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Marco da articulação de cineclubes no Ceará, criação da rede Ciclo-CE completa 10 anos em março

V&A traça panorama da ação cineclubista no Estado - destacando conquistas, demandas e mudanças do segmento - a partir dos 10 anos da rede Cineclubes Organizados do Ceará
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Registro da exibição do filme 'O Fim do Esquecimento', em dezembro de 2015, no Mausoléu Castello Branco, atividade promovida pelo Cine Molotov (Foto: Cine Molotov / acervo)
Foto: Cine Molotov / acervo Registro da exibição do filme 'O Fim do Esquecimento', em dezembro de 2015, no Mausoléu Castello Branco, atividade promovida pelo Cine Molotov

Espaços de formação de público, construção de pensamento, difusão e estímulo ao acesso, cineclubes existem há quase um século. No âmbito local, um marco da prática constituiu-se de forma coletiva e horizontal em março de 2011: a rede Cineclubes Organizados do Ceará (Ciclo-CE), de apoio e articulação cineclubista no Estado, que conecta cerca de 70 iniciativas de diferentes regiões cearenses. Da constante luta pelo reconhecimento do poder público às conquistas no período, a rede tem uma história que ultrapassa a década de atuação.

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A partir de 2004, por exemplo, como lembra a pesquisadora e ativista cineclubista Carolinne Vieira, estudantes de cinema da Federal promoveram o Cineclube Casa Amarela Eusélio Oliveira. Já em 2009, o curso Pontos de Corte, da Vila das Artes (Secultfor), foi o primeiro contato de Alex Fedox, do Cine Molotov (realizado na Capital), e Virgínia Pinho, do Cine Colônia (de Maracanaú), com a prática.

Naquele mesmo ano, a promoção do edital Cine Mais Cultura - na gestão do ministro da Cultura Gilberto Gil, no governo Lula (PT) - estimulou a professora do IFCE Crateús Karla Gomes, hoje integrante do Cine Terça Diversa, a se conectar com o segmento a partir do Cine Poty, onde atuou até 2015. A política federal foi crucial para o momento exitoso dos cineclubes vivido entre a segunda metade dos anos 2000 e a primeira dos 2010.

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Foi a partir de 2008 que o Cine Mais Cultura auxiliou na criação de espaços de exibição não comerciais, ofertando formação cineclubista, equipamentos (como projetor, telão e aparelhos de som) e, ainda, obras brasileiras para serem exibidas. A efetiva política pública tem ligação direta com a criação do Ciclo-CE. "O Ceará cresceu vertiginosamente em números de cineclubes e, por isso, era necessária a efetivação de uma política de manutenção dessas ações enquanto governo estadual", explica Carolinne.

Após participar de eventos nacionais em 2010, um grupo de cineclubistas cearenses entendeu a importância da ação em união e propôs "um ajuntamento dos cineclubes que tivessem interesse de participar das questões políticas em torno do movimento local e nacional", contextualiza Alex. "O Ciclo-CE foi sendo cultivado com o suor de muitas lutas. Desde 2009 há um corpo coletivo que se mobiliza e se organiza em torno das questões cineclubistas no Ceará. Em 2011, esse corpo coletivo se entende como Ciclo-CE", define Virgínia, citando a realização, em março daquele ano, do I Seminário Cineclubismo, Cinema e Educação, "marco" de criação da rede.

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Antes mesmo da rede oficializada, cineclubistas do Estado se articularam para pressionar o reconhecimento da modalidade no edital Cinema e Vídeo da Secretaria da Cultura do Ceará, feito alcançado em 2010. Foi uma conquista importante, mas com desafios. "Além da irregularidade no lançamento (do edital), os investimentos em cineclubes não acompanham a curva de crescimento do investimento nas categorias de produção audiovisual", afirma Virgínia. A partir do edital de 2014, o valor destinado à modalidade foi diminuindo de forma considerável, o que levou à nova articulação do segmento cineclubista em 2019, quando conseguiu garantir mais recursos.

O cenário de tropeços e a situação federal da última meia década, com o desmonte de políticas culturais promovido pelo governo Bolsonaro, acentuam a visão de uma piora no cenário. "Ocorreu uma desmobilização e um retrocesso nas políticas de fomento à cultura em geral em nível nacional e isso repercute", observa Karla.

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"Temos a ação cineclubista bem difundida no Ceará, mas considero o cenário atual bem menos favorável que há 10 anos. Ações nacionais como o Cine Mais Cultura e a Programadora Brasil foram descontinuadas e isso é reflexo do momento político nacional que vivenciamos", concorda Virgínia.

Apesar dos pontos negativos, há espaço para celebrações. "Ao mesmo tempo, as novas tecnologias e as aparentes facilidades de produzir e exibir parecem mobilizar, principalmente em universidades e bairros/municípios periféricos, a necessidade de exibir, ver junto, conversar sobre o que os filmes dizem, calam ou reproduzem", aponta Karla. "A prática se consolidou em diversas regiões do Ceará. Acredito que várias sementes germinaram: a ideia de redistribuição e democratização do acesso audiovisual expandiu e muitos coletivos aguerridos e mobilizados por pautas identitárias e de resistência cultural não se permitem calar por qualquer exercício de opressão", reforça Carolinne.

Confira galeria com imagens de acervo dos cineclubes da matéria:

Ciclo-CE

Mais informações no Mapa Cultural de Fortaleza: bit.ly/CicloCEMapaCultural

Mapeamento em atualização: cutt.ly/9fBv9kX

Contato para dúvidas ou adição ao mapeamento: ciclo.ce@gmail.com

 

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