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Louvação ao Zé de Oxum e da 2000
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Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações

Louvação ao Zé de Oxum e da 2000

De alguma forma, você me fez ter a impressão de que o homem não era somente bruteza
Tipo Crônica
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1101demitri2 (Foto: 1101demitri2)
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Fortaleza, 9 de janeiro de 1941! Zé Tarcísio esteve por aqui 84 anos e foi massa ter inveja de suas obras indizíveis, de ruminá-las como quem quer nascer de um parto inquieto, feliz e curioso pelo que tem para se ver fora e dentro.

O "Regador" suspenso em fios de aço e água na pedra meio que dizendo coisas semiáridas, invernais. Da chuva que ficou de vir todo ano. E quando, às vezes vem, já é pedra na gente, mas teimamos na rebrota.

Zé Tarcísio nunca foi o mesmo todos os dias. Era uma impressão falsa que alimentarei sempre. E parecia tão pouquinho, voz sem trovões, pedidos simples de um Zé. Gosto de ser chamado de Zé, sou o Zé, o Zé da 2000, do ateliê encantado no antigo largo do Coração Materno, do Bésame Mucho e, depois, Dragão.

 

"Um tijolo PM levemente golpeado por um machado. Delicadeza"

 

O que me dizia Zé sobre a arte, "simples", é que era coisa do cotidiano. Mentira e é sim! Mas nem todo mundo tem um corpo para sentir e se deixar regar. E que anjos são esses que sopram monstruosidades somente pra você?

Um tijolo PM levemente golpeado por um machado. Delicadeza. Quase ninguém é assim, descartesiano. Mesmo quase todos os dias.

Imaginem aquele homem sem voz de trovões e ter feito relampejar em Veneza, Paris, duas vezes na Bienal de São Paulo!

É porque aquele ser vivo, meio com cara dos últimos lobisomens efeminados das dunas da 2000 e da Praia do Futuro, subverteu o corpo em arte.

 

"Você fará uma falta, rapaz! Muito mesmo. Não era para ter ido tão agora"

 

Zé, tenho uma pena danada de você ter levado você. Logo eu, um ateu fajuto que não quero mais conversas nem fé com deus e deusa nenhuma, de nenhuma facção ou perspectiva.

Você fará uma falta, rapaz! Muito mesmo. Não era para ter ido tão agora. Compreendo o imperativo do mistério. Mas os gentis e os artistas poderiam ter perenidade. Seu "Regador" estará aí, sim, mas deixarei de desaprender com você ali.

Os delicados não poderiam deixar o mundo agora. Tão escroto! Um bosta invadindo outro bosta e espalhando mais brutalidade! Um idiota, ex-machão, miando numa celazinha para privilegiados na Polícia Federal! Vizinhos rudes, pobreza geométrica, facções enchendo o saco, uma casta de machos se revezando no poder e no comezinho! Tá um saco.

 

"Nem com minha mãe é assim. Mas sabia onde encontrar você, sei que posso correr ao colo de dona Edmar"

 

Você despreencheu um pouco meu coração. É verdade, não nos víamos corriqueiramente! Nem com minha mãe é assim. Mas sabia onde encontrar você, sei que posso correr ao colo de dona Edmar quando o vazio rasga.

Você é importante na minha vida de quase ator, quase fotógrafo, quase bailarino, quase cineasta, quase pai, quase filho, quase amante, quase cronista e repórter. Porque meu corpo se bole quando uma arte faz gozar.

Você é foda! Na casa do Arialdo Pinho, em 2013, ali antes da Copa do Mundo aqui, o Arialdo do Cid foi apresentar para alguns jornalistas do O POVO os tais projetos de legados da Fifa para Fortaleza. Falácias.

E as histórias mais empolgantes que vi lá foram enormes painéis pintados sobre o roubo e cercamento das dunas da Praia do Futuro.

Impressionante, gigantes. E, confesso, pensei qual sensibilidade e gentileza artística o secretário do governador Cid Gomes teria para comprar uma arte denúncia? Exatamente contra os ricos, os grileiros de dunas e das terras originais florestadas no caminho do mar?

 

"Vou ter de ficar com mais uma caixa de saudade, agora escrita carinhosamente Zé Tarcísio"

 

Não sei. De alguma forma, você me fez ter a impressão de que o homem não era somente bruteza. Comprou uma crônica pintada do Zé Tarcísio! Nem sei se sabia de seu tamanho, acho que não. Depois vi que a companheira dele na época – dona Fernanda Mattoso - era a sensibilidade e a gentileza no trato e bom gosto.

Vou ter de ficar com mais uma caixa de saudade, agora escrita carinhosamente Zé Tarcísio. Sim, se a transformação ainda lhe permitir, por favor, se delicie com a crônica de Saulo, meu filho, no Instagram @sauloo_monteiro. Ele, ainda bem, é artista.

"Zé, quando criança, perambulando pelo Dragão com meu pai e meus irmãos, ouvia falar daquela figura que, aos meus ouvidos, chegava encantada, enigmática, de imagem de difícil apreensão".

 

"Pois Zé, não me conformo e aceito sua partida. Impossível a morte, mas você nunca será deslembrado"

 

"O artista vivia em seu atelier ali mesmo, e eu, espiando da ponte vermelha, que já tinha sua famosa foto que alargava a existência do lugar. Mirava para a sua janela buscando, enquanto eu passava, alguma fresta de seu cotidiano e minha imaginação viajava". Saulo...

Pois Zé, não me conformo e aceito sua partida. Impossível a morte, mas você nunca será deslembrado.

Desejo que se transforme em um beco de rio, numa árvore barriguda, numa baleia grávida de um rinoceronte... pois um abraço e uma gira. Se soubesse, teria ido ao aeroporto antes da partida de seu pirilampo infinito. À Oxum, Iemajá e Santa Rita de Cássia!


 

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