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Crise institucional no Peru não acaba após a eleição

O sindicalista Pedro Castillo lidera a corrida eleitoral contra a populista de direita Keiko Fujimori. Quem vencer terá o desafio de angariar apoios no fragmentado Congresso peruano, pivô da queda dos últimos presidentes do país
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 MILITANTE do candidato do partido Peru Libre, Pedro Castillo, segura um lápis gigante, símbolo da campanha (Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP)
Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP  MILITANTE do candidato do partido Peru Libre, Pedro Castillo, segura um lápis gigante, símbolo da campanha

A acirrada eleição presidencial no Peru, realizada no último domingo, 6, é um retrato da polarização política local. No país andino que tem cerca de 33 milhões de habitantes, dois candidatos de perfis opostos registram uma diferença de menos de 75 mil votos, com mais de 98% das urnas apuradas, segundo última atualização na noite dessa quarta-feira.

De um lado, a política tradicional e o populismo de direita encarnado em Keiko Fujimori. Do outro, uma promessa de reconfiguração do sistema comandada por Pedro Castillo, de esquerda. O pleito peruano expõe um país que demonstra, concomitantemente, vontade e medo de mudar.

Independentemente do resultado, a polarização e o clima de instabilidade no país, que chegou a ter três presidentes em uma semana em novembro do ano passado, não dão sinais de arrefecimento.

Castillo, que lidera a apuração, é professor, líder sindicalista e comanda o partido Peru Livre, de extrema esquerda. Entretanto é ultraconservador em pautas como aborto e casamento entre homossexuais.

Keiko é filha do ex-ditador Alberto Fujimori, o que por si só já lhe confere alta rejeição. Contudo, segue com influência nos grandes centros urbanos e consequentemente na direita peruana.

Embora Keiko defenda o livre mercado e Castillo aponte para um papel econômico mais ativo do Estado, ambos convergem em pontos específicos. Quem quer que ganhe, deverá fazer com que o país continue com um perfil conservador, sem aprofundar discussões em pautas como aborto, casamento igualitário e identidade de gênero.

O vencedor terá que ter ainda jogo de cintura para negociar com um Congresso fragmentado e que teve relações turbulentas com os últimos presidentes. A governabilidade, a princípio, será um desafio complicado.

O Congresso unicameral - não há Senado no Peru -, está dividido em cerca de dez agrupamentos políticos que não demonstram ter um plano ideológico em comum para o país.

Fato esse que deve continuar a agravar não só a relação entre Executivo e Legislativo, mas também a crise de representatividade no país que nos últimos anos, viu quatro ex-presidentes serem presos e um cometer suicídio minutos antes de ser conduzido à prisão.

A crise institucional dos últimos anos tornou-se terreno fértil para escalada da tensão, sobretudo em períodos eleitorais. Esse risco fez com que os candidatos à presidência pedissem, num primeiro momento, paciência até a conclusão da apertada apuração.

O candidato presidencial peruano de esquerda pelo partido Peru Libre, Pedro Castillo, acena para simpatizantes após votar em Tacabamba, região de Cajamarca, nordeste do Peru, em 6 de junho de 2021. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizadora entre o populista de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo quando elegem um novo presidente, em um país que busca a volta à normalidade após anos de turbulência política. (Foto de Ernesto BENAVIDES / AFP)
Foto: ERNESTO BENAVIDES / AFP
O candidato presidencial peruano de esquerda pelo partido Peru Libre, Pedro Castillo, acena para simpatizantes após votar em Tacabamba, região de Cajamarca, nordeste do Peru, em 6 de junho de 2021. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizadora entre o populista de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo quando elegem um novo presidente, em um país que busca a volta à normalidade após anos de turbulência política. (Foto de Ernesto BENAVIDES / AFP)

Mas a postura não demorou a dar lugar a acusações sem provas e troca de farpas. Na última segunda-feira, 7, Keiko disse ter detectado “irregularidades” no processo eleitoral após ser ultrapassada por Castillo.

Segundo ela, houve a impugnação de atas que lhe dariam vantagem e “há uma intenção clara de boicotar a vontade popular”. Já o Peru Livre, partido de Castillo, rejeitou as acusações e disse ser vítima histórica da prática. “Nunca recorremos à fraude, pelo contrário, sempre fomos vítima dela, e apesar de tudo, soubemos enfrentar e vencer”, escreveu Castillo no Twitter.

Na quarta-feira, 9, Castillo declarou-se vencedor das eleições, apontando para contagens extraoficiais. Com 98,3% das atas contabilizadas até às 14 horas da última quarta-feira, Castillo mantinha-se à frente de Keiko com uma margem pequena demais para que autoridades eleitorais sacramentassem a vitória.

Ele tem 50,206% dos votos válidos, contra 49,794% de sua adversária, segundo dados oficiais do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe).

 

A candidata presidencial peruana, de direita Keiko Fujimori, acena para seus apoiadores ao deixar a seção eleitoral após dar seu voto, durante o segundo turno presidencial em Lima, em 6 de junho de 2021. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizadora entre populistas de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo ao elegerem um novo presidente no domingo, em um país que busca a volta à normalidade após anos de turbulência política. (Foto de Luka GONZALES / AFP)
Foto: LUKA GONZALES / AFP
A candidata presidencial peruana, de direita Keiko Fujimori, acena para seus apoiadores ao deixar a seção eleitoral após dar seu voto, durante o segundo turno presidencial em Lima, em 6 de junho de 2021. - Os peruanos enfrentam uma escolha polarizadora entre populistas de direita Keiko Fujimori e o esquerdista radical Pedro Castillo ao elegerem um novo presidente no domingo, em um país que busca a volta à normalidade após anos de turbulência política. (Foto de Luka GONZALES / AFP)

O cientista político Fabio Gentile, PhD em Filosofia e Política pela Universidade L'Orientale, de Nápoles, analisa a situação do Peru como um reflexo da polarização em sociedades das Américas do Sul e Latina.

“O país reflete o rumo que a região está tomando, com sociedades mais polarizadas em diversas questões. No campo político essa polarização pode ser vista na crise institucional do Peru e agora nas eleições presidenciais, mas também pode ser vista nos recentes protestos na Colômbia e poderá ser vista ainda na eleição presidencial de 2022 no Brasil. É um fenômeno que marca a região mais fortemente há alguns anos”, destaca.

Para o pesquisador, a falta de um movimento de centro organizado na região contribui para o acirramento, assim como a crise de representatividade em diversos países. “O crescimento de movimentos mais radicais, principalmente no populismo de direita, não está atrelado somente ao desgaste de modelos da esquerda, mas também à falta de um polo de centro e de atores representativos e fortes o suficiente para se colocar como opção dentro dos países”, ressalta.

Uma residente peruana dá seu voto em uma mesa de votação na escola Salvador Sanfuentes em Santiago, Chile, em 6 de junho de 2021. - Com inúmeras comunidades ao redor do mundo, um milhão de peruanos votaram do Chile ao Japão, passando pela Espanha e pelos Estados Unidos, onde a disputada eleição presidencial entre a direita Keiko Fujimori e o esquerdista Pedro Castillo mobilizou milhares no domingo, preocupados com a
Foto: MARTIN BERNETTI / AFP
Uma residente peruana dá seu voto em uma mesa de votação na escola Salvador Sanfuentes em Santiago, Chile, em 6 de junho de 2021. - Com inúmeras comunidades ao redor do mundo, um milhão de peruanos votaram do Chile ao Japão, passando pela Espanha e pelos Estados Unidos, onde a disputada eleição presidencial entre a direita Keiko Fujimori e o esquerdista Pedro Castillo mobilizou milhares no domingo, preocupados com a

Sobre o contexto peruano, Gentile aponta que a tendência é de continuidade da polarização, mas com diferenças a depender do lado que sair vitorioso. No caso do populismo de direita, ele diz que o cenário transitaria pela “introdução de políticas neoliberais” e pela criação do que chama de “novo autoritarismo”. Uma democracia que caminha para rumos mais autoritários.

Já em caso de vitória da esquerda, Gentile projeta que, mesmo com determinadas mudanças radicais, a condução do país deve seguir respeitando “princípios constitucionais fundamentais”.

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