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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

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Quem ganharia com a fraude dos números do coronavírus

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Vista aérea de um enterro no cemitério de Vila Formosa durante a pandemia de coronavírus, em São Paulo, Brasil, em junho de 2020
Vista aérea de um enterro no cemitério de Vila Formosa durante a pandemia de coronavírus, em São Paulo, Brasil, em junho de 2020

Uma das teses favoritas deste período de pandemia no Brasil é a ocorrência de fraudes nos atestados de óbito. O Governo Federal chegou a suspender a divulgação dos dados e anunciar que iria averiguar os números direitinho. É uma acusação muito grave. Eu nunca vi ninguém dizer: Fulano de Tal, de CPF tal, teve morte diagnosticada por infarto, ou câncer, ou faringite, ou acidente de carro, ou tiro, ou susto, e o atestado de óbito saiu como Covid-19. Isso ocorreu em tal hospital. E quem diagnosticou que a causa da morte foi outra foi o médico Beltrano. E não tem exame atestando a doença. Onde está esse caso? Não vi até hoje.

Até já me apareceu um caso em Caucaia em que foi colocado como suspeito um caso de Covid-19 - não constava como confirmado - de um homem que morreu. O filho dizia que ele não tinha sintomas de Covid-19. O hospital informou, todavia, que a principal queixa era falta de ar, que evoluiu para parada respiratória com posterior parada cardiorrespiratória. O que justificaria incluir o caso como suspeito. Pode ser que os médicos tenham mentido? Pode, mas o diagnóstico do filho - sem formação na área - é pouco para tão séria acusação.

Imaginar que isso tenha sido feito em larga escala no Brasil, na dimensão dos dezenas de milhares, e não se tem prova? Gente, isso é coisa muito séria para ser denunciado com base em conjecturas.

Um fator adicional nesse debate é: por que falsificariam os dados de mortes por coronavírus? Quem teria a ganhar? O presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer que números estariam sendo fraudados para fazer uso político. Espera, alguém me explica. Qual uso político?

Alguém acha que é bacana para o João Doria (PSDB) dizer que São Paulo tem disparado o maior número de mortes? Bom não é apontar que tem poucos óbitos? O Rio de Janeiro passou das dez mil mortes. Isso é uma propaganda legal para o governo Wilson Witzel (PSC)? O Ceará fica o tempo todo explicando que o número de mortes está muito acima da proporção da população porque faz mais exames. Camilo Santana (PT) se beneficia quando se percebe que o Estado é o terceiro em casos e mortes?

No número de casos, Fortaleza lidera, como seria natural, e em segundo lugar vem Sobral - o que já foge da proporção de habitantes. Alguém acha que isso não será usado em campanha contra os Ferreira Gomes? Que as duas cidades adotadas por estrelas do grupo lideram as confirmações?

Queria realmente entender qual ganho político eles têm. Fosse eu prefeito, ia querer que minha cidade não tivesse um caso, um óbito.

Aí existe a tese de que é tudo para prejudicar Bolsonaro. É muita autoestima atribuir uma pandemia mundial a um complô contra um presidente.

Qual o benefício político para o governante de lugar com muitas mortes?
Foto: Miguel SCHINCARIOL / AFP
Qual o benefício político para o governante de lugar com muitas mortes?

Não foi por política que Camilo deixou de ir a ato com Bolsonaro

A ausência dos governadores de Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte no evento de sexta-feira, 26, com Jair Bolsonaro teve profundo significado político. Porém, o motivo para Camilo Santana (PT) estar ausente da chegada das águas da transposição do rio São Francisco não teria nada a ver com política. O governador cearense julgou inadequado a realização da solenidade no meio da pandemia, quando áreas do Ceará seguem sobre rígidas regras de isolamento, inclusive Juazeiro do Norte, onde o avião do presidente pousou. Camilo entendeu que seria incoerente ele fazer seguidos apelos para evitar aglomerações e ir para um evento que promoveu aglomeração. Ele entendeu que o evento - e sua eventual presença - seria um estímulo a aglomeração.

Leia também | Transposição: por que os governadores disseram não a Bolsonaro

A assessoria de Camilo disse ainda que não houve qualquer combinação entre os governadores para deixarem de ir ao evento. Embora fosse estranho ter gestores de outros estados em evento no Ceará sem a presença do governador cearense.

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