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Esnobismo cronológico: por que julgamos o passado com a arrogância do presente
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Vladimir Nunan é CEO da Eduvem, uma startup premiada com mais de 20 reconhecimentos nacionais e internacionais. Fora do mundo corporativo, é um apaixonado por esportes e desafios, dedicando-se ao triatlo e à busca contínua pela superação. Nesta coluna, escreve sobre tecnologia e suas diversidades

Vladimir Nunan tecnologia

Esnobismo cronológico: por que julgamos o passado com a arrogância do presente

Entender o esnobismo cronológico é essencial para analisar tecnologia, ciência, inovação e até decisões humanas com mais honestidade intelectual
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É comum ouvir frases como “naquela época ninguém entendia de tecnologia”, “isso era muito primitivo” ou “hoje somos muito mais avançados”. Elas aparecem quando falamos de computadores antigos, celulares grandes, internet lenta, máquinas analógicas ou até métodos científicos e educacionais do passado.

Quase sempre essas frases são ditas com certa superioridade. Como se o simples fato de estarmos vivendo agora nos tornasse automaticamente mais inteligentes, mais preparados ou mais evoluídos do que quem viveu antes. Esse comportamento tem nome. Chama-se esnobismo cronológico.

O termo descreve a tendência de julgar o passado usando apenas os valores, conhecimentos e tecnologias do presente, partindo do princípio de que tudo o que veio antes era inferior, ingênuo ou ultrapassado.

É uma forma de arrogância temporal que nos faz esquecer algo básico: o passado não tinha acesso às ferramentas que temos hoje, mas isso não significa falta de inteligência, visão ou capacidade.

Entender o esnobismo cronológico é essencial para analisar tecnologia, ciência, inovação e até decisões humanas com mais honestidade intelectual.

A origem do termo

O conceito de esnobismo cronológico foi popularizado pelo escritor e pensador C. S. Lewis. Sim, o que escreveu As Crônicas de Nárnia e outras muitas obras literárias. Ele usava o termo para criticar a ideia de que tudo o que é mais recente é automaticamente melhor ou mais verdadeiro.

Segundo Lewis, muitas pessoas descartam ideias antigas não porque elas foram refutadas, mas simplesmente porque são antigas.

Isso cria uma falsa sensação de progresso contínuo, como se a história fosse uma linha reta de evolução sem erros, retrocessos ou repetições. Aplicado à tecnologia, esse pensamento é ainda mais comum.

Julgar tecnologia antiga com olhos de hoje

Quando olhamos para um computador dos anos 1980, com pouca memória e telas monocromáticas, é fácil rir. Quando vemos um celular antigo, pesado e com poucas funções, a comparação com os smartphones atuais parece injusta. Mas essa comparação costuma ignorar o contexto.

Na época em que essas tecnologias surgiram, elas representavam o que havia de mais avançado. Foram resultado de pesquisa, engenharia, criatividade e limitação de recursos. Eram respostas possíveis para os desafios daquele momento histórico.

Julgar essas tecnologias apenas pelo que elas não tinham, em vez do que elas possibilitaram, é um exemplo clássico de esnobismo cronológico.

O erro de confundir limitação com incapacidade

Existe uma diferença importante entre limitação tecnológica e incapacidade intelectual. Pessoas do passado não eram menos inteligentes. Elas apenas tinham menos ferramentas.

Muitas das ideias que usamos hoje nasceram décadas atrás, mas só puderam ser implementadas quando a tecnologia alcançou um determinado nível.

A internet, por exemplo, começou como um projeto acadêmico e militar. A ideia de conectar computadores não é nova. O que mudou foi a infraestrutura, o custo e a escala.

O mesmo vale para inteligência artificial. Muitos algoritmos usados hoje foram pensados no século passado. O que faltava era poder computacional e dados em larga escala. Quando ignoramos isso, caímos no esnobismo cronológico.

O passado como laboratório do presente

Tecnologia não surge do nada. Ela é construída sobre camadas de tentativas, erros e soluções anteriores. Cada geração herda o que a anterior construiu.

Desprezar tecnologias antigas é desprezar o caminho que nos trouxe até aqui. O teclado que usamos hoje segue padrões criados há mais de um século. Sistemas de organização de informação usados em bibliotecas influenciaram mecanismos de busca digitais. Conceitos de redes, protocolos e linguagens nasceram muito antes da popularização da internet. Nada disso faz sentido sem o passado.

Quando o esnobismo cronológico vira distorção histórica

O problema do esnobismo cronológico não é apenas a falta de respeito com o passado. Ele distorce a compreensão da história.

Ao olhar para trás com desprezo, criamos uma narrativa falsa de progresso inevitável. Isso nos faz acreditar que tudo o que fazemos hoje é naturalmente superior, o que não é verdade.

A história da tecnologia está cheia de soluções abandonadas que eram eficientes, sustentáveis e adequadas ao seu contexto. Muitas foram descartadas não por serem ruins, mas por interesses econômicos, mudanças culturais ou decisões políticas. Ignorar isso empobrece o debate sobre inovação.

Exemplos comuns de esnobismo cronológico na tecnologia

Há exemplos por toda parte. Quando alguém diz que fotografias analógicas eram inúteis porque não tinham edição digital, ignora a qualidade estética, a técnica envolvida e o controle criativo do processo.

Quando se afirma que mapas em papel eram ineficientes, esquece-se que eles funcionaram por séculos e ainda hoje são usados em diversas situações.

Quando se critica a internet antiga por ser lenta, esquece-se que ela abriu caminho para toda a comunicação digital atual.

Esses julgamentos partem sempre do mesmo erro: avaliar o passado com métricas que só existem no presente.

O risco de repetir os mesmos erros

O esnobismo cronológico também nos impede de aprender com erros antigos. Ao acreditar que somos mais evoluídos, deixamos de observar padrões que se repetem.

Problemas de privacidade, por exemplo, já existiam antes da era digital. Tecnologias de vigilância surgiram em outros contextos históricos. Debates sobre automação e trabalho também não são novos.

Quando acreditamos que tudo é inédito, perdemos a chance de aprender com experiências anteriores.

Tecnologia do presente também será julgada no futuro

Existe uma ironia pouco discutida. As tecnologias que hoje consideramos modernas e avançadas também serão vistas como limitadas no futuro.

Smartphones parecerão primitivos. Redes sociais serão analisadas como experimentos sociais mal compreendidos. Sistemas atuais de inteligência artificial poderão ser vistos como rudimentares.

Isso não significa que sejam inúteis hoje. Significa apenas que toda tecnologia é filha do seu tempo.
Reconhecer isso exige humildade histórica.

O esnobismo cronológico e a ilusão do progresso linear

Outro problema é a crença de que o progresso tecnológico é sempre linear e positivo. A história mostra que isso não é verdade.

Há avanços, retrocessos e escolhas equivocadas. Algumas tecnologias trouxeram ganhos enormes, mas também novos problemas.

Automação aumenta produtividade, mas gera desemprego em certos setores. Comunicação digital aproxima pessoas, mas também amplia desinformação. Armazenamento de dados facilita acesso à informação, mas cria riscos de vigilância.

Tratar o presente como ápice absoluto impede uma avaliação crítica.

A importância de analisar contexto

Avaliar tecnologias do passado exige entender o contexto em que elas surgiram. Quais eram os recursos disponíveis. Quais problemas precisavam ser resolvidos. Quais limitações existiam. Sem contexto, a análise vira julgamento superficial.

Isso vale tanto para tecnologia quanto para ciência, educação, políticas públicas e comportamento humano. Nada nasce pronto. Tudo é resposta a um tempo específico.

O esnobismo cronológico na educação e no debate público

Esse tipo de pensamento também aparece na educação. Métodos antigos são descartados sem análise. Livros clássicos são considerados ultrapassados apenas por serem antigos.

No debate público, ideias são rejeitadas não pelo conteúdo, mas pela idade. O novo vira sinônimo de melhor, mesmo quando não é. Isso cria um ambiente raso, onde o entusiasmo com inovação substitui reflexão.

Inovação não é desprezo pelo passado

Inovar não significa rejeitar tudo o que veio antes. Pelo contrário. As maiores inovações costumam surgir da combinação entre conhecimento antigo e novas possibilidades técnicas.

Quem entende o passado inova melhor. Quem o despreza corre o risco de reinventar erros. Empresas de tecnologia que estudam soluções antigas frequentemente encontram ideias valiosas que podem ser reaproveitadas com novos recursos.

Humildade como postura intelectual

Combater o esnobismo cronológico exige humildade. Reconhecer que estamos em um ponto da história, não no fim dela.

Exige aceitar que nossas soluções atuais também têm falhas, limites e consequências não previstas. Essa postura não diminui o valor do presente. Pelo contrário. Torna o debate mais honesto e mais inteligente.

Por que esse conceito importa hoje

Vivemos um momento de aceleração tecnológica intensa. Inteligência artificial, automação, biotecnologia e computação quântica estão mudando a forma como vivemos.

Nesse cenário, o risco do esnobismo cronológico aumenta. Tudo o que não se adapta imediatamente às novas tecnologias é tratado como obsoleto.

Mas nem tudo precisa ser substituído. Nem toda inovação é melhoria. Nem toda solução antiga perdeu seu valor. Entender isso é fundamental para decisões mais responsáveis.

O passado como aliado, não como inimigo

O passado não é um atraso a ser superado. É um acervo de experiências acumuladas. Ele contém erros, mas também soluções engenhosas.

Tratá-lo com desprezo nos torna cegos. Tratá-lo com respeito nos torna mais conscientes. O esnobismo cronológico cria uma falsa sensação de superioridade que empobrece o pensamento crítico.

Conclusão

Avaliar tecnologias do passado com arrogância é confortável, mas intelectualmente frágil. O esnobismo cronológico nos faz esquecer que somos herdeiros, não criadores absolutos.

Cada avanço atual só existe porque alguém, em outro tempo, fez o melhor possível com os recursos que tinha. Rir disso é ignorar a própria história.

Se queremos construir um futuro melhor, precisamos olhar para trás com mais curiosidade e menos desprezo.

Talvez a verdadeira evolução não esteja em achar que somos melhores do que os que vieram antes, mas em reconhecer que fazemos parte da mesma história, enfrentando desafios diferentes com ferramentas diferentes. E, como sempre, o futuro julgará a nós do mesmo jeito que hoje julgamos o passado.

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