Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações
Nem sempre é indício de aborrecimento ou de enfastiar-se, como me repetiram alguns dicionários virtuais. Pode ser uma trégua ao calor que está insuportável em Fortaleza e a chuva, mesmo passageira e sovina em janeiro, convida para um sono.
A chuvinha da última sexta-feira me trouxe bocejos encarrilhados e a vontade de adormecer depois de tantas barras, argolas e o corpo pendurado ou experimentando outros deslocamentos no solo. Sempre quis ser bailarina, mas o machismo dos outros e principalmente o meu impediram.
"na crônica de hoje tenho em mente apenas o arrebatamento do desapego"
Sei que tenho de pontuar entre os colegas colunistas do jornal e do O POVO+; que faço parte também de uma cozinha sofisticadíssima e cotidiana que oferece textos como pasto para quem, gentilmente, se dispõe a se alimentar de leituras e narrativas; mas na crônica de hoje tenho em mente apenas o arrebatamento do desapego...
Desapego... E um barulhinho bom de chuva na varanda do edifício sambado destoa dos dias de calor. Quentes, insistentes, na batida alvoroçada de agendas e pendências. Uma gerbera cor de sangue arrebenta, rara, entre folhas verdes. E mais surpresa! Duas amarílis laranjas também me arrancam uma felicidade e bocejo.
Pena que a pimenteira que até ontem estava carregada de vermelhinhos dedos de moça, repentina, murchou de uma tristeza indizível. Fulminante! Quis ficar assim e assim, pensar em mal olhado, quebranto, mas não.
"Comecei assim, o chover - caro para o cearense - me fez bocejar como nunca"
A pimenteira estava feliz da vida num jarro comprido onde são inquilinas, também, duas bromélias furtadas da nublada Pacoti. Na verdade, um galho caiu de velho de uma mangueira antiga e me permiti ser das bromélias. Ia morrer quando a galha virasse farelo.
Comecei assim, o chover - caro para o cearense - me fez bocejar como nunca. A temperatura um pouco menos mormaço, o sapotizeiro balançando... E, mesmo que o criminoso do vizinho tenha cortado os três pés carregados de seriguelas para colocar um canil clandestino, bateu um ventinho que me fez bocejar e desejar dormir com a chuva.
O destino deste texto era meio aquele delírio de Matusalém, 500 anos e o desejo vampiro de morrer. Cansado de se um sem fim, deitou-se numa pedra no breu da serra da Aratanha e bocejou contando estrelas.
"Mas, insubmissa, Lilith se desfez e ele acordou meio gato enfezado com mais vidas do que antes"
Dormiu que rezingou com gosto de bolo de chocolate entre os dentes, tomou gosto e viu Lilith fazer de conta que se sentaria em cima de suas virilhas. Morreria ali, finalmente aos 500 séculos e felicíssimo no gozo da derradeiro.
Mas, insubmissa, Lilith se desfez e ele acordou meio gato enfezado com mais vidas do que antes. Os que sonham parecem ir ficando, à espera de alguma felicidade guardada. Voltou a bocejar contando estrelas num platô da Aratanha e a ouvir almas que dariam tudo para não ter tido tão trágico destino.
Bocejei! É domingo. Tive, agora, vontade de jogar porrinha. Aquele jogo de palitinhos de fósforos quebrados ao meio e três pedaços nas mãos de cada jogador acostumado a jogar o tempo fora...
"E o motorista falando com a amante numa live no celular. Mentira!"
Lembrei de quando jovem, na volta do cursinho noturno, entre bocejos e sonhos de passar na UFC, testemunhar o trocador de ônibus jogar porrinha com um dos últimos passageiros da jornada...
Sonar, bocejar e esperar aportar no fim da linha do Maraponga via Parangaba. Um ônibus fuleragem e balançante da CTC.
E o motorista falando com a amante numa live no celular. Mentira! Naquela época, ela descia na última parada e ligava do orelhão. Todo mundo ouvia as empabulices do machão de Ray-ban, mesmo à noite.
"A chuva voltará a ser rara, em mais um ano, no Semiárido cearense"
E se só tivéssemos férias e folgas todas as vezes que chovesse no Ceará, o Estado mais semiárido da Pangeia? Ia bocejar muito e dormir com a chuva e as cortinas de chita.
A chuva voltará a ser rara, em mais um ano, no Semiárido cearense. Então não a percamos quando chegar para uma visita que seja, mesmo sem a boniteza dos trovões e relâmpagos.
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