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O futebol brasileiro é imune ao tédio. Se o campo não faz brotarem as notícias, os bastidores tratam de animar o ambiente.
A maior revolução nacional das últimas décadas veio amparada no discurso da justiça desportiva. Décadas de tradição de decisões em mata-mata no futebol brasileiro foram descartadas em prol da fórmula de pontos corridos, supostamente justa e necessária. Veio assim a era do modelo superior — ou pelo menos o modelo que os europeus escolheram como superior.
Mas nada dura para sempre e eis que a Série B virou caldeirão de experimentações da CBF de Samir Xaud. Assim, descartou-se o modelo clássico — os quatro melhores times da Segundona substituem os quatro piores da elite na próxima temporada — por uma fórmula inspirada nas divisões de acesso do futebol inglês.
Agora, campeão e vice da Série B seguem sendo promovidos, mas o terceiro e o quarto colocados terão de pôr suas supostas superioridades à prova em um confronto de mata-mata contra o sexto e quinto colocados, respectivamente.
Imune ao tédio, a CBF já sugeriu que outras mudanças podem vir nos próximos anos. Os clubes da Série A, por exemplo, pleiteam a diminuição da zona de rebaixamento e até um playoff para se salvarem da queda. Mais ricos, pretendem manter os privilégios, na lógica que se perpetua neste país há 500 anos ou mais.
Quis o destino que a minirrevolução na Série B viesse justo quando os times cearenses inventaram de ser rebaixados. Ironicamente, Ceará e Fortaleza ficaram em lados opostos da decisão.
O Alvinegro ficou ao lado de outras 16 equipes, que buscam renda extra com os mata-matas e a derrubada da pausa de mais de um mês durante a Copa do Mundo — período no qual a receita de jogos sumiria, mas as despesas com elenco seguiriam pesando. O Tricolor, ao lado de Sport e Náutico, ficaram sozinhos na defesa da fórmula tradicional, que 20 anos atrás era novidade.
Fato é que de tédio o fã de futebol não morre. E, agora, o torcedor cearense corre até o risco de assistir a um Clássico-Rei valendo acesso à Série A.