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45ª Mostra: "Titane", o corpo misantropo e outras crueldades

Programador do Cinema do Dragão e crítico, Pedro Azevedo analisa "Titane", exibido na 45ª Mostra de Cinema de SP
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Longa 'Titane' venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2021. Filme é o segundo da francesa Julia Ducournau (Foto: divulgação)
Foto: divulgação Longa 'Titane' venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2021. Filme é o segundo da francesa Julia Ducournau

"Titane" é o segundo filme de longa-metragem da cineasta francesa Julia Ducournau (de "Raw"), e, inacreditavelmente, é apenas o segundo filme dirigido por uma mulher a vencer a Palma de Ouro na competição oficial do Festival de Cannes. A instrumentalização dos corpos e o uso subversivo dos códigos do cinema de horror gore são algumas das marcas que Ducournau imprimiu na sua curta carreira enquanto realizadora, mas em "Titane" ela parece radicalizar a aposta e eleva esses traços a um outro nível de intensidade.

A sequência de abertura já antecipa dois dos elementos que seguirão presentes durante toda a projeção: a excentricidade ostensiva da protagonista Alexia (vivida por Agathe Rousselle), que, quando criança, sofre um grave acidente de carro por estar importunando o seu pai enquanto dirigia numa auto estrada; e a exploração gráfica dos corpos dilacerados, como quando filma em plano detalhe o implante de uma placa de titânio na caixa craniana de Alexia, consequência do acidente que lhe deixa uma cicatriz visível até a fase adulta.

O paralelo de "Titane" com clássicos como "Crash: estranhos prazeres" ou "A mosca" de David Cronenberg vêm logo à mente, mas há algo de original na abordagem de Ducournau que faz com que a sua obra ultrapasse a simples mimese de uma tipologia do cinema de horror gráfico e ocupe um lugar absolutamente particular dentro da cena do gênero na atualidade. Dito isso, "Titane" é um filme que levanta mais uma vez a clássica discussão da imagem intolerável vs. o intolerável na imagem. A exploração insistente da violência explícita serve como recurso que causa repulsa e, simultaneamente, humor. Essa ambiguidade constitutiva atravessa de forma mais presente a primeira metade do filme, quando acompanhamos uma Alexa já adulta em meio a um jogo de performances que mistura dança com metais, automóveis tunados e homicídios em série.

Há um traço profundamente misantropo nessa primeira metade, quando percebemos que não há afeto possível que atravesse Alexia nas suas relações: nem nas casuais, nem nas familiares. O que há é um teatro de horrores que explora com frontalidade a dilaceração de corpos como se fossem (como são?) apenas pedaços de carne a serem perfurados e retorcidos. Aí reside a maior fragilidade do filme, a meu ver, pois apesar de ser único na abordagem, ele parece seguir por um caminho de exploração da miséria humana que se filia a escolinha de misantropia de cineastas como Lars Von Trier ou Michael Haneke.

A certa altura da narrativa, após cometer uma série de homicídios e ser identificada pela polícia, a protagonista Alexia passa por uma mudança visual (e aqui um grande elogio à equipe de figurino e maquiagem) e assume provisoriamente a identidade de um garoto desaparecido há vários anos. É quando o ator Vincent Lindon surge em cena e, talvez, quando o filme passa a incorporar algum tipo de afeto (ainda que pervertido) entre dois personagens igualmente psicopatas: um pai solitário e uma assassina serial.

Alexia, aparentemente grávida de um carro, passa por rápidas transformações corporais, transmutando-se num híbrido máquina-humano, enquanto o personagem de Lindon, um bombeiro da região de Marselha, injeta esteróides (ou algo análogo) nos glúteos para manter a forma física. Ainda que o pai saiba que não está diante do verdadeiro filho desaparecido, os dois criam um forte vínculo afetivo que transita fluidamente do amor fraternal ao incesto. É desse encontro que emerge, afinal de contas, a parte mais atraente do filme, pois é justamente aí que a tal performance dos corpos dilacerados assume um outro tipo de posicionamento que não o da violência pelo choque ou pelo cinismo do registro irônico. Nesse sentido, "Titane" pode ser entendido como uma experiência um tanto ambivalente: um laboratório narrativo do corpo misantropo e outras crueldades.

Pedro Azevedo é crítico e curador do Cinema do Dragão. "Titane" estreia em breve no Brasil na plataforma Mubi

Confira trailer de "Titane":

45ª Mostra de Cinema de São Paulo

Quando: até hoje, 3 de novembro
Onde: virtualmente em www.mostraplay.mostra.org, para todo o País (filmes selecionados)
Mais info: 45.mostra.org ou @mostrasp

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