Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações
O governador do PL, Jorginho Mello, e seus parlamentares justificaram ser Santa Catarina o estado brasileiro com a "maior população branca" do País e de galáxias ainda nem descobertas.
Outra dúvida. Onde a mentalidade racista - de quase quatro séculos de escravização de indígenas, negras e negros - ainda é perene e se revela em sutilezas domésticas, em blagues ou em brutalidades escancaradas?
É no Ceará? Um Semiárido invadido, mas enjeitado pelos invasores quase tangidos pelas secas? A Caatinga, este outro planeta, originalmente existido por indígenas e depois, com o estupro europeu, povoado por cabras, pardos, negros e... pelo gado.
Já vi parvos - lembro quando pivete numa escola onde estudei - dizerem que se tivéssemos sido "colonizados" pelos ingleses, aí sim, seríamos nação mais desenvolvida. Os padres irlandeses do Redentorista ficavam irados.
"Frequentariam a mesma escola particular e tentariam - em pé de igualdade - o acesso a universidades públicas, pau a pau"
Ora pois! O ser humano cearense traz "uma bondade" luso-espanhola branca e intrusa. Repete para se contradizer que a escravização aqui foi quase nada, tanto que abortamos o cativeiro antes de todas as províncias.
Talvez aí se explique, ainda hoje, a reação hipócrita a dispensáveis vexatórios com serviçais, inclusive, na justiça. Em dizê-los também "da família" e, contraditório, explorá-los desmedido.
Fosse parentesco teriam aposentos janelados, guarda-roupas, penteadeiras e camas de plumas que nem as dos rebentos das patroas. Frequentariam a mesma escola particular e tentariam - em pé de igualdade - o acesso a universidades públicas, pau a pau.
"E os "libertos" não saíram à toa, sem terras, sem casas, sem renda, sem nome de família"
Falo daqui, do cearense que não se enxerga racista, mas a casa grande ainda não deixou o Rio Grande do Sul nem Santa Catarina - os estados com zero crime de injúria racial no ano passado! Penso no Paraná, em Minas Gerais, em São Paulo… no Brasil sem exceções. É troça!
E nada disso teria a ver com a abolição assinada pela princesa bondosa que, em um belo dia carioca, despertou com vontade de cometer generosidades e libertou o povo preto, pardo e cabra.
E os "libertos" não saíram à toa, sem terras, sem casas, sem renda, sem nome de família... nem pão nem sapatos nem livros. E foram tratados semelhantes aos imigrantes brancos europeus e asiáticos. É chalaça!
Antes, lá nas capitanias, o rei-bisavô-e-tataravô da princesa cedeu terras aos seus e aos deles. Brancos portugueses, católicos, donos dos bois marruás e das cercas.
"O governador do PL, Jorginho Mello, e seus parlamentares justificaram ser Santa Catarina o estado com a "maior população branca" das galáxias"
É a crônica de uma herança previsível até hoje. O governo bolsonarista de Santa Catarina, numa insistência racista, extinguiu a lei de cotas para universidades e concursos. A PGR revogou.
O governador do PL, Jorginho Mello, e seus parlamentares justificaram ser Santa Catarina o estado brasileiro com a "maior população branca" do País e de galáxias ainda nem descobertas.
Tão perene ainda a mentalidade dos 388 anos de escravização! É a estupidez supremacista branca na cozinha lá de casa e do apartamento vizinho; do soldado e do dono do maior shopping de qualquer Brasil.
É de Santa Catarina, também, o branquíssimo marco temporal para a negação de existirmos indígenas e a cajuína.
Ando investigando cartas de alforria dos 1800 e de décadas anteriores. Lendo o branco, o negro e a "generosidade" cristã galega de hoje.
"cujo escrava que liberto fica sujeita a servir-me enquanto durar a minha existência"
Mais ou menos assim... "Eu abaixo assignada concedo liberdade, de hoje para sempre, à minha escrava Julia, parda, que a tive por herança paterna com a outra de nome Francisca que pertenceo ao senhor Manoel Jozé de Oliveira Figueiredo, cujo escrava que liberto fica sujeita a servir-me enquanto durar a minha existência". 1869.
Outra carta... "Declaro que sou Senhor e possuidor de uma escravinha de nome Esther, filha de minha escrava Florença. A qual escravinha Esther, de minha livre e espontanea vontade e sem constrangimento de pessoa alguma, concedo desde já a liberdade por duzentos mil reis e de facto liberta fica, de hoje para sempre, afim de que desde já possa gosar de sua liberdade com se fora de ventre livre". 1869.
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