um mundo adoecido
De origem milenar, essa prática propõe algo simples e, ao mesmo tempo, profundamente transformador, que é treinar a mente e o coração para desejar o bem
Foto: Pexels/Artem Shuba
Imagem ilustrativa de apoio
Vivemos um tempo marcado pela aceleração constante. As notícias chegam em fluxo contínuo, as crises se sobrepõem, as redes sociais amplificam conflitos e a vida cotidiana se organiza em torno de urgências permanentes. O mundo atual parece funcionar em estado de alerta contínuo.
Guerras, polarizações políticas, violência simbólica e relações cada vez mais frágeis produzem um cenário de esgotamento emocional coletivo. Fala-se muito em saúde mental, mas pouco se reflete sobre as causas profundas desse adoecimento.
Há um cansaço que não é apenas físico, mas da alma. As pessoas reagem mais do que refletem, defendem-se mais do que escutam, atacam mais do que compreendem.
O excesso de estímulos e a falta de interioridade criaram uma sociedade emocionalmente reativa, na qual o conflito se tornou linguagem habitual. Nesse contexto, práticas que cultivam equilíbrio interior deixam de ser alternativas individuais e passam a ter relevância ética e social.
É nesse cenário que a meditação da bondade amorosa, conhecida como Metta, ganha atualidade. De origem milenar, essa prática propõe algo simples e, ao mesmo tempo, profundamente transformador, que é treinar a mente e o coração para desejar o bem.
Não se trata de pensamento positivo ingênuo, nem de negação da realidade. Metta é um exercício consciente de responsabilidade emocional. Ela parte do reconhecimento de que o modo como cada pessoa lida com suas emoções, impacta diretamente o mundo ao redor.
A prática começa pelo próprio indivíduo. Desejar a si mesmo paz, segurança e bem-estar pode parecer algo pequeno, mas não é.
Em uma cultura que valoriza desempenho, controle e produtividade, tratar-se com gentileza é um gesto contra a lógica da autoviolência cotidiana. Quando alguém aprende a habitar a si mesmo com mais cuidado, reduz a necessidade de descarregar frustrações nos outros. A paz interior não é isolamento, mas base.
A partir desse ponto, Metta se expande. Primeiro para pessoas queridas, depois para aquelas com quem não há vínculo afetivo e, por fim, para quem gera desconforto ou conflito. Esse movimento é especialmente significativo no mundo atual, marcado pela desumanização do diferente.
A prática não exige concordância, nem submissão. Ela apenas rompe o desejo de ferir. Ensina que é possível manter limites sem alimentar ódio, discordar sem desumanizar, posicionar-se sem destruir.
Quando a bondade amorosa é estendida a todos os seres, surge uma compreensão essencial para o nosso tempo: a interdependência. Emoções não ficam restritas ao plano íntimo, pois moldam decisões, discursos, políticas e relações.
A agressividade cultivada internamente reverbera em ações sociais. Da mesma forma, o equilíbrio emocional fortalece escolhas mais responsáveis e humanas. Não há transformação coletiva sem transformação interior.
Metta não promete resolver os conflitos do mundo de forma imediata. Ela propõe algo mais profundo e duradouro, que é formar pessoas emocionalmente mais conscientes. Em um planeta ferido por excessos, cultivar bondade amorosa não é fraqueza, mas maturidade ética.
Talvez o maior gesto revolucionário do nosso tempo seja aprender a cuidar do próprio mundo interior para não continuar alimentando, por dentro, aquilo que tanto criticamos por fora.
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