Vou-me embora para Baixio. Lá não há homicídios há 13 anos. Lá a existência, talvez, tenha se tornado uma aventura invejada por, pelo menos, 168 municípios cearenses onde o assassinato gela o sangue de quem se acostumou a ser parte do medo de tomar um tiro na esquina.
Esta crônica, confesso, não sei escrevê-la - tamanha a convivência corriqueira com chacinas, feminicídios, latrocínios e "brigas" entre policiais militares que terminam com dois assassinando um terceiro "companheiro de farda".
É quase inacreditável ouvir e ler que Baixio, na divisa do Ceará com a Paraíba, não tem pessoa assassinada há mais de uma década. Eu me espanto, desconfio e, medíocre, quero não crer ser possível num Ceará tão violento e territorializado por facções.
Diz assim uma matéria do Lucas Barbosa, de 7 de agosto de 2023, "aqui é mais comum as pessoas morrerem por velhice ou doença", contempla a fisioterapeuta Giselle Ramalho, na época com 26 anos.
Isso é música para ouvidos tão invadidos pelo noticiário de contar corpos e estatísticas. Há explicações? Talvez o acaso, talvez o município com a menor população do Ceará, 5.704, talvez a proximidade entre habitantes...
A cidadezinha, desenhada no Centro-Sul do Estado, nem delegacia tem. A unidade mais próxima da Polícia Civil fica em Ipaumirim, município vizinho e com uma população de 12.083 habitantes, segundo o IBGE.
Na minha cabeça, esquadrinhada pela violência extrema de Fortaleza e da Região Metropolitana, é grave não ter ali nem que seja um delegado, quatro policiais civis e, pelo menos, uma companhia da Polícia Militar.
Não tem "destacamento" da PM por lá. Baixio está na rota do policiamento da 5ª Companhia do Interior da Polícia Militar sediada em Icó, no sul do Cariri cearense, que é responsável pelo patrulhamento das cidades da região.
O medo é meu e de seres que assistem TV e olham redes sociais no café da manhã, no almoço, na merenda e no jantar. No banheiro, no motel, na hora da missa e no quarto de dormir.
Quiseram até tirar a fama de Baixio ser o município mais da paz do Ceará. A Secretaria da Segurança do Ceará chegou a incluir um homicídio como se tivesse ocorrido por lá.
No entanto, o crime que vitimou Samuel Victor da Silva Queiroz, em 26 de outubro de 2017, ocorreu, na verdade, em Barbalha, no Cariri dos feminicídios.
A informação foi restaurada pela própria Secretaria da Segurança, devolvendo o título à Passárgada do Semiárido cearense. Não é que não haja violência em Baixio; que não tenha homens machistas e brutos; que não existam emboanças entre vidas alheias; que prefeitos e vereadores nunca tenham sido cassados por corrupção...
Existe tudo isso e, talvez, perversões silenciosas nunca descobertas ou pactuadas pela conivência; mas assassinatos não fazem parte da vida em Baixio há treze anos. Isso é muita coisa para um País embrutecido pela arma fácil, drogas em oferta e concentração de renda.
As facções criminosas do Rio de Janeiro e de São Paulo não estariam por lá? Provavelmente estão. Ao redor de Baixio o pau canta, mas pelo vau da sarapalha dos riozinhos dali os homicidas não encontram guarida ou as encruzilhadas afugentam os matadores.
Baixio e mais 14 municípios do Ceará não registraram assassinatos em 2025. É um alento ouvir que não teve assassinato o ano todo. Ano passado eu não morri nem de bala nem de faca nem de chacina nem de latrocínio nem de feminicídio.
É uma benção para quem acredita no invisível e um acaso para quem já foi abduzido. Não foi a política de Segurança Pública do Estado nem da Prefeitura de lá.
Fortaleza e 168 municípios do Ceará invejam Abaiara, Alcântaras, Antonina do Norte, Caririaçu, Deputado Irapuan Pinheiro, Ererê, Granjeiro, Guaramiranga, Hidrolândia, Ipaumirim, Moraújo, Palhano, Penaforte, Umari e Baixio.
Vou parir em Baixio!
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