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Carta para dona Laura
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Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações

Carta para dona Laura

Cronista é uma espécie confusa, cheio de interrogações, e que mistura pessoalidades com enredos públicos
Tipo Crônica
Demitri 270725 (Foto: Colagem Cristiane Frota com imagens de acervo pessoal e adobestock
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Foto: Colagem Cristiane Frota com imagens de acervo pessoal e adobestock Demitri 270725

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Uma amiga da minha irmã Régia, perguntou se eu era delicadeza a maior parte do tempo. Brincou porque lia o Diário Besta, no Instagram, e leu algumas colunas em algum tempo no jornal O POVO de papel e no O POVO .

Respondi rindo e agradeci dizendo que habitam alguns pedaços em nós que são poesias (ínfimos), mas há também estações chuvosas, verões quase insuportáveis, serenos nos ossos, tempestades e inundações.

Tenho épocas extremamente agradáveis e períodos acuados, medrosos das extinções e sim, há vulcões inexplicáveis e que preciso de alguém ou alguma árvore, ou algum rio (mesmo poluído feito o Cocó e o Ceará), ou pássaro comum, para aquietar os aperreios. Tenho brutezas também.

 

"Ela, redigo, tem um coração de beija-flor. Um dos corações mais veementes"

 

Nesses últimos dias de julho e os ventos chegando, deste 2025 gasturento, tenho pensado num ser vivo sublime. Lúcida, mas o coração de beija-flor já pedinte, dona Laura tem me feito ruminar sobre minhas dispensáveis indelicadezas e desencontros. Ela é uma duna da Sabiaguaba.

Dona Laura, apresento, é minha primeira sogra. Existe o senso comum de que sogras não deixam de ser. Pois se for, agradeço a oportunidade de ter sido seu genro aos 20 e poucos anos e minhas imaturidades.

Ela, redigo, tem um coração de beija-flor. Um dos corações mais veementes. Enquanto batemos de 60 a 100 batimentos por minuto, o miudinho alado chega ao façanhoso dos 1200 batimentos em 60 segundos. Isso não é poesia, talvez seja poema.

 

"Por mim e pelos meninos e a menina, preciso reverenciá-la e agradecê-la por também criar Saulo, Sarah e Pedro"

 

Ali, na UTI da Unimed, sempre acompanhada de algum neto, filho ou nora, consciente da delicadeza ao redor, aguarda sempre por uma visitação amorosa. Numa espera de árvore e jornadas! Uma vida quase inteira na enfloração.

Dona Laura Leite também gosta do "talvez". Sim, talvez tudo e, também, o mais ou menos. O possível e o amor segundo ela mesmo (e deve ser amor mesmo), apesar do machismo perene.

Por mim e pelos meninos e a menina, preciso reverenciá-la e agradecê-la por também criar Saulo, Sarah e Pedro. Cada um, um amor diferente com ela e as mesmas canções de ninho. Feito uma dança de São Gonçalo e a avó em transcendência de avó, apenas elas sabem.

 

"Todos eram mimos e atenções para os recém-chegados e dona Laurinha continuava mãe da menina crescida"

 

E vi, mil vezes, cuidava da filha Virgínia cada vez que a via parir. Todos eram mimos e atenções para os recém-chegados e dona Laurinha continuava mãe da menina crescida, mas ainda "Ninhinha". Os peitos fartos da "hija", os cortes do resguardo e a vigília maternal da mãe da mãe.

Há avós que não são bacanas, tive uma bisavó que não gostava de meus cabelos "cacheados", do meu corpo pardo. Não a culpo, sofreu cercos portugueses e de outros invasores desde menina e orgulhava-se de ter alguma parte com os marranos chegados pelo Camocim.

Dona Laura também foi sitiada, povo de Belém do Pará. Portugueses brancos, racistas, mas ela reescreveu algumas histórias. Foi professora no grupo escolar Elvira Pinho e se não desaprendeu a história mal contada no Brasil, entendeu e distribuiu delicadezas.

 

"Não sei explicar, é uma sentimentalidade de cronista. Talvez, o coração de beija-flores"

 

Estimada leitora e caro leitor, peço desculpas por tantas pessoalidades numa crônica de jornal. Poderia ser apena uma carta íntima. É que tenho de visitar e abraçar dona Laura. Penso que o fiz em várias ocasiões, talvez a tenha ferido quando veio a apartação inesperada. Reconheço minha imaturidade e machismo.

Dona Laura, a senhora é poema e poesia. A diferença? Não sei explicar, é uma sentimentalidade de cronista. Talvez, o coração de beija-flores. O poema aquieta, bota para dormir. A poesia alvoroça as asas, desperta. Faz bater por felicidades experimentadas.

É o que ofereço pra senhora em um texto de abraços, interrogações e reconhecimentos.

 

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