jornalista, com pós-graduação em Propaganda e Marketing (Uni7) e em Moda e Comunicação (Universidade de Fortaleza). Já atuou como assessora de comunicação, repórter do Núcleo de Revistas do O POVO, jornalista na área de branding e design, e produtora de conteúdo no Penteadeira Amarela, um dos primeiros blogs de comportamento do Ceará. A ligação com a moda surgiu ainda na faculdade, quando teve contato com os bastidores da moda, passando a vê-la como forma de expressão individual, de manifestação cultural e de reflexão social. Atualmente, é editora-adjunta de projetos do O POVO.
Foto: João Luís (joOao.Com)/Divulgação
O estilo de Bernardo o tornou modelo na campanha "Do seu jeito", de 2022, realizada pelo RioMar Fortaleza e assinada pela agência Advance.
Bernardo Lamparina conhece e fala com propriedade sobre liberdade. Hoje aposentado, conversou comigo após alimentar suas galinhas no sítio em que vive, no distrito de Serrote do Meio, em Itapajé.
E mesmo frisando em vários momentos que atualmente quase não tem roupa, percebi ao longo da entrevista que o estilo segue intrínseco - e o acompanha nas pedaladas diárias.
Voltando um pouco no tempo, o fluminense de 73 anos conta que sempre gostou de se vestir diferente. Durante o movimento hippie, vivia em São Paulo e afirma com quase absoluta certeza que usou cabelo black power antes mesmo do Tony Tornado aparecer.
"Fui muito perseguido pela polícia no meio da rua, porque a polícia quando via preto e cabeludo achava que era vagabundo. Você tinha que andar com a carteira assinada, documentos, porque senão você ia preso", relata.
Foto: João Luís (joOao.Com)/Divulgação
Lamparina em ensaio registrado pelo fotógrafo João Luís. As imagens foram cedidas ao O POVO pela assessoria de imprensa do RioMar Fortaleza. Na foto, ele posa ao lado de Alódia Guimarães
A irmã, que trabalhava em uma grande indústria de tecido, levava para casa os refugos que seriam descartados, mas que nas mãos do alfaiate Pingo se transformavam em roupas. Outrora, era a vez dos saldões da antiga loja de departamentos Mappin serem reformados e ganharem um novo visual.
Já em Fortaleza, trabalhou como produtor gráfico e publicitário, atuando em pastas do poder público municipal voltada para população negra e se fazendo presente em movimentos sociais negros.
Nessas últimas experiências teve contato com a realidade econômica da população negra e criou a Rede Kilofé, uma malha de negócios de empreendedorismo negro do estado do Ceará. Os participantes eram, em sua maioria, mulheres, todas do campo da moda, de produção, de acessórios.
Entre as africanas, o destaque eram os tecidos e as vestimentas. A mistura resultava em uma moda ainda mais rica e algumas marcas foram frutos, como a Negro Piche e a Casa de Xicas.
Mesmo "sem talento" (palavras de Bernardo), suas criações fugiam do comum e, vez ou outra, viravam até itens comercializados. Lamparina era sua própria vitrine. Seu olhar apurado e gosto diferenciado sempre resultavam em peças sob medida, customizadas e que arrancavam elogios.
Como ele se sente? "A gente fica contente, como todo criador. Igual quando eu fazia texto, mesmo sendo texto publicitário. Com a roupa, me dá vontade de fazer mais, mas eu sei das dificuldades que é trabalhar com isso. E aí eu não me meto de maneira alguma".
E se puder escolher o look ideal, Bernardo começa com o básico. Uma camisa (geralmente estampada) e uma calça bonita, podendo ser até jeans. Mas complementa: "Mas tem que ser uma calça diferente!".
Se o cabelo estiver grande, ele ganha uma atenção a mais. Senão, o visual é complementado com um chapéu ou um boné "diferenciado". "Eu gosto de chegar em um canto e ser observado, eu me sinto, acho legal".
Para ele, se vestir é compartilhar a sua identidade. "Você me mostra quem você é e eu mostro um pouco de quem eu sou para você. A pessoa que se veste diferente, é uma pessoa que, para mim, pensa também diferente na nossa sociedade".
Não é só comprar uma roupa pronta e usar. "Quando ela usa essa roupa de maneira diferenciada, ela dá a essa roupa um pouco do que ela é e aproveita a oportunidade para mostrar que é uma pessoa diferente. Eu sinto que eu tenho muitas diferenças, nem para melhor, nem para pior, mas que são coisas diferentes", completa.
Foto: Acervo pessoal/Divulgação
Bernardo Lamparina fala sobre a sua relação com a moda e, em especial, os tecidos e estampas africanas.
Quando pergunto se ele acha que tem idade para se vestir e pensar diferente, Bernardo é enfático. "Não, não, não, não, não, não. Eu acho que existem energias diferentes, eu não posso pensar em fazer algo cuja energia necessária é de um rapaz de 30 anos."
"Mas em outras coisas, principalmente na moda, tanto uma pessoa de 15 anos, 16 anos e uma de 100 anos, são capazes de pensar uma roupa diferente, de se vestir diferente, e também fazer coisas que costumeiramente outras pessoas não fariam", complementa.
Um exemplo, ele cita, foi a mudança de hábito e a descoberta de um novo hobby. A bicicleta, citada no início do texto, passou a ser sua companheira aos 64 anos ou 65 anos. O percurso de 130km até a capital do Ceará e as demais cidades do Enterior são feitos sempre na "magrela" - sem esquecer das camisas com as estampas e cores do pano africano.
Moda e etarismo: estilo tem prazo de validade?
Quando Diana entra em um ambiente, é difícil não observá-la e admirá-la. A primeira vez que a vi, pensei: "(insira aqui um palavrão), que mulher estilosa!". Diana de Moraes não revela a idade - eu juro por Glória Maria que eu tentei.
Foto: SF/Divulgação
Diana de Moraes sempre se expressou através da moda
Mas fui rebatida com um: "Idade cola e vira justamente isso do que pode e não pode. Deixe subentendido, pois afinal sua matéria trata de etarismo. Enigma às vezes é bom". Respondi com um "kkkkk" e dei meu caso por encerrado.
Para a psicóloga e empresária, se vestir significa um bom entendimento consigo. Sem planejamento, diz que o look escolhido depende de como gostaria de articular o corpo e os pensamentos através do invólucro naquele dia e momento.
O uso das roupas como forma de expressão é algo orgânico para ela. Tanto que nem lembra de um momento de "mudança de chave". "Detestava, quando criança, as roupas que minha mãe decidia que eu vestisse (e quem não?)", declara.
Foto: SF/Divulgação
Os looks de Diana são montados organicamente
Já na adolescência, trazia elementos que proporcionavam acolhimento quando recorria a peças de roupa comuns a todos. "Acho que era uma forma de me subjetivar", reflete.
Se a passagem do tempo traz também maturidade e "jogo de cintura", Diana diz com tranquilidade o que faz para driblar as convenções sociais e seus impedimentos para se vestir exatamente como deseja: "O que tento fazer é não me trair totalmente nesse movimento fazendo uma boa costura entre mim, o que gosto e o que convém".
Os sapatos estão ligados às suas escolhas e, na lista de itens favoritos, os tênis lideram o ranking. Eles integram a imagem que ela constrói e que, sem falsa modéstia, a permite se considerar uma mulher estilosa, mas que destaca que o vestir está acompanhado de um estilo, o seu.
"Ademais, cabe a cada um o seu sentir-se bem. Sou contra universalizar conceitos, ditar o que está ou não na moda, acho isso cafona demais", diz.
Para quem já reproduziu ou definiu uma classificação etária de qualquer roupa ou acessório, a empresária vai na contramão e mantem-se elegante quando afirma só ter pensado no rótulo de "idade apropriada" após se deparar com discussões acerca do tema.
"Para mim, entra na mesma categoria impositiva do que um gordo ou um baixo devem usar. Não era mais sequer para estarmos nessa".
E conclui: "Acho ultrapassado, uma vez que moda, como a arte, é polissêmica, podendo carregar consigo vários sentidos de si, e não esvaziá-los atribuindo tal decisão à idade ou alguma outra categoria".
As vozes (e os looks) da experiência
Uma micro curadoria de perfis para seguir e se inspirar
Quando estava em busca de personagens para essa pauta, Sil foi o nome que todos sugeriram. Não à toa. A musa alencarina é uma das precursoras da moda cearense e sinônimo de estilo. Além de fazer evento como ninguém!
Silvania de Deus participa de programação gratuita na Pinacoteca do Ceará
Crédito: Jamille Queiroz/Divulgação
Quando criança, Margret, gostava de se vestir. O tempo passou e o que ficou foi sua paixão por pulseiras e pérolas. Para nossa sorte, a neta Diana Kaumba, stylist, resgatou essa paixão. Hoje, é impossível não se encantar com seus looks.
Na próprio bio, ele se descreve como um homem heterossexual, fã de porsche que ama calçar saltos e saias, diariamente. Aos 66 anos, posa de meia-calça, saia, regata e uma cervejinha na mão.
Com o tempo, meu corpo ganhou fluidez e as roupas o seguem
Regina Ribeiro, jornalista, 60 e poucos anos
Já faz bons anos que comecei a ter consciência do meu corpo e descobri que me vestia para escondê-lo de todas as formas. É verdade que sempre gostei de muito pano. Saias gigantes, blusas imensas e vestidões sempre fizeram parte da minha vida e, para mim, estava tudo ótimo. Continuo gostando, mas de um jeito diferente.
Foto: JoaoFilho Tavares
Regina Ribeiro: "Com o tempo, meu corpo ganhou fluidez e as roupas o seguem"
Lembro-me do meu marido comparar minhas roupas a "burcas": sóbrias demais, largas demais, longas demais.
"E se você usasse alguma coisa mais curta?" Nunca dei muita trela para esses comentários. Um vez, porém, ao me ver dentro de um vestido preto, midi, mangas três quartos, estruturado em renda, que havia me custado uma pequena fortuna, ele brincou: "Para onde vai a minha Mortiça?", me deixando irritadíssima.
Foi necessário muito trabalho interno para que eu me desfizesse, aos poucos, das camadas de roupas e conseguisse reconhecer meu corpo, agradecer por ele e gostar dele como ele é. Mais recentemente, a biodança me revelou que boa parte da cachoeira de lágrimas que jorravam na terapia estava inscrita no meu corpo.
Enquanto deixava os movimentos seguirem seu curso, uma espécie de dança íntima trazia à tona o corpo que eu tentava esconder a todo custo. Não gostava dos braços longos, das pernas finas, do colo magro.
Era como se minha mente quisesse viver independente dos membros, do dorso, enfim, de mim mesma, e claro, do próprio corpo. Dançando e no encontro com outras pessoas, pude perceber o quanto meu corpo tem vida e quer vivê-la.
Outro dia, percebi que os shorts são roupas ótimas para ir ao cinema, passear no shopping e que minhas pernas finas me levam a qualquer lugar. Mas isso era impensável há bem pouco tempo. Agora, frequento as araras das bermudas e shorts das lojas, uso roupa sem manga com cicatriz à mostra.
Tenho a nítida sensação de me vestir com alegria, sem a pressão (in)consciente de esconder nada. Minha roupa tornou-se reflexo do meu bem-estar. Continuo amando a fluidez das roupas largas, mas é o meu corpo que sinto que está mais fluido. As roupas apenas seguem o movimento.
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