É o(a) profissional cuja função é exclusivamente ouvir o leitor, ouvinte, internauta e o seguidor do Grupo de Comunicação O POVO, nas suas críticas, sugestões e comentários. Atualmente está no cargo o jornalista João Marcelo Sena, especialista em Política Internacional. Foi repórter de Esportes, de Cidades e editor de Capa do O POVO e de Política
Uso da palavra "ainda" na descrição do cenário de pesquisas eleitorais podem passar ideias dúbias ou tendências que não estão expostas nos levantamentos de intenção de voto
Foto: Lula Marques/Agência Brasil.
Governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e de São Paulo, Tarcísio de Freitas
A migração de Ronaldo Caiado do União Brasil para o PSD foi o fato que mais movimentou o cenário pré-eleitoral na última semana. O governador goiano anunciou a mudança em dois tempos. Primeiro com uma carta aberta publicada nas redes sociais na noite de terça-feira, 27, endereçada a Antônio Rueda, presidente do União Brasil, comunicando o desligamento da legenda.
Uma hora depois naquela noite, numa segunda postagem, Caiado anunciou o ingresso no PSD ao lado dos também governadores e agora correligionários Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ratinho Jr. (Paraná). Os três têm pretensões de concorrer ao Palácio do Planalto em outubro próximo.
Na matéria que saiu na quarta-feira, 28, com assinatura da Agência Estado, uma palavra chamou atenção em trecho do texto que explicava o cenário atual para Caiado nas pesquisas. “A movimentação de Caiado ocorre em um cenário em que ele ainda aparece atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em simulações eleitorais.”
O emprego do termo “ainda” na frase pode abrir margem para uma dupla interpretação. De fato, Caiado tem tido um desempenho discreto nas sondagens. Na pesquisa Atlas Intel/Bloomberg divulgada há 10 dias, ele oscila entre 3% e 15% das intenções de voto.
O cenário no qual ele se sai melhor é no qual não estariam na disputa o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e qualquer outro membro da família Bolsonaro. Nesta simulação, Lula aparece com 49%.
O problema da palavra “ainda” está na ideia implícita de que Caiado estar atrás de Lula nas pesquisas seria uma coisa momentânea. Tratando quase como inevitável uma ultrapassagem. É claro que é possível ocorrer uma mudança neste cenário, sobretudo num contexto de disputa eleitoral imprevisível, que permite mais dúvidas do que certezas. Mas o termo utilizado deixa no ar uma tendência que não tem sido exposta nas pesquisas.
Outro uso do “ainda”
Na mesma edição de quarta-feira do O POVO, a palavra “ainda” foi usada em outro contexto, e desta vez mais adequado. A editoria de Cidades publicou a matéria “Maranguape ainda não registrou homicídios em 2026”. O texto destacou que o último assassinato registrado no município da Região Metropolitana de Fortaleza ocorrera em 25 de dezembro de 2025.
Maranguape ganhou manchetes nacionais ano passado com a marca negativa de ser o município com maior número de homicídios do Brasil. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou pesquisa mostrando que Maranguape registrou o índice de 79,9 assassinatos para cada 100 mil habitantes.
Levantamento feito por O POVO em janeiro deste ano mostrou que o número de homicídios em Maranguape cresceu 24,7% em 2025, chegando ao índice de 97,58 assassinatos por 100 mil habitantes. Marca que mantém o município no topo entre os médios e grandes do Ceará e indica que repetirá o desempenho negativo nacionalmente.
Neste contexto, o uso do “ainda” está mais condizente. Era difícil crer que o hiato criminal observado em janeiro em Maranguape seria duradouro. Tanto que na mesma quarta-feira, o município registrou o primeiro homicídio após 33 dias.
Aposta errada
O Flamengo fechou na última semana o retorno do meia Lucas Paquetá. O rubro-negro carioca desembolsou 42 milhões de euros ao West Ham, da Inglaterra, para contratar o atleta nesta que é a maior transação da história do futebol brasileiro em valores nominais, desconsiderando correções de inflação.
Não ficou claro se o enunciado foi intencional ou uma infeliz coincidência. Os leitores mais assíduos do noticiário esportivo sabem que Paquetá foi alvo na Inglaterra de investigação por um suposto envolvimento em esquema de apostas, no qual foi acusado de tomar cartões amarelos propositalmente, o que teria beneficiado apostadores da Ilha de Paquetá, onde o meio-campista foi criado.
A Comissão Reguladora da Associação de Futebol da Inglaterra (FA) absolveu o atleta em julho do ano passado por considerar que as acusações não tinham comprovação. Apesar disso, para parte considerável do público, a pecha ficou em Paquetá. Nas redes sociais, vira e mexe o nome dele é relacionado em “tom de piada” a eventuais suspeitas de fraudes em apostas esportivas.
Bom humor e futebol andam próximos não é de hoje. Embora com variações de estilo, a cobertura esportiva brasileira - especialmente a do futebol - sempre permitiu uma linguagem mais descontraída, sem a rigidez de códigos e signos de outras editorias como Política e Economia. E, é bom que se diga, adotar um tom “mais informal” não significa abrir mão de princípios jornalísticos de responsabilidade com a informação levada ao público.
Há espaço para esse tom mais espirituoso na cobertura esportiva. Mas o bom humor requer prudência. Neste caso especificamente, a chamada da matéria sobre a contratação de Lucas Paquetá errou a mão. Não é papel do jornalismo reverberar piadoca inconsequente de rede social.
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