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Escreve sobre política, seus bastidores e desdobramentos na vida do cidadão comum. Além de colunista, é coordenador das plataformas digitais do O POVO. Já foi editor adjunto de política e editor-executivo de Cidades no O POVO.

Opinião

Jangada Dinâmica: projeto transforma UFC em hub de pesquisa da "teoria do caos" no Nordeste

A partir da UFC, surge rede de pesquisadores em matemática do Nordeste, integrados com pesquisadores e centros de estudos internacionais nas áreas de sistemas dinâmicos e teoria ergódica
Entre as medidas, a UFC traz alternativas para a reposição das aulas afetadas pela Covid-19 e explica como será o treinamento de docentes para construção de disciplinas remotas.
Entre as medidas, a UFC traz alternativas para a reposição das aulas afetadas pela Covid-19 e explica como será o treinamento de docentes para construção de disciplinas remotas.

Foi comemorado nesta semana, na quarta-feira, 8 de julho, o Dia da Ciência. Normalmente não seria assunto para uma coluna de política. Mas, passou a ser. Talvez nunca tenha sido tanto. O Brasil menospreza e trata mal seus pesquisadores. Vai além do descaso pelo conhecimento. Trata-se de não perceber que a ciência é instrumento de desenvolvimento. Inclusive econômico. Entre muitas outras coisas, fazer ciência traz riqueza. O dinheiro aplicado não é gasto, mas investimento. Todavia, no poder público e na iniciativa privada, falta até essa inteligência para lucrar.

Ainda assim, há prodígios científicos no País. Entre as ciências, a matemática talvez seja a mais consolidada. Uma amostra: em 2014, Artur Avila se tornou a primeira pessoa formada no Hemisfério Sul a vencer a Medalha Internacional de Descobrimentos Proeminentes em Matemática, conhecida como medalha Fields. Considerada uma espécie de Nobel da Matemática, é a maior premiação científica já obtida por um brasileiro - já houve integrantes de equipes vencedoras do Nobel da Paz, mas não na área de ciências. Embora o engenheiro químico Sérgio Campos Trindade tenha sido vencedor ao integrar o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), vencedor do Nobel da Paz pela contribuição para a preservação do meio ambiente e a divulgação científica.

Há algumas razões para a matemática se destacar entre as ciências no Brasil. Não precisa de muitos recursos. Não precisa de laboratório ou equipamentos avançadíssimos. A principal necessidade é mobilidade. Intercâmbios. Interação com outros matemáticos. Viajar para fora e trazê-los para cá. Pode parecer pouco, mas cria obstáculos. Embora o Brasil seja expoente internacional em pesquisa da matemática, há desequilíbrio entre as regiões. Por isso, a partir da Universidade Federal do Ceará (UFC), o projeto Jangada Dinâmica pretende criar uma rede de pesquisadores em matemática do Nordeste e integrá-los com matemáticos e centros de estudos internacionais nas áreas de sistemas dinâmicos e teoria ergódica. Coloquialmente conhecidas como “Teoria do Caos”. A mesma área na qual Artur Avila trabalha.

O projeto tem investimento de R$ 1,2 milhão do Instituto Serrapilheira. A intenção é, a partir da UFC, formar um hub no Nordeste de pesquisa de sistemas dinâmicos e teoria ergódica. Estão envolvidos em torno de 20 pesquisadores, com 40 estudantes orientados por eles.

O Jangada Dinâmica foi idealizado e é coordenado por Yuri Lima, matemático da UFC. A instituição cearense é a base do projeto, entre outras coisas, por ter a única Pós-Graduação em Matemática pura com nota máxima pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Apesar disso, até três anos atrás, a UFC não tinha nenhum matemático da área de sistemas dinâmicos. Yuri criou um grupo de pesquisa. Nos últimos anos, muitos pesquisadores têm se formado, sobretudo no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, principal referência da área no País. “O Jangada Dinâmica pretende fazer da UFC uma espécie de hub para interligar essa grande rede de pesquisadores formados nos últimos anos que agora se encontra aqui no Nordeste e fazer a conexão com pesquisadores de renome internacional”, explica Yuri Lima.

Todos os anos, o projeto oferecerá uma bolsa de pós-doutorado a matemático de qualquer região do planeta. O pesquisador virá para a UFC durante o período, mas terá de passar dois meses por ano em outra instituição do Nordeste, como forma de difusão do conhecimento, com participação em pesquisa e eventos.

A primeira seleção já ocorreu. A escolhida foi Catherine Bruce, da Universidade de Manchester, do Reino Unido, que está concluindo doutorado. Um aspecto valorizado pelo Jangada Dinâmica e o Serrapilheira é a diversidade étnica e de gênero. A inserção das mulheres na ciência, em particular na matemática, ainda enfrenta obstáculos. Daí ser significante que uma mulher seja a primeira bolsista.

A pandemia atrapalhou um pouco os planos. Catherine já teria defendido a tese, mas precisou adiar pelas circunstâncias. O primeiro evento seria já em agosto. Mas, os planos são readequados. Em breve a Jangada irá navegar.

O que, afinal, essas áreas estudam?

Afinal, o que estudam os sistemas dinâmicos e teoria ergódica? Yuri explica que são áreas da matemática pura que se originaram, entre o século XIX e o começo do século XX, a partir de perguntas da física. O ponto de partida foi uma pergunta de Henri Poincaré, que tentou mostrar que o Sistema Solar é bem comportado de modo que dois planetas nunca irão colidir entre si.

Para que serve a matemática?

Uma parte da matemática, obviamente, está muito presente na vida cotidiana. Quando se compra qualquer coisa, quando se recebe o salário, faz um pagamento ou se conta um troco. Quando se compra um apartamento de 90 metros quadrados. Mas, muita coisa que se estuda na matemática a maioria das pessoas não sabem para que serve.

“Uma das grandes importâncias é desenvolver o raciocínio mais abstrato por parte do ser humano”, explica Yuri. A partir da observação de ocorrências cotidianas e padrões, é possível fazer modelos matemáticos, fazer deduções lógicas e tirar conclusões. É possível até mesmo prever o que vai acontecer. A partir da matemática. “Permite abstrair situações concretas e tirar conclusões a partir dessa abstração”, prossegue Yuri.

Por essa capacidade de projeção, ele conta que é comum bancos e instituições financeiras contratarem matemáticos. Nos Estados Unidos, ele diz, os cursos de matemática são muito procurados por demanda de mercado. “No Brasil, essa visão não é ainda tão madura. Quando se fala que você faz matemática, a maioria deduz que você será professor”, conta.

“Quem sabe, entender mais sobre a teoria do caos ajude a diminuir o caos do nosso País. Independente disso, uma coisa é certa: ciência foi criada e permanece sendo um grande catalisador para melhorar nossa qualidade de vida”, acredita Yuri.

Esta coluna foi produzida especialmente para a campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência. Ao longo do mês de julho, colunistas cedem seus espaços para abordar temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios.

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